Fabricantes tiveram pedido para a formação de um comitê de crise negado pelo governo
A situação do mercado brasileiro de óleo diesel está reduzida a uma guerra de versões: distribuidores reclamam que, por falta de biodiesel, precisam racionar o volume de combustível que estão entregando aos postos; já as usinas negam que haja problemas. Todas as três entidades representativas do setor – Abiove, Aprobio e Ubrabio – divulgaram notas nas quais garantem que a oferta vem sendo suficiente. Em meio ao tiroteio, os dados oficiais que poderiam esclarecer de vez se há mesmo um rombo no abastecimento e qual seu tamanho real, continuam sendo divulgados à conta-gotas e os pedidos dos feitos por fabricantes de biodiesel para que fosse criado um comitê de crise ficaram sem resposta.
Hoje, quem busca os números oficiais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) sobre as vendas de combustíveis no país tem acesso aos dados com pelo menos um mês de atraso. Foi só no final da tarde da última quarta-feira (24) que os volumes referentes ao mês de maio passaram a ser disponibilizados na nova área de painéis dinâmicos do portal da agência. Já quem procura a página de dados estatísticos, tem acesso aos dados só até abril. A atualização é esperada para a semana que vem.
Em tempos normais, essa demora não seria um grande problema. Acontece que não estamos em tempos normais. A crise do coronavírus desestabilizou substancialmente o mercado de combustíveis durante terceiro bimestre.
O recrudescimento da epidemia no Brasil e adoção de políticas de isolamento social e restrição à mobilidade adotadas para combatê-la deixou turva a bola de cristal que as distribuidoras costumam usar para projetar suas compras a cada leilão de biodiesel. Tanto é que a abertura do Leilão 72 teve que ser adiada em uma semanas enquanto representantes da cadeia tentavam se entender.
A situação do mercado brasileiro de óleo diesel está reduzida a uma guerra de versões: distribuidores reclamam que, por falta de biodiesel, precisam racionar o volume de combustível que estão entregando aos postos; já as usinas negam que haja problemas. Todas as três entidades representativas do setor – Abiove, Aprobio e Ubrabio – divulgaram notas nas quais garantem que a oferta vem sendo suficiente. Em meio ao tiroteio, os dados oficiais que poderiam esclarecer de vez se há mesmo um rombo no abastecimento e qual seu tamanho real, continuam sendo divulgados à conta-gotas e os pedidos dos feitos por fabricantes de biodiesel para que fosse criado um comitê de crise ficaram sem resposta.
Hoje, quem busca os números oficiais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) sobre as vendas de combustíveis no país tem acesso aos dados com pelo menos um mês de atraso. Foi só no final da tarde da última quarta-feira (24) que os volumes referentes ao mês de maio passaram a ser disponibilizados na nova área de painéis dinâmicos do portal da agência. Já quem procura a página de dados estatísticos, tem acesso aos dados só até abril. A atualização é esperada para a semana que vem.
Em tempos normais, essa demora não seria um grande problema. Acontece que não estamos em tempos normais. A crise do coronavírus desestabilizou substancialmente o mercado de combustíveis durante terceiro bimestre.
O recrudescimento da epidemia no Brasil e adoção de políticas de isolamento social e restrição à mobilidade adotadas para combatê-la deixou turva a bola de cristal que as distribuidoras costumam usar para projetar suas compras a cada leilão de biodiesel. Tanto é que a abertura do Leilão 72 teve que ser adiada em uma semana enquanto representantes da cadeia tentavam se entender.
Ambos os lados estavam dispostos a flexibilizar a regra de entregas do L72 – quanto do biodiesel comprado durante o leilão teria que ser, de fato, entregue. A questão era ‘quanto’? Normalmente as distribuidoras são obrigadas a retirar pelo menos 95% do volume comprado nos leilões. Caso contrário, elas têm que pagar multa de R$ 300 para cada m³ que deixam para trás. Por causa do coronavírus, as distribuidoras queriam poder retirar menos biodiesel. Algumas distribuidoras pediam redução para 50%. As usinas ofereciam 90%. No fim, a ANP optou por uma solução a meio do caminho e fixou o patamar em 80%.
