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Soja

Entre Trump e Xi, o Brasil tenta proteger seu trunfo na soja


Valor Econômico - 28 abr 2026 - 11:39

O Brasil vendeu 75% de toda a soja que a China importou no ano passado, numa ilustração do peso da participação brasileira nesse segmento na segunda maior economia do mundo.

Neste ano, o Brasil continuará vendendo muita soja para o mercado chinês, o que volta a gerar preocupações para o concorrente americano. Globalmente, a expectativa é de que as exportações brasileiras da commodity batam recorde de 113 milhões de toneladas no ano.

A questão é o que poderá acontecer no caso de um novo acordo entre os Estados Unidos e a China durante a visita de Donald Trump a Pequim, prevista para 14 e 15 de maio. A soja é o principal produto de exportação da agricultura americana e um item central nas relações comerciais entre Washington e Pequim.

Para André Nassar, presidente-executivo da Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), será preciso monitorar o impacto que um eventual acordo em Pequim poderia gerar para a comercialização na próxima safra, que começa em fevereiro do ano que vem.

Mas o sentimento na indústria brasileira é de que, mesmo com um entendimento sino-americano, a incerteza no comércio com os EUA continuará elevada, e a China seguirá demandando grandes volumes do produto brasileiro.

Outra questão no radar brasileiro é a decisão da China de reduzir a dependência de importações de farelo de soja para ração animal. Não se trata de uma postura contra o Brasil, mas de um plano para diversificar fontes de proteína, utilizando, por exemplo, determinados resíduos na alimentação de suínos.

A ideia é de mais crescimento da produção de carne com outras fontes de proteína, e não redução do consumo. Para Nassar, em todo o caso, trata-se de um movimento mais de médio prazo, de 2030 para a frente, mas que precisa ser monitorado.

Em outubro do ano passado, os Estados Unidos e a China, após encontro entre o presidente Trump e o presidente Xi na Coreia do Sul, estabeleceram a retomada das compras chinesas de soja americana: pelo menos 12 milhões de toneladas até janeiro de 2026 e 25 milhões de toneladas anuais até 2028.

Após cumprir a promessa inicial de importar 12 milhões de toneladas, as compras chinesas estagnaram. O principal representante comercial americano, Jamieson Greer, criticou recentemente a China, classificando-a como um “comprador pouco confiável”. Segundo ele, “é uma situação desafiadora para nossos agricultores dependerem desse mercado, mas temos compromissos sólidos e vamos insistir para garantir que sejam cumpridos”.

A ASA (American Soybean Association) não esconde o temor de novas turbulências no comércio com a China, caso Washington imponha sobretarifas a produtos chineses por alegado uso de trabalho forçado, o que poderia ampliar ainda mais o espaço para exportações do Brasil e da Argentina.

A entidade observa que a diminuição das importações chinesas nos últimos tempos pode ser diretamente atribuída à retomada da guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo, após a imposição do “tarifaço” de Trump e a subsequente retaliação de Pequim, que incluiu novas tarifas sobre a soja americana.

A ASA afirma que, embora os produtores tenham recebido positivamente o anúncio do acordo-quadro em outubro passado, a China mantém uma tarifa retaliatória de 10% sobre a soja dos EUA. Isso significa que o produto americano ainda enfrenta um diferencial tarifário no mercado chinês que não se aplica aos concorrentes sul-americanos. Enquanto essas tarifas permanecerem em vigor, os agricultores americanos avaliam que não serão competitivos em termos de preço no maior mercado comprador do mundo.

Ainda assim, as exportações americanas continuam a crescer, impulsionadas pela forte demanda em mercados fora da China e por acordos firmados por Trump com diversos parceiros. A Indonésia, por exemplo, segue como destino relevante, adquirindo consistentemente mais de 90% de suas importações anuais de soja dos EUA.

Os produtores americanos acompanham com especial atenção a prerparação da viagem de Trump à China também em meio a fortes desafios econômicos. Alegam queda contínua dos preços das safras e aumento expressivo dos custos de produção nos últimos anos. Reclamam que os preços das commodities caíram, em média, 50% desde 2022, enquanto os custos seguem elevados.

De acordo com o USDA, as despesas de produção agrícola devem atingir US$ 477,7 bilhões em 2026 — um aumento de US$ 4,6 bilhões em relação a 2025.

Considerando esses custos elevados, a estimativa é de que os produtores de soja nos EUA registrem prejuízo líquido de US$ 117 por acre na safra deste ano, segundo análise econômica da ASA.

A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã adicionaram pressão à cadeia de suprimentos de insumos, especialmente fertilizantes e combustíveis. A produção de fertilizantes é intensiva em recursos naturais e geograficamente concentrada, o que amplia a sensibilidade a choques externos. Agricultores americanos dependem, em grande medida, de países do Golfo — especialmente Arábia Saudita, Omã e Catar — para insumos como ureia, amônia anidra e fosfatos (MAP e DAP).

O aumento dos custos de insumos continua pressionando a rentabilidade das propriedades. Ano após ano, cresce o número de falências agrícolas nos Estados Unidos. Em 2024, houve aumento de 55% em relação a 2023. No primeiro semestre de 2025, o avanço foi de 57% na comparação anual. Nos últimos dois anos, os Estados Unidos perderam cerca de 20 mil fazendas.

Trata-se de uma tendência preocupante, que evidencia o esgotamento das redes de proteção dos agricultores diante da combinação de custos crescentes e preços em queda, lamenta a ASA.

De seu lado, André Nassar, da Abiove, estima que no momento o comércio de soja está muito positivo para o Brasil – mesmo com as movimentações entre Washington e Pequim.

Assis Moreira – Valor Econômico