'Soja ainda dá dinheiro, mas não paga a conta', diz especialista
Plantar soja no Brasil ainda dá lucro — mas só isso já não é suficiente para manter muitos produtores de pé. Em meio a margens comprimidas, a pior dos últimos 20 anos, alta de custos e endividamento crescente, o setor entra em um novo ciclo de incertezas que deve impactar diretamente a próxima safra, que começa em 1º de julho.
Para Marcos Rubin, CEO da Veeries, consultoria agrícola, o problema vai além do desempenho operacional. Mesmo com resultado positivo no papel, a conta não fecha no caixa.
Na prática, o cenário combina uma queda nos preços das commodities após o ciclo de alta recente com uma estrutura de custos mais pesada, resultado de decisões tomadas nos anos de bonança. O resultado é uma “tempestade perfeita”, nas palavras do executivo, que já leva agricultores a frear investimentos, rever o plantio e, já deve mexer com a safra 2026/27.
Leia a entrevista
As margens para o setor de soja estão as piores dos últimos 20 anos. Plantar soja não dá mais dinheiro para o produtor?
Marcos Rubin: Essa equação do produtor se divide em dois conceitos: o lucro econômico e o financeiro. Quando se olha para o resultado econômico da soja e do milho, esses produtos ainda dão dinheiro — pouco, mas dão. É o famoso EBITDA: o EBITDA do agricultor ainda é positivo. O problema é que esse EBITDA não é suficiente para pagar os investimentos feitos na expansão de área, na compra de maquinário, em equipamentos de irrigação e em armazenagem, realizados quando a soja estava a R$ 180 a saca. Existe, portanto, uma certa confusão ao se dizer que “a soja não está dando dinheiro". Na verdade, ela ainda gera uma margem, mas essa margem é pequena e insuficiente para cobrir os investimentos feitos no passado. É esse o cenário de crise atual.
Como está a situação dos produtores hoje?
Marcos Rubin: Hoje, existem três perfis de produtor rural do ponto de vista financeiro. Há o produtor que está “nadando em água limpa”, ou seja, está em boa situação financeira. É aquele que investiu pouco nos últimos anos, teve boas colheitas e, mesmo com a soja em preços mais baixos, não apresenta elevado endividamento. Assim, consegue atravessar o momento atual sem grandes dificuldades. Há também o agricultor que está “nadando em água suja”. Nesse caso, ele tem dívidas a pagar, e o resultado econômico da soja e do milho não é suficiente para cobrir esse endividamento. É um produtor que tenta encontrar uma forma de atravessar esse período e chegar ao próximo ano. Por fim, existe o produtor que já está em “areia movediça”. Ele não está nem na água limpa nem na água suja: já partia de uma situação financeira ruim e enfrenta um cenário ainda mais adverso. O preço da soja não reage, não aparece crédito, e ele realmente está na areia movediça.
Por que o setor está com margens apertadas?
Marcos Rubin: Em 2020, 2021 e 2022, o preço da soja disparou e as margens foram espetaculares. Isso gerou a bonança do agro. Muitos agricultores compraram terra, investiram em irrigação, armazenagem. Só que essas margens excepcionais acontecem poucas vezes. De 2023 para cá, elas foram caindo e hoje estão abaixo da média histórica.
E agora tem a guerra no Irã, que já dura mais de dois meses. Qual deve ser o impacto disso?
Marcos Rubin: A guerra, jogou o preço dos fertilizantes lá para cima, principalmente o nitrogênio, depois o fosfatado. E isso acabou de colocar um balde de água fria no ânimo do agricultor, porque ele está vendo os custos da próxima safra subindo além do que ele é capaz de absorver. Principalmente fertilizante, mas não só — o diesel também impactado, e em algum momento isso aparece nos defensivos.
E o que isso muda na prática?
Marcos Rubin: Isso gerou uma tempestade perfeita em que o produtor já vinha com dificuldade e agora botou um pé no freio quase que por completo para o ano que vem. Isso significa que a gente provavelmente vai ter a menor ou talvez nem tenha expansão de área. Mas não significa necessariamente que a gente vai ter queda de produção, porque a produção depende muito do clima também.
