Soja

Governo avalia zerar tarifa de importação de soja


O Globo - 11 set 2020 - 09:34

Sem planos de controlar diretamente a formação de preços dos alimentos e com os estoques cada vez mais baixos, o governo poderá repetir com a soja o que fez com o arroz na quarta-feira: reduzir a zero a tarifa de importação, hoje em 10%, até o fim deste ano, de uma quantidade limitada do produto que vier de países fora do Mercosul. A ideia é aumentar a oferta no mercado doméstico, o que contribuiria para reduzir o preço.

Mas, segundo especialistas, com o dólar alto, o produto importado ainda chegaria aqui com preço elevado. O cenário cambial também estimula produtores brasileiros a exportarem soja.

No caso da soja, a avaliação é que a forte concentração das exportações para o mercado chinês poderá prejudicar as indústrias de óleo de soja e derