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Produção de biodiesel: desequilíbrio entre oferta e demanda


BiodieselBR - 02 fev 2009 - 20:31 - Última atualização em: 23 jan 2012 - 10:26
A indústria de biodiesel encerra seu primeiro ano apresentando números impressionantes, mas ociosidade das usinas preocupa o setor.

Fábio Rodrigues, de São Paulo

De zero a três bilhões de litros. É essa a medida exata do salto que a indústria brasileira do biodiesel deu desde que o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) foi lançado, em dezembro de 2004. Que não fiquem dúvidas: esse foi um momento épico na saga do capitalismo tupiniquim e os protagonistas dessa história têm excelentes motivos para estufarem o peito e se gabarem de ter atingido resultados substanciais em pouquíssimo tempo. O problema é quando essa euforia autocongratulatória passa. Ela é substituída por uma perplexidade que cabe em somente duas palavrinhas: “E agora?”

Resumindo o impasse à sua forma menos elaborada: a capacidade de produção instalada tem dado passos mais largos que a demanda. Isso leva a incômodos índices de capacidade ociosa nas usinas e faz entrar em cena, quase automaticamente, um dos princípios mais consagrados da economia – a chamada lei da oferta e procura –, que estabelece que numa situação onde a oferta supera a demanda, a tendência é de baixa nos preços e conseqüente dificuldade operacional, principalmente para as pequenas e médias usinas.

O setor já sentiu na pele os efeitos mais nefastos dessa lei nos leilões 6 e 7 da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), realizados em novembro de 2007. Na ocasião, o excesso de oferta contribuiu para derrubar os preços do biodiesel e colaborou para converter o primeiro semestre de 2008 num período de vacas magras para a indústria como um todo. É o tipo de situação que dificilmente pode ser considerada boa para um segmento que ainda está em busca de seu ponto de equilíbrio econômico.

Ainda não dá para dizer que há uma crise sistêmica, mas nuvens escuras andam rondando o horizonte. Segundo o presidente do conselho da União Brasileira do Biodiesel (Ubrabio) e diretor da Granol, Juan Diego Ferrés, se nada for feito para reaquecer a demanda existe o risco de uma “depuração de mercado precoce”. “Permitir isso seria jogar fora parte significativa do esforço que a sociedade brasileira vem realizando para viabilizar o biodiesel”, diz ele, em tom de alerta.


Contornando o problema

O debate sobre a melhor forma de contornar a possível tormenta promete ser uma queda de braço entre produtores e governo federal. Para a Ubrabio a solução seria botar o pé no acelerador e ampliar a mistura obrigatória o quanto antes. “Defendemos que o governo federal adote o B5 rapidamente. Entendemos que já temos uma capacidade produtiva com folga confortável para que a gente dê esse passo. Acho que poderíamos começar com o B4 agora em janeiro e passar para o B5 no começo de 2010”, declara Ferrés.

No outro lado, o governo federal considera que a solução proposta pelos empresários poderia ter efeitos adversos. Sem chegar a descartar a possibilidade de uma antecipação do B4 e do B5 – na mesma linha do que já aconteceu com o B3 – o coordenador do Conselho Executivo Interministerial do PNPB, Rodrigo Rodrigues, disse que existem pelo menos duas boas razões para que o governo não ceda aos desejos dos produtores. Primeiro vem o quesito preço, que ainda pesa desfavoravelmente contra o biodiesel quando comparado ao diesel de petróleo. O governo calcula que o preço do óleo diesel nas bombas tenha ficado até 1,8% mais caro por causa da mistura do B3. “Se acabarmos provocando mais inflação ao aumentarmos a mistura obrigatória, não vamos ajudar ninguém, nem mesmo os fabricantes de biodiesel”, pondera Rodrigues.

O outro fator que vem fazendo o governo manter as barbas de molho é a bem conhecida dificuldade que o setor enfrentou para conseguir dar conta de entregar os volumes de biodiesel negociados nos leilões da ANP ao longo deste ano – em mais de um momento as empresas deixaram de entregar quase um terço do biodiesel encomendado. Verdadeiro abacaxi, que só pôde ser descascado com a ajuda da Petrobras. A estatal teve que desembolsar um total de R$ 957 milhões na realização de sete leilões adicionais, com os quais formou os estoques estratégicos para atender o B3.