Nesse cenário, o agricultor pode mudar o tipo de cultura para não sentir tanto impacto?
Marcos Rubin: O produtor consegue olhar por essa ótica, sim. Os fertilizantes mais impactados são os nitrogenados primeiro, depois os fosfatados. A soja não usa nitrogenado, ela usa fosfatado e cloreto. Em um extremo, o produtor consegue reduzir bastante o fosfatado na soja e ainda assim plantar, mesmo que não colha a mesma coisa. Quando a gente olha milho, arroz e algodão, essas culturas são intensivas em nitrogenado. Então o que a gente vê hoje é área de milho verão caindo e sendo substituída por soja, e o mesmo com algodão. Porque você troca uma cultura que precisa muito de nitrogenado por uma cultura que precisa zero, que é a soja.
Qual o papel dos juros? O Copom cortou em 0,25 ponto percentual a Selic, mas ela segue em dois dígitos.
Marcos Rubin: O juro é a cereja do bolo nessa equação toda. Mas, de novo, mesmo se o nosso juro estivesse baixo, nós ainda teríamos um monte deagricultores em situação financeira delicada. O juro potencializa a espinha dorsal do problema, que é o fluxo de caixa do produtor. Porque, imagina, o cara comprou uma colheitadeira nova, equipamento de irrigação, armazém, fez todos esses investimentos lá atrás — e agora está com uma taxa de juros muito mais alta. O agricultor precisa de crédito, porque o capital de giro dele foi sendo reduzido, e ele vai atrás desse crédito com taxa elevada. Se você pega uma margem de grãos — produtor com arrendamento hoje no Mato Grosso tem uma margem de cerca de 10% — e coloca uma taxa de juros de 15%, realmente fica muito complicado.
Isso ajuda a explicar o cenário das recuperações judiciais no setor?
Marcos Rubin: Se não existisse a ferramenta da recuperação judicial, vários desses produtores estariam quebrados já. Eles simplesmente fechariam. Se não existisse RJ, qual seria a solução? O cara para de plantar, vende o negócio dele, literalmente dá o calote em todo mundo ou entrega as garantias, quando existem. Então eu acho que ela acaba sendo utilizada como uma ferramenta para sentar na mesa e negociar. Mas pensa o contrário: se não existisse RJ, a maioria desses agricultores que pediu recuperação judicial já estaria quebrada, fechada. Então isso mostra que a espinha dorsal do problema é uma questão financeira. A recuperação judicial é um instrumento jurídico que o produtor usa — com razão em alguns casos, sem razão em outros — mas, independentemente disso, a origem do problema é financeira. Sem dúvida nenhuma.
Qual é a perspectiva que se desenha para a safra 2026/27?
Marcos Rubin: Antes da questão da guerra no Irã, o produtor já vinha em uma situação financeira frágil. As recuperações judiciais mostram isso, o ânimo do produtor mostra isso. E, para nós, a leitura é de que a gente teria uma expansão de área muito pequena, ou talvez até nem tenha expansão de área para o ano que vem. Mas não significa necessariamente que a gente vai ter uma queda de produção. A produção depende muito do clima também. Obviamente depende do nível de tecnologia, mas também depende do clima.
O que pode destravar o cenário?
Marcos Rubin: O remédio natural para esse momento ou está do lado da oferta ou do lado da demanda. Do lado da demanda, dificilmente a gente tem choques muito fortes a ponto de mudar o patamar de preços. Mas existem medidas que ajudam, como implementar de fato um biodiesel B16 ou B17, acelerar o programa de biocombustíveis no Brasil. Isso melhora a demanda, mas acontece de forma mais lenta. Já do lado da oferta, são choques de oferta, normalmente relacionados ao clima, como quebra de safra. Já faz vários anos que a gente não tem uma quebra significativa. Em algum momento isso vai acontecer, e aí os preços reagem. Mas, ao mesmo tempo, a gente chegou em uma situação em que vários problemas financeiros do produtor são quase insolúveis. Tanto é que a gente vê várias recuperações judiciais. Assim, realmente não há preço de soja que resolva a questão financeira de vários produtores. É muito difícil.
César H. S. Rezende – Exame


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