Pesquisa

Pesquisa da Unicamp tem bons resultados misturando diesel e etanol


BiodieselBR.com - 08 jul 2013 - 17:53 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53

Para reduzir os custos que a cadeia produtiva da cana-de-açúcar tem com combustível – gasto principalmente no maquinário pesados usado durante o processo de colheita e transporte da cana entre o campo e as usinas –, o engenheiro mecânico da Unicamp, Ricardo Roquetto Moretti, pesquisou em seu trabalho de mestrado a possibilidade de adicionar etanol anidro ao B5 disponibilizado no mercado. Sua pesquisa aponta para a viabilidade de misturar até 3% de álcool anidro ao óleo diesel.

Na verdade, a composição da mistura passa a ser ternária: 92,15% de óleo diesel, 4,85% de biodiesel e 3% de etanol anidro. Isso gera uma economia em torno de 1,5% a 2,0% na conta da indústria com combustíveis.

O pesquisador explica que a primeira parte do trabalho envolveu os testes de miscibilidade – a capacidade de misturar – álcool no óleo diesel e mantê-los misturados sob diferentes condições de temperaturas. A segunda preocupação foi garantir que a nova mistura mantivesse as mesmas propriedades do combustível original do ponto de vista do índice de cetano – que determina o poder de explosão do combustível.

Os testes de bancada foram realizados num motor mecânico típico e grande, com 136 cavalos de potência, de emprego generalizado em caminhões, máquinas e equipamentos em usinas de açúcar e álcool. Os resultados obtidos mostraram que o consumo da mistura se manteve equivalente ao diesel comum mantendo o torque e potência do motor, sem necessidade de alterações.

O orientador de Moretti, o professor Waldir Antonio Bizzo, esclarece que o próximo passo envolve testes de campo que possam atestar a durabilidade do motor quando submetido em longo prazo ao uso da nova mistura. Se os resultados forem favoráveis, acrescenta ele, “a mistura proposta pode vir a se tornar padrão, referendado pela Agência Nacional do Petróleo, desde que a conjugação de outros fatores, como a relação de preços entre álcool e diesel, a viabilizem”.

Motivações
Ao contrário de outros alunos de pós-graduação strictu sensu que se dedicam exclusivamente à pesquisa como bolsistas, Ricardo Moretti, desenvolveu sua pesquisa enquanto atuava como engenheiro mecânico numa empresa privada.

Bizzo esclarece que não é raro que a relação entre os estudantes e seus empregadores costuma se constituir no maior obstáculo ao envolvimento acadêmico do seu colaborador. Com efeito, Moretti é desde 2002 o primeiro aluno especial orientado pelo professor a concluir a dissertação. As desistências costumam ocorrer em função de mudanças na chefia ou o local de trabalho entre outras razões. 

Origens
Ricardo Moretti trabalha no departamento de tecnologia da Raízen, joint venture envolvida com produção de etanol e açúcar. O grupo tem interesse em um balizamento sobre a possibilidade de juntar ao diesel o próprio álcool anidro que produz, com vistas à redução dos custos de produção tornando a indústria mais competitiva e menos dependente do diesel.

A possibilidade de adoção dessa nova mistura passa a existir desde que o álcool anidro seja ofertado com preço menor do que o diesel. Moretti se mostra otimista. “Minha empresa soube esperar o tempo necessário ao desenvolvimento acadêmico do trabalho, que espero tenha surtido o efeito por ela desejado”. As expectativas do orientador e do pesquisador são de que o trabalho tenha continuidade. O pesquisador agora se prepara para iniciar seu doutorado estudando as implicações que o uso da mistura ternária pode ter, ao longo do tempo, nos motores convencionais do ciclo diesel.

Academia e Indústria
Para o professor Bizzo, a indústria nacional não possui tradição em pesquisa e seus capitães não têm consciência da contribuição que a universidade pode oferecer-lhes. Mesmo os poucos segmentos industriais que alardeiam a manutenção de pessoal de P&D raramente praticam pesquisa mantendo, de fato, eficientes departamentos de engenharia. “A maioria das indústrias nacionais nem engenharia boa pratica, pois se atém aos problemas o dia a dia. A indústria nacional não passa de reprodutora de processos. É a minha visão e constitui uma crítica generalizada”, afirma.

Para Bizzo, o desenvolvimento de produtos e processos deve ser atribuição da indústria que pode e deve contar com a cooperação da Universidade. É o que ocorre nos países de tradição industrial nos quais em torno de 90% das pesquisas e desenvolvimentos se realizam nas próprias indústrias.

Com adaptações BiodieselBR.com