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As mudanças no sistema de leilões


Out/nov 2008 - Por Fábio Rodrigues, de São Paulo - 24 out 2007 - 16:08 - Última atualização em: 23 jan 2012 - 10:41

Melhorias

O superintendente de abastecimento da ANP, Edson Silva, assume que o modelo dos leilões 6 e 7 é, ao menos parcialmente, responsável pelo semestre ruim da indústria. “Esses leilões tiveram prazos de entrega extremamente longos numa indústria em que os custos são voláteis e isso acabou se tornando um grande problema. Além disso, como a gente opera um leilão reverso em que o preço começa num patamar máximo e depois vai caindo conforme a disposição dos concorrentes, aconteceu uma canibalização entre as empresas”, admite. Mas relativiza relembrando que “todo o negócio tem seus riscos que precisam ser administrados com boas estratégias e muita competência” 

Para tentar remediar esses dois problemas, as regras foram reformuladas para o 8º e o 9º leilões, acontecidos em abril passado. Primeiro, o pregão deixou de ser feito de forma virtual e passou para a modalidade presencial com limitação no número de lances que as empresas podem fazer para cada lote o que reduz as chances de, no calor da disputa, os concorrentes assumirem uma postura predatória. A outra foi a redução do prazo de entrega de seis para três meses, o que diminui os riscos que os produtores precisam assumir no ato da venda. “O sistema não é perfeito, mas esses ajustes sinalizam nossa preocupação em fazer o sistema avançar”, diz Silva sinalizando que, depois a mudança o deságio ficou em razoáveis 4% nos leilões 8 e 9 e, nos dois últimos, ficou abaixo de 1%.

Há quem considere insuficiente. “Eu trabalho há quase 30 anos com commodities e nunca tinha visto variações tão grandes seja nas cotações da soja e nas taxas cambiais. Não acho boa idéia tratar o biodiesel dentro de um regime de preços definidos quando o mercado está fazendo movimentos imprevisíveis”, avalia Lavor. “Então se é para continuar com os leilões, o melhor seria que eles fossem realizados mensalmente para que possamos ter uma visão um pouco mais precisa das condições de mercado e, mesmo assim, continuaríamos errando bastante”, ataca.

José Carlos Aguilera também reclama da ausência de uma cláusula de indexação que permitisse ajustar os preços dos volumes do biodiesel arrematado nos leilões em razão das flutuações das matérias-primas. “Eu nunca entendi a falta de um mecanismo como esse, seria uma forma de proteger tanto os produtores quanto os compradores, afinal os preços podem oscilar para baixo também”, questiona o executivo.

Segundo Silva, a ANP chegou a analisar a possibilidade de uma cláusula desse tipo em seus contratos de compra e venda, mas acabou de mãos atadas por causa da lei que institui o Plano Real em 1994. “Ela veda o reajuste de preços públicos o que, infelizmente, é o caso do preço do biodiesel”, lamenta o superintendente.

O engasgo

As dificuldades provocadas por esse clima de incerteza foram percebidas em todas as suas cores às vésperas do 10º e 11º leilões. Definir os preços de referência de cada leilão é um truque cabalístico complexo que faz uso de uma planilha no qual entram os preços futuros das principais oleaginosas em diferentes praças, os custos estimados de manutenção das usinas, a mão-de-obra, os impostos e as famosas taxas de hedge que aumentam as margens de segurança da operação. Preenchidos todos os dados, a ANP chegou a um preço de referência que seria de R$ 2,40 por litro, mas nem bem esse valor havia sido anunciado e os preços da soja em Chicago inverteram a tendência de queda e dispararam novamente. Os produtores ficaram em polvorosa.

Percebendo que o medo dos produtores ameaçava fazer naufragar justamente os leilões que garantiriam a introdução do B3, a União Brasileira do Biodiesel (Ubrabio) resolveu entrar em cena. “Embora não seja nosso papel atuar em questões pontuais como os preços definidos pela ANP para os leilões, a gente percebeu que muitos produtores estavam pensando seriamente em não participar do leilão. Se isso acontecesse seria um revés enorme para o programa do biodiesel como um todo”, avalia o diretor executivo da organização, Sérgio Beltrão. Atuando para apagar o fogo antes que o incêndio se instalasse, a Ubrabio levou as preocupações do setor até a ANP e os preços acabaram sendo revistos para R$ 2,62.

“Constatamos que não era apenas um movimento atípico, mas que havia problemas estruturais envolvendo a safra dos EUA que poderiam sustentar uma nova alta dos preços. Com base nesses dados a gente resolveu melhorar o preço de referência”, justifica Edson Silva.