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Conferência: Pensando no futuro


BiodieselBR.com - 13 fev 2010 - 15:12 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 11:01

Empresários, gestores públicos, analistas e pesquisadores se reuniram em Curitiba para discutir os rumos do mercado de biodiesel no Brasil

Alice Duarte, de Curitiba

O desempenho da indústria brasileira de biodiesel nos últimos anos não só tem despertado o interesse e a confiança dos investidores, mas também chamado a atenção da comunidade internacional. Não é por menos. Batendo recordes sucessivos de produção, o Brasil tem grandes chances de se tornar o segundo maior produtor global em 2009. O otimismo pode ser diagnosticado pelos grandes investimentos públicos e privados que estão a caminho desse mercado, recém-expandido para o B5. Mas esse franco desenvolvimento gera responsabilidade e desafios à altura dessa ascensão. Para tentar elucidar as perspectivas para o futuro, a Conferência Biodiesel- BR 2009, realizada em outubro em Curitiba, reuniu empresários, pesquisadores, analistas e gestores públicos de todo o Brasil.

A adição de 5% de biodiesel no diesel já em janeiro vai trazer uma demanda anual de 2,47 bilhões de litros, um alento para os produtores. Mas é evidente que a indústria não vai se conformar em ficar limitada ao B5. Principalmente porque no curto prazo serão somados mais 1 bilhão de litros de capacidade, sem falar dos demais projetos previstos para um horizonte próximo.

O problema para criar percentuais maiores de mistura, segundo o diretor do Departamento de Energias Renováveis do Ministério de Minas e Energia, Ricardo Dornelles, é o aumento do preço ao consumidor, já que o biodiesel é cerca de 60% mais caro que o óleo diesel. No entanto, é bom lembrar que essa conta não considera o quanto o setor movimenta a economia, incrementa a arrecadação, gera emprego e diminui a necessidade de importação de diesel.

Para viabilizar misturas maiores, ainda será preciso mudar a lei 11.097/05 (que limitou a mistura a um máximo de 5%), conseguir a garantia das montadoras para os motores e melhorar o balanço energético das usinas e o aproveitamento de resíduos industriais. Além, é claro, dessa questão do preço do biodiesel. “Temos que trabalhar fortemente na redução de custos, aumentar a competitividade agrícola e industrial, para que o país com a vocação do Brasil tenha destaque na produção e uso de biocombustíveis”, reforçou Dornelles.

Entre as soluções apresentadas na conferência, destaque para a necessidade de integrar o esmagamento de grãos à produção de biodiesel e priorizar a logística – construindo usinas próximas tanto dos pólos produtores de oleaginosas, como dos mercados consumidores do combustível e do farelo.

Em um ponto, todos os palestrantes concordaram. Se não houver eficiência e redução de custos na primeira fase da cadeia, na produção agrícola, o biodiesel não será competitivo. Principalmente porque a matéria-prima representa cerca de 80% dos custos de produção. Para Univaldo Vedana, consultor na área, é preciso um maior apoio do governo na formação de arranjos produtivos para que haja boa oferta de oleaginosas. “Os produtores não vão plantar sem incentivos e políticas públicas”, disse.

Todos querem ver o setor menos dependente da soja, não só pelas acusações de competição entre combustível e alimentos, mas principalmente porque a oleaginosa é pouco eficiente em termos de óleo, que representa só 18% do grão. “Os 82% restantes vão para produção de ração animal, ou seja, viram alimento. O biodiesel, portanto, está barateando o preço do farelo, e não tirando alimento das prateleiras”, disse Erasmo Battistella, diretorsuperintendente da BSBios. Não dá para ver a soja como vilã. Com 30 anos de investimentos e ganhos de 15% em produtividade só na última década, a commodity possui cadeia produtiva estruturada e por isso, segundo os especialistas, continuará dando suporte ao programa nos próximos anos, enquanto outras oleaginosas são desenvolvidas. Mas Vedana faz um alerta: “Podemos ficar limitados ao B10 caso não haja empenho na produção de culturas alternativas”.

Dentro das opções, as principais apostas estão no cultivo do dendê no Norte do país, do pinhão-manso no Semi-Árido, da canola no Sul e do crambe para a entressafra no Centro-Oeste.

Vedana destacou o potencial do cultivo do crambe, que teria condições de oferecer escala para a indústria de biodiesel se fosse plantado em 1 milhão de hectares ociosos no inverno. “No Centro- Oeste, nada é plantado em 70% da área disponível nesse período”, ressaltou. A vantagem é que o cultivo do crambe custa cerca de um terço dos custos de plantio do milho. No entanto, há necessidade de mais pesquisas para adaptar a única cultivar existente, a FMS Brilhante, ao clima de cada Estado. Além disso, é preciso estruturar arranjos produtivos regionais, criando garantias de compra da produção.

O professor de engenharia química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Donato Aranda, é um dos entusiastas do uso da palma na fabricação do biodiesel, cujo custo de produção ficaria em torno de US$ 44 por barril. “O Pará possui cerca de 20 milhões de hectares degradados. Se metade dessas áreas degradadas fossem ocupadas com a palmácea, daria para abastecer o Brasil inteiro de B100. E isso é estimativa conservadora”, disse o pesquisador.

Outra matéria-prima abundante que poderia dar um bom reforço ao programa de biodiesel são os óleos e gorduras residuais (OGRs). Os envolvidos no setor há tempos reivindicam um programa federal de aproveitamento desses resíduos, que têm grande potencial de inclusão social e, por isso, poderiam estar na norma do selo Combustível Social. O governo tem dito que a questão está em fase de análise, mas não há qualquer sinal de que algo acontecerá até o final do mandato de Lula. “Não tem como dar isenção fiscal ao óleo usado se não há mecanismos para fiscalizar. Isso não ganhou a velocidade que se quer por essa razão”, disse Dornelles.