Mamona

Aplicações para a Torta da Mamona


BiodieselBR - 01 fev 2006 - 23:00 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

Torta de mamona como alimento animal

Para o melhor entendimento do grande valor da torta de mamona veja a análise do teor de aminoácidos essenciais da torta de mamona e na torta de soja, onde se percebe que o produto extraído da mamona possui teores muito menores dos aminoácidos Triptofano e Lisina. Animais ruminantes (bovinos, ovinos e caprinos) não dependem do balanço de aminoácidos da ração, pois os microrganismos que participam de seu processo digestivo sintetizam os aminoácidos essenciais, motivo pelo qual a torta de mamona é uma alternativa promissora como alimento para ruminantes. Porém, devido à escassez de alguns aminoácidos, ela não pode ser utilizada como única fonte protéica de animais monogástricos (cavalo, suíno, aves, peixes).

Na década de 60, a “Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro S.A. – SANBRA” iniciou a produção de uma torta de mamona destoxificada denominada Lex Protéico (Perrone et al., 1966). A partir de então, algumas pesquisas com alimentação animal foram realizadas no Brasil, obtendo-se resultados satisfatórios com o uso desse produto. Por ser protegido por patente, o processo utilizado pela SANBRA não foi divulgado. O uso do Lex Protéico em diversos experimentos (relatados adiante) confirma a eficiente eliminação da toxidez, embora Perrone et al. (1966) tenham detectado a presença de alérgenos. Segundo ICOA (1989), a experiência de produção do Lex Poteico foi satisfatória, visto que o produto foi utilizado durante vários anos na alimentação de milhares de animais, sem que tenham sido relatados problemas com intoxicação. Não foram encontrados relatos na literatura sobre a razão por que o
Lex Proteico deixou de ser produzido e comercializado.

Também na década de 1960 houve significativos plantios de mamona nos Estados Unidos, notadamente no Estado do Texas, sendo concomitantemente realizados intensivos programas de alimentação animal com torta de mamona. O somatório de tecnologias desenvolvidas permitiu que se desenvolvesse um produto livre de toxidez, com boas qualidades nutricionais, utilizando-se processos baseados em calor e umidade, basicamente aquecimento por vapor. No entanto, o processo visava apenas à eliminação da toxicidade, mantendo-se a ressalva de que o produto ainda possuía alergenicidade, embora este tenha sido um problema mais relacionado às pessoas que manipulavam o produto que aos animas com ele alimentados (ICOA, 1989).

Miranda et al. (1961) testaram o uso da torta destoxificada (Lex Protéico) comparada à torta de soja na alimentação de vacas leiteiras. O Lex Protéico não intoxicou os animais e trouxe resultados próximos ao da torta de soja, embora os autores tenham expressado a necessidade de conduzir experimentos com maior duração para dispor de avaliação mais segura em relação ao produto.

Bose e Wanderley (1988) estudaram torta de mamona destoxificada em mistura com feno de alfafa em diferentes proporções para alimentação de ovinos e concluíram que a adição de torta de mamona ao feno de alfafa traz benefícios, aumentando a digestibilidade das proteínas e da energia, sem qualquer relato a problemas com intoxicação dos animais.

Em uma série de estudos realizados em 1979 na Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais, avaliou-se o efeito da torta destoxicada sobre o desempenho, valores hematológicos, proteinograma, atividade de algumas enzimas e alterações histopatológicas do fígado em suínos (Souza, 1979; Benesi, 1979; Vieira, 1979). O farelo de soja foi substituído pela torta de mamona em três níveis (33%, 66% e 99%) e se testou também a complementação da torta com aminoácidos essenciais e um tratamento com reautoclavagem para se verificar se ainda restava efeito tóxico na torta destoxificada. Concluiu-se que a substituição do farelo de soja por torta de mamona destoxificada piorou o desempenho dos suínos em várias características estudadas, inclusive causando danos ao fígado e anemia. Porém, esses sintomas foram causados pela deficiência de alguns aminoácidos essenciais e não por efeito tóxico de ricina. A complementação da dieta com os aminoácidos Lisina e Triptofano proporcionou desenvolvimento dentro da normalidade. A redução no teor de Lisina pode ter sido causada pela alta temperatura a que a torta possivelmente foi submetida no processo de destoxificação, efeito observado por Mottola et al. (1971).

A partir da década de 80 não foi mais possível encontrar relatos na literatura de pesquisas com o uso da torta de mamona para alimentação animal no Brasil. É provável que a torta de mamona destoxificada tenha se tornado pouco competitiva em relação à torta de algodão que estava disponível em grande quantidade e que tinha custo relativamente menor por não precisar ser submetida ao processo de destoxificação. Nos anos seguintes, a produção brasileira de mamona declinou acentuadamente e a quantidade de torta disponível deixou de ser uma das importantes alternativas para alimentação animal, o que provavelmente deixou de atrair a atenção de pesquisadores.