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Os motivos para a falta de biodiesel no Brasil em 2020

Com estoques de soja quase esgotados em função da exportação, indústria de biodiesel enfrenta dificuldades para ter acesso ao óleo que precisa

BiodieselBR.com 8 min de leitura

As coisas não andam fáceis para quem depende de soja no Brasil. Embora o país tenha – finalmente – passado os EUA e assumido a liderança global da produção desta oleaginosa, estamos encerrando o ano praticamente contando os grãos que sobraram no fundo dos silos. Pelas contas mais recentes da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), o Brasil deve fechar 2020 com menos de 670 mil toneladas estocadas. Esse será o menor volume num histórico que cobre mais de duas décadas.

O resultado é que já tem gente bastante preocupada em como é que vai fazer para conseguir atravessar os meses que ainda faltam até que a soja da safra 2020/21 comece a chegar ao mercado lá por fevereiro que vem. “O que eu tenho visto entre os compradores é que eles já estão tendo dificuldade com a originação. As maiores empresas estão com posições compradas, mas as médias e pequenas devem começar a ter dificuldades séria nos últimos meses do ano”, avalia Gabriel Viana, analista de farelo e óleo de soja da consultoria Safras & Mercado.

Casa de ferreiro

Para entender como se formou essa situação desconcertante onde o líder isolado do mercado de soja acaba ficando quase sem nenhuma para si mesmo, devemos olhar para a balança comercial.

Só nos primeiros seis meses de 2020, as exportações brasileiras de soja em grão superaram a marca das 60 milhões de toneladas. Isso já torna este ano o quarto maior para as exportações da sojicultura nacional atrás apenas de 2017, 2018 e 2019.

As coisas não andam fáceis para quem depende de soja no Brasil. Embora o país tenha – finalmente – passado os EUA e assumido a liderança global da produção desta oleaginosa, estamos encerrando o ano praticamente contando os grãos que sobraram no fundo dos silos. Pelas contas mais recentes da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), o Brasil deve fechar 2020 com menos de 670 mil toneladas estocadas. Esse será o menor volume num histórico que cobre mais de duas décadas.

O resultado é que já tem gente bastante preocupada em como é que vai fazer para conseguir atravessar os meses que ainda faltam até que a soja da safra 2020/21 comece a chegar ao mercado lá por fevereiro que vem. “O que eu tenho visto entre os compradores é que eles já estão tendo dificuldade com a originação. As maiores empresas estão com posições compradas, mas as médias e pequenas devem começar a ter dificuldades séria nos últimos meses do ano”, avalia Gabriel Viana, analista de farelo e óleo de soja da consultoria Safras & Mercado.

Casa de ferreiro

Para entender como se formou essa situação desconcertante onde o líder isolado do mercado de soja acaba ficando quase sem nenhuma para si mesmo, devemos olhar para a balança comercial.

Só nos primeiros seis meses de 2020, as exportações brasileiras de soja em grão superaram a marca das 60 milhões de toneladas. Isso já torna este ano o quarto maior para as exportações da sojicultura nacional atrás apenas de 2017, 2018 e 2019.

Além das feridas – ainda não cicatrizadas – da guerra comercial entre China e Estados Unidos de 2018 que levou o gigante asiático a buscar mais soja no mercado brasileiro, o ano de 2020 teve um contexto bastante favorável às exportações brasileiras. “Tivemos uma conjunção de fatores como o câmbio muito fortalecido que favoreceu as exportações”, explica a especialista em inteligência de mercado de soja da StoneX, Ana Luiza Lodi.

O Real já vinha perdendo valor frente ao Dólar desde dezembro passado, mas esse movimento se acelerou a partir de fevereiro – justo quando a safra 2019/20 começava a chegar ao mercado. Em meados de março, a cotação da moeda norte-americana passou pela primeira vez da barreira dos R$ 5,00 tornando o mercado externo uma opção muito atraente para os sojicultores brasileiros. “Esse câmbio colaborou para deixar nosso produto muito competitivo”, arremata Gabriel.

Embora o ímpeto do câmbio tenha arrefecido a partir de maio – inclusive com um recuo – as cotações vêm andando sobretudo de lado nos últimos dois meses.

De quebra, tivemos menos concorrência este ano. Segundo maior produtor de soja do mundo, os Estados Unidos tiveram uma quebra importante – de quase 20% – de sua produção. Já a Argentina, embora tenha colhido uma safra cheia de 53,5 milhões de toneladas, teve dificuldades com o escoamento de sua produção em função de uma seca que afeto o nível do Rio Paraná. “A Argentina que é o maior exportador de derivados de soja do mundo teve problemas para conseguir exportar sua produção”, ressalta Ana Luiza.

