Valor pago pela glicerina brasileira subiu 205% em 18 meses.
Valor pago pela glicerina brasileira subiu 205% em 18 meses.O mercado de exportação de glicerina está a todo vapor. O Brasil não apenas encerrou o ano passado com recordes simultâneos de volume exportado e faturamento – foram 304,6 mil toneladas e US$ 103 milhões – como entrou em 2018 vendendo muito bem.
Um fator, no entanto, vem chamando a atenção do mercado: as cotações da glicerina que não param de subir. No segmento de glicerina bruta que responde por, mais ou menos, 80% das exportações brasileiras, as cotações já vêm subindo a ladeira já faz um ano e meio com uma alta acumulada nesse período já chega a 205%.
O mercado de exportação de glicerina está a todo vapor. O Brasil não apenas encerrou o ano passado com recordes simultâneos de volume exportado e faturamento – foram 304,6 mil toneladas e US$ 103 milhões – como entrou em 2018 vendendo muito bem.
Um fator, no entanto, vem chamando a atenção do mercado: as cotações da glicerina que não param de subir. No segmento de glicerina bruta que responde por, mais ou menos, 80% das exportações brasileiras, as cotações já vêm subindo a ladeira já faz um ano e meio com uma alta acumulada nesse período já chega a 205%.
Em janeiro, o valor médio recebido pela tonelada da glicerina bruta ficou em US$ 440,47. Um ano antes o valor estava abaixo de US$ 172. Esse é o melhor preço para o produto desde junho de 2008 – poucos meses depois da mistura de biodiesel se tornar obrigatória no Brasil – quando a cotação estava em US$ 475,55.
Em escala menor, a glicerina destilada também vai de vento em popa. No mês passado, a cotação média ficou em US$ 870,26. A valorização em um ano chega a 88,6%. Embora não seja, nem de longe, o melhor valor para esse produto -- em agosto de 2008 ele chegou a valer US$ 3.658,73 – é notável a forma como o mercado se estabilizou a partir de 2014 [veja gráfico] tornando-se uma opção muito mais confiável para as usinas. 
Como, 10 anos atrás, o país exportava apenas uma fração da glicerina que embarca hoje em dia, é difícil negar que o principal coproduto das usinas está vivendo sua melhor fase do ponto de vista comercial.
Causas
Segundo o diretor comercial da trading Prisma Brazil, João Artur Manjabosco, estamos na ponta beneficiada por uma “tempestade perfeita”.
Por um lado, temos a China – país que absorve algo entre 70% a 80% das exportações brasileiras – endurecendo sua legislação ambiental para tentar controlar a poluição. Isso tem levado ao fechamento de químicas locais que antes disputavam com a glicerina brasileira o mercado de epicloridrina – intermediário usado na produção de resinas, plásticos e elastômeros. “Também temos uma elevação no preço da Epicloridrina que, dentre outros fatores, cria as condições para o cenário atual”, disse em entrevista por e-mail.
Também temos sido beneficiados por derrapadas de nossos concorrentes diretos como a Argentina e a Indonésia. Em agosto, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos anunciou que passaria a cobrar tarifas antidumping sobre o biodiesel fabricado pelos dois países.
A turbulência no mercado de biodiesel levou a um enxugamento da oferta também no segmento de glicerina. “Como eles estão enfrentando dificuldade para a colocação do biodiesel, estão produzindo menos glicerina”, explica a diretora da Lumina International, Carla Vilas Boas Romero, acrescentando que embora a Argentina venha dando sinais de que pode ter uma recuperação relativamente rápida, a Indonésia não está tendo a mesma facilidade. “O biodiesel de [óleo de] palma não está mais sendo aceito na Europa o que está levando a uma redução na oferta [de glicerina] no Sudeste Asiático. Esse vem sendo um fator determinante para a sustentação da alta nos preços”, prossegue.
B10
E há pouca chances da Indonésia sair do atoleiro no curto prazo. “Estive na Ásia acompanhando uma conferência e o que ouvi lá é que não existe uma perspectiva para a Indonésia”, completa Carla.
Com um grande player fora da disputa – pelo menos temporariamente – a grande dúvida do mercado passa a ser qual será o impacto da chegada do B10 no Brasil. Nas contas da Prisma, o aumento da mistura obrigatória acrescentaria mais 10 mil toneladas de glicerina ao mês à oferta global.
Para João Artur não se deve esperar um impacto imediato. “Ainda estamos vindo de um mercado que está estressado e desabastecido”, pondera apontando que os níveis dos estoques globais estão relativamente baixos o que pode dar sustentação aos preços atuais por mais algum tempo. Ele, no entanto, acha que a tendência para o médio prazo é que o mercado esfrie um pouco. “Minha expectativa para o segundo semestre é baixista. Se olharmos os fundamentos do mercado, há necessidade de uma correção porque algumas aplicações para a glicerina perdem sentido nos níveis atuais [de preços]”, avalia.
Esse movimento pode ganhar força se a Argentina realmente conseguir mesmo voltar a colocar volumes expressivos de biodiesel no mercado europeu o que pode coincidir com o pico de oferta que virá na esteira do B10.
Embora concorde que o mercado está “curto” em termos de oferta o que pode limitar movimentos mais bruscos de queda, para Carla esse movimento de ajuste já começou a se insinuar. “Temos sentido uma certa pressão vindo de compradores da China por uma redução nos preços”, diz apostando que esse processo deve começar a acontecer nos próximos dois ou três meses.
Por outro lato, ela aponta que a perspectiva de longo prazo continua otimista com a demanda chinesa se sustentando e novas plantas de epicloridrina a caminho do mercado. “No fim, tudo vai depender do que vai acontecer com a demanda na China, mas eu acredito que ela vai se manter elevada e que isso fará os preços continuarem relativamente firmes”, especula.
Destilada
Outro ponto a observar nas perspectivas para o mercado brasileiro será a chegada de novas plantas de destilação de glicerina nos próximos meses. “Isso deve mexer bastante com o mercado uma vez que o produto refinado é muito mais sensível a aumentos de oferta”, afirma João Artur.
Isso promete ser um salto similar ao vivido pela indústria em 2014. Antes, o produto destilado representava entre 1% e 2% do total exportado. A partir de 2014, a proporção disparou e vem rondando a marca dos 20% nos últimos três anos.
A Potencial Biodiesel deve colocar sua unidade de refino de glicerina para rodar até o final do primeiro semestre.
Contudo, nosso desempenho no mercado de glicerina destilada deve continuar esbarrando numa dificuldade criada pelo mix de matérias-primas usadas no Brasil. O mercado prefere glicerina destilada produzida a partir de 100% óleo vegetal, algo raro por aqui. “Temos poucos produtores de biodiesel que fabricam 100% com óleo vegetal o que acaba limitando nossa glicerina destilada”, diz. Um problema, no entanto, que não chega a ser intransponível. “Exportamos para muitos países, no fim vamos conseguir achar um destino para toda a produção”, tranquiliza Carla.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com

Dados completos sobre os preços da glicerina por mês, por porto de saída e com preços diferenciados por país de destino estão disponíveis no BiodieselDATA.