Cenário geopolítico dificulta decisões de agentes sobre diesel
O cenário geopolítico traz incertezas para o setor de petróleo que dificultam a tomada de decisão por parte de agentes que atuam no mercado de diesel, avaliam executivos do segmento. Decisões que exigiam mais tempo de análise agora são tomadas em questão de minutos diante da volatilidade nos preços do petróleo e do derivado no mercado externo, segundo os especialistas
A avaliação é que não há risco aparente de desabastecimento no segundo semestre, mas o quadro tende a ser mais apertado. Até o fechamento desta edição, a diferença entre o diesel vendido pela Petrobras no mercado doméstico frente ao exterior, estimada pela Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), era de 51%, ou R$ 1,86 por litro.
Depois da ruptura causada pela guerra no Oriente Médio, que eclodiu no fim de fevereiro, o mercado tenta entender qual deve ser o cenário para os próximos meses, de acordo com executivos que participaram de workshop sobre diesel no Argus Rio Crude Conference, na quarta-feira (20). Traçar cenários ficou mais difícil porque fatores que antes eram improváveis se concretizaram, como o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passavam 20% da produção global de petróleo.
Até postagens do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em uma rede social podem causar variação expressiva nos preços do petróleo e do diesel. “Temos que esperar o que é inesperado. Não há limitação do que vai acontecer”, disse Rafael Valim Pereira, diretor de trading de combustíveis claros da Atem Distribuidora.
O executivo afirmou que o segundo semestre traz elementos que vão adicionar incertezas ao mercado de distribuição regional e revenda. Um ponto é a possível chegada do El Niño ao Brasil, prevista por especialistas para os próximos meses. O efeito climático causa seca ao Norte do país, área de atuação da Atem, o que dificulta o transporte de combustíveis para regiões mais remotas da Amazônia: “Deve começar em setembro e estender até dezembro, janeiro.”
Pereira avalia que os postos de combustíveis aprenderam a acompanhar o mercado de forma diferente. A guerra, disse, trouxe uma velocidade de repasse de custos que não se via antes. “A qualquer oscilação, costumávamos segurar um pouco antes de repassar. Com o início da guerra, o posto repassa mais rápido ou não compra na esperança de que pode comprar mais barato em dias”, disse.
Gustavo Giron, diretor da empresa de trading BGN para as Américas, salientou que a velocidade das notícias do conflito tornou mais difícil a atividade de comercialização do derivado: “Tem sido bem difícil gerenciar esse risco de fornecimento. Entendemos que no passado as empresas tomavam decisões [de compra] com 45 dias de antecedência. Agora, decidem no último minuto”, afirmou.
Milena Mansur, gerente sênior de trading da Ipiranga, disse que a preocupação da empresa é com o segundo semestre. Isso porque, até então, o que se observa é que há poucas compras de diesel oriundo do Golfo do México americano e muito produto russo chegando ao país desde o início do ano, por causa do período sazonal de baixa demanda doméstica da Rússia. “Se essa virada [no mercado] acontecer no segundo semestre, se todo mundo tiver que comprar de novo e se, de alguma forma, tiver menos produto disponível no Brasil, acho que, em julho e agosto, podemos passar por algum tipo de soluço”, avaliou Mansur, acrescentando que as empresas de distribuição passaram a manter estoques curtos, a ponto de comprar “da mão para a boca”, e aumentaram a eficiência nas operações logísticas.
Amance Boutin, gerente de desenvolvimento de negócios da Argus, afirmou que as empresas têm enfrentado desafios para precificar produtos importados e que as incertezas sobre a tomada de decisões têm elevado as margens pelos agentes da cadeia de combustíveis para manter a viabilidade dos negócios. Os desafios incluem câmbio, custo do frete e, especialmente, a relação com autoridades, que buscam gerir as altas de preços de combustíveis. Esse cenário, observou Boutin, não é exclusivo do Brasil. “Em muitos países, empresas ou entidades de classe foram intimadas pelo governo para explicar por que os preços subiram de maneira indevida, na visão deles.”
Fábio Couto – Valor Econômico


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