Leilões de biodiesel

27º leilão: preços de referência desagradam usinas


BiodieselBR.com - 04 set 2012 - 11:31 - Última atualização em: 05 set 2012 - 15:22
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Na segunda-feira passada (27) a ANP divulgou o edital do 27º Leilão de Biodiesel. Embora não traga grandes novidades em relação ao edital anterior, muitos usineiros ficaram simplesmente furiosos com os preços de máximos de referência (PMRs) propostos. A insatisfação é tamanha que na sexta-feira (31) a Aprobio apresentou um pedido formal para a que agência reveja os valores.

A instisfação geral entre os fabricantes é que, dada a conjuntura nem um pouco favorável do mercado de soja somado a outros aumentos recentes nos custos das usinas, os preços propostos pela ANP são impraticáveis. “As empresas, sem exceções, estão muito preocupadas porque esses valores não remuneram a produção”, pondera o secretário do Sindicato das Indústrias de Biodiesel no Estado do Mato Grosso (Sindibio-MT), Rodrigo Prosdócimo Guerra, acrescentando que tem usinas já pensando em ficar de fora da disputa ou participar com capacidade reduzida.

Na visão de Guerra, os PMRs simplesmente não acompanharam a variação das cotações da soja registradas no mercado de Chicago e nas principais praças do mercado interno que, segundo o entrevistado, vêm apresentando considerável descolamento em relação ao mercado norte-americano nos últimos meses. “Os preços que eles colocaram no biodiesel não têm a menor lógica. Minha impressão é que eles devem ter mudado a forma como calculavam o preço de referência até agora, porque não faz o menor sentido em relação ao que eles vinham fazendo antes”, opina.

É uma conta que o economista da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Leonardo Botellho, também faz. “O problema é bem simples, o preço da ANP não subiu tanto quanto o preço do óleo de soja”, resume acrescentando, entretanto, que a decisão de se vale a pena ou não vender biodiesel a esses preços cabe exclusivamente a cada empresa. “Cada uma tem seus cálculos. Pode ser que para algumas valha a pena vender mesmo que entrando com volumes menores”, arrisca.

Contrariedade
Sem meias palavras, o diretor executivo da Cesbra Carlos Omar Polastri, declara-se “indignado” com a forma pouco transparente como a ANP vem conduzindo os processos de formação de preços para o setor. “A ANP vem com um critério obscuro que ninguém sabe direito qual é e que parece não ter a menor lógica. É uma falta de respeito”, protesta o empresário para quem a ANP trata a formação do preço do biodiesel como uma “caixa preta”. “Tem um ditado que diz ‘nunca dá para saber o que sai de cabeça de juiz’, eu acrescentaria que da caneta da ANP também não dá”, ironiza.

Polastri ressalta ainda que as altas não pararam nas matérias-primas, também foram registrados aumentos consideráveis em outros custos da indústria como no metanol, metilato de sódio e nos fretes. “Está tudo subindo e a ANP teve a cara de pau nos dar esse aumento no biodiesel. Isso em um trimestre que historicamente apresenta um aumento dos custos por causa da entressafra. É uma falta de respeito”, impacienta-se.

Um pouco menos indignado – mas também perplexo – está Francisco Flores, gerente da Fiagril. Indo contra a opinião da maioria ele diz que os PMRs da ANP ainda estão dentro da margem de viabilidade, mas que as margens estão tão apertadas que se as distribuidoras não entrarem para valer na disputa e pagarem um ágio “bom”, as usinas “terão que pagar para trabalhar”. “Contar com isso é muito arriscado”, pontua.

E mesmo levando em conta que há outras matérias-primas além da soja, a conta não fecha. “Se você analisar o movimento dos preços do mix de matérias-primas usados normalmente no Brasil, o movimento dos valores de referência não acompanharam. É uma questão aritmética, os custos subiram mais”, comenta Geraldo Martins, diretor da Fertibom.

Aprobio
O clima anda tão carregado que a Aprobio enviou uma carta protestando sobre os PMR do 27º Leilão endereçada à própria diretora-geral da ANP, Magda Chambriard. Nas contas da Aprobio, os PMR precisariam estar até 11% mais elevados apenas para compensar as variações da matéria-prima registradas do leilão 26 para cá (veja tabela abaixo).

Na carta, a Aprobio salienta que a defasagem nos preços poderá gerar problemas para que os produtores de biodiesel possam obter matéria-prima a preços compatíveis ao volume a ser negociado. Um aviso de peso considerável para levarmos em conta que, historicamente, a performance de entregas do setor tende a ficar abalada sempre que os preços nos leilões ficam muito apertados em relação à matéria-prima. 

“Dessa forma entendemos ser imperiosa uma revisão dos valores dos PMR’s constantes do referido Edital”, completa a carta que também solicitava uma reunião com a diretoria da ANP para discutir a questão. Procurada por essa reportagem a Aprobio não quis se pronunciar.

A Ubrabio também foi procurada, mas não deu retorno.

R$ 5
Além de apertados, há, pelo menos, mais um problema sério com os preços definidos pela ANP. De acordo com as regras estabelecidas pela Portaria MME 476/2012 os preços praticados no leilão deverão ser múltiplos de cinco, pormenor que foi ignorado pelos técnicos da agência. Esse descuido torna o PMR anunciado pela ANP no edital letra morta uma vez que as ofertas das usinas terão que parar, no máximo, no valor múltiplo de cinco logo abaixo do PMR.

Esse fato foi apontado em coluna publicada no dial 28 de agosto por Miguel Angelo Vedana.


Fábio Rodrigues
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