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Algodão: a alternativa atual


BiodieselBR.com - 13 ago 2009 - 13:19 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 11:47
Com ganhos de produtividade e mercado consolidado, algodão ocupa o posto de segunda oleaginosa mais produzida no Brasil e terceiro insumo mais utilizado pela indústria de biodiesel

Bruna Tiussu, de São Paulo

Quando se pensa na principal vantagem do algodão para a fabricação de biodiesel a resposta é, por mais estranho que pareça, porque a espécie não é cultivada para essa finalidade. O principal objetivo da produção é atender a grande demanda da indústria têxtil. Já o caroço do algodão – de onde é extraído o óleo, a torta ou o farelo –, está cada vez mais valorizado devido à demanda por bioenergia. O óleo, antes considerado um subproduto desta cultura, se tornou em 2008 a terceira opção de matéria-prima para a indústria de biodiesel, com pouco mais de 2% da produção total do biocombustível, atrás da absoluta soja e do sebo bovino.

Além de possuir um mercado consolidado, o algodão ganha adeptos por não concorrer com outras oleaginosas destinadas ao consumo humano, como a soja, a canola e o dendê. Principalmente por essa razão, o pesquisador e chefe-geral da Embrapa Algodão, Napoleão Beltrão, considera a planta completa e um excelente produto para a indústria de biodiesel. “Ela é considerada o ‘boi vegetal’, pois tem tudo: fibra, óleo e proteína. O ideal seria usar a soja para suprir as necessidades alimentícias e produzir biodiesel a partir do óleo do algodão, complementado pelo de dendê”, defende.

O percentual de óleo extraído do caroço do algodão, segundo o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), varia de 18 a 20%, dependendo da cultivar, do sistema de plantio e do tipo de extração adotado. Já a Universidade Federal de Lavras (Ufla) informa um percentual que varia de 16 a 26%. Este índice ainda é baixo, se considerarmos a média das demais matérias-primas, como o pinhão-manso (35%) e o girassol (43%). Para alavancar ainda mais seu potencial para a produção de biodiesel, a Embrapa Algodão trabalha atualmente no desenvolvimento de cultivares que apresentem maior concentração de óleo sem perder a qualidade da fibra. A instituição registra, em média, de uma a três cultivares por ano.

“Nosso próximo objetivo é desenvolver uma cultivar que ofereça 30% de óleo, mas mantendo a qualidade da fibra, de forma que o produto sirva tanto para a produção de biodiesel quanto ao setor têxtil”, informa o pesquisador da Embrapa. Lançada há seis anos, a cultivar BRS Aroeira é a que apresenta índices de óleo mais altos até agora, com aproximadamente 27%, além de fibra de boa qualidade.

Qualidade
Em termos técnicos, o processo de obtenção do óleo do algodão e sua qualidade final são alguns dos grandes desafios enfrentados pelas indústrias do setor. Apesar de ser um produto estável – apresenta equilíbrio de ácidos graxos saturados e insaturados –, possui 16 substâncias fenólicas que dificultam os processos químicos e contribuem para que ele seja considerado um óleo cheio de impurezas, interferindo na qualidade do biodiesel obtido. Para uma produção satisfatória, os custos aumentam: as indústrias têm que tratar o óleo antes da fabricação do biodiesel, o que demanda a utilização de mais produtos químicos em diferentes processos de purificação.

Segundo João Luiz Ribas Pessa, presidente da Cooperativa de Biocombustíveis (Cooperbio), de Cuiabá (MT), esse custo adicional para purificar o óleo do algodão é o grande entrave para o crescimento do seu uso pelas usinas. “Se o óleo fosse obtido na sua condição ideal, seriam raras as indústrias que não poderiam utilizá-lo”, considera.

Dentre as 65 usinas de biodiesel autorizadas a operar no Brasil, cerca de dez já adotam o óleo do algodão como matéria-prima, e a Cooperbio está entre as que o utiliza em maior escala. Idealizada pelos produtores de soja e algodão do Mato Grosso, a Cooperbio foi criada para resolver o problema de logística que enfrentavam, ou seja, para integrar a produção de grãos, a extração do óleo e a produção de biodiesel. “Com a usina instalada, a matéria-prima que plantamos é também consumida por nós mesmos na fabricação do biodiesel”, diz Pessa.

A Cooperbio conseguiu autorização da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) para comercializar biodiesel em fevereiro deste ano. Inaugurada em janeiro, a usina trabalha hoje com 30% da sua capacidade e a meta é alcançar os 100% nos próximos meses. Em plena atividade, a usina poderá fabricar até 122,3 milhões de litros de biodiesel ao ano.