Falta de informação
Esse foi o marco zero de uma sequência de erros que levou a: um leilão fraco; dificuldades em série com as entregas do biodiesel; um leilão complementar e, por fim, a uma redução inédita da mistura obrigatória de 12% para 10%.
Toda essa situação poderia ter sido evitada – ou, ao menos, minimizada – se o mercado tivesse contado com informação melhor. Segundo BiodieselBR.com apurou, os fabricantes chegaram a sugerir que fosse criado um Comitê de Crise que pudesse nivelar as informações entre os elos da cadeia. “A gente pediu para ver os dados [de venda de diesel] que são públicos, mesmo que fosse uma versão preliminar. Que não tivéssemos que esperar até que a ANP publicadsse os números finais lá na frente”, ressaltou o economista chefe da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Daniel Amaral. “A ideia era trazer informações para que todas as partes entendessem o que estava acontecendo e a gente só consegue isso apresentando os números. Não tem outra forma”, completa.
Essa proposta foi apresentada cerca de três semanas antes da abertura do L72 tanto por vias informais quando por meio de um ofício datado de 23 de abril endereçado ao MME e à ANP. Mas a ideia não foi para frente. “Não recebemos nenhuma justificativa clara [do porquê da recusa]. A alegação sempre foi de que as autoridades estavam acompanhando os dados”, diz.
Segundo Daniel, o comitê teria tornado possível chegar ao L72 com uma ideia mais precisa de como a epidemia estava afetando o mercado. “Em três semanas, a gente teria um quadro bem mais completo do que estava acontecendo”, avalia. Sem isso, cada ator acabou ilhado. “A gente olhava para os nossos números e não víamos uma queda tão grande assim nas entregas, mas a gente só tinha parte do todo”, acrescenta.
Novo capítulo
A situação mais recente parece repetir esse mesmíssimo problema. Enquanto algumas distribuidoras reclamam da falta de biodiesel, as usinas apontam que há biodiesel grades de carregamento em quantidade suficiente para atender à demanda. “A gente ouve dizer que está faltando produto, mas, aí, o caminhão do distribuidor não aparece na usina para buscar o biodiesel que estavam comprando”, prossegue Daniel.
A falta de retiradas também foi ressaltada pela Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio) em nota que foi divulgada à imprensa nessa sexta-feira (26). “As produtoras de biodiesel estão registrando um aumento do ‘no-show’ – quando existe o agendamento para retirada do biodiesel, mas o veículo das distribuidora não comparece”, protestou a organização.
Já a Ubrabio destacou que o problema é menos de abastecimento do que de transparência por parte da distribuição.
BiodieselBR.com procurou as representações dos distribuidores, mas não obteve retorno até o horário de fechamento deste texto. Uma pessoa ligada ao setor que preferiu se manter anônimo, disse à reportagem que “existem problemas pontuais, a logística está complicada, as distribuidoras estão trabalhando no osso, mas não está faltando biodiesel.”
Por meio de sua assessoria de imprensa, a ANP também informou à reportagem que “não tem conhecimento de falta de diesel em nenhum posto revendedor” e que segue “monitorando a situação”; mas que considera o volume de biodiesel comercializado nos leilões 72 e 74 “mais que suficiente para atender à demanda prevista” e que, por isso, “não pensa em reduzir [novamente] a mistura de biodiesel no diesel”.
Em meio ao dito pelo não dito, o mercado aguarda – pacientemente – a divulgação dos dados oficiais para poder tirar a prova dos nove. “A gente sabe que estamos falando de uma época que tem grandes desafios, queremos entendê-los para poder colaborar”, finaliza Daniel.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com