Exportação de óleo

E, em meio a uma situação que já seria favorável às exportações, a pandemia desabou sobre Brasil com força fazendo o consumo de combustíveis naufragar. Em abril, a vendas de diesel tiveram sua maior queda desde a greve dos caminhoneiros de 2018.

Foi nesse contexto de pessimismo mais denso que chegamos ao L72 com o mercado convencido que as vendas continuariam deprimidas ainda por muito tempo. Tanto que a ANP precisou adiar abertura do processo em mais de uma semana para conseguir pacificar usinas e distribuidores.

Para acomodar as incertezas, a agência aceitou flexibilizar as regras de retiradas de biodiesel. Ao invés das usinas terem que entregar 90% do biodiesel vendido e as distribuidoras retirem 95% do produto comprado, o piso passou a ser 80% para todos os agentes. Naquele momento, ninguém contava que a demanda de óleo diesel fosse ter um rebote relativamente rápido.

A recuperação relativamente rápida acabou passando uma rasteira no mercado. “As estimativas sobre o impacto do consumo de diesel eram de um impacto muito maior do que estamos vendo”, aponta Ana Luíza. Foi essa sobreposição de perspectiva ruim no mercado interno e um mercado externo favorável que acabou levando a um aumento nas vendas não apenas de soja em grão, mas também de óleo de soja. “No começo do ano, a expectativa era que as exportações de óleo fossem menores do que em 2019 quando os embarques somaram um milhão de toneladas”, prossegue a analista da StoneX. “O óleo veio com uma trajetória mais acentuada do que o esperado. Até junho já tínhamos passado de 700 mil toneladas”, conclui Ana Luíza.

Os embarques de óleo de soja na primeira metade de 2020 foram quase um quarto maiores do que no mesmo período do ano passado. Desde março – quando a Covid-19 se intensificou no país –, as exportações do derivado vêm se mantendo acima de 100 mil toneladas com um pico de quase 300 mil em junho. O problema é reconhecido pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) que, por meio de nota enviada à BiodieselBR.com aponta que “os erros nas previsões do consumo (...) por parte das distribuidoras resultaram no direcionamento de uma parte do óleo para exportação”.

Preços em alta

Com pouco óleo no mercado, pouca soja disponível para fazer mais, dólar alto e demanda aquecida no mercado de biodiesel, o cobertor ficou curto a ponto das usinas, pela primeira vez desde o lançamento do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), não ter conseguido ofertar biodiesel suficiente para atender à demanda das distribuidoras.

Além disso, o mercado está reagindo como sempre reage nesse tipo de situação: com preços em alta. Tanto StoneX quanto Safras apontam que que os preços do óleo têm batido recordes. “Por causa do aumento da mistura de biodiesel, a nossa previsão era que os preços [do óleo de soja] subiriam. Mas está subindo mais do que a gente esperava e não tem perspectiva de queda”, alerta Gabriel.

“Embora variem de praça para praça, os preços nominais estão em níveis recorde se considerarmos o Brasil como um todo com preços acima do patamar de R$ 4.000 por tonelada”, ressalta a Ana Luiza, destacando que os preços já não estavam propriamente baratos neste ano. “Os preços já vinham fortalecidos desde o começo do ano, mas, desde maio, eles estão em ascensão”, completa

Segundo o levantamento da Safras, quem precisasse comprar uma tonelada de óleo de soja no mercado do interior do estado de São Paulo na semana passada precisaria se dispor a pagar entre R$ 4.950,00 e R$ 5.050,00 (com 12% de ICMS).

Embora os preços elevados estejam acusando o aperto na oferta, Gabriel diz que ainda não chegamos no ponto em que teremos unidades de esmagamento parando por falta de grão. “Ainda não está faltando soja, mas a disputa entre mercado interno e mercado externo está grande o que pode fazer os preços subirem ainda mais”, preocupa-se acrescentando que a essa altura mesmo medidas drásticas, como uma nova redução da mistura obrigatória de biodiesel, podem não surtir tanto efeito. “Não sei [se um corte na mistura] faria os preços do óleo baixarem de forma tão significativa. Mas reduziria a pressão”, elabora.

Todo esse aperto pode fazer o Brasil passar uma boa temporada como importador de soja. Pode não ser uma solução para o mercado de biodiesel (as regras dos leilões obrigam o uso de matéria-prima nacional), mas ajudaria a trazer um alívio e reduziria a disputa com o mercado de alimentação. “Estamos acompanhando [o mercado] para ver a possibilidade de importar óleo de soja”, finaliza Ana Luiza.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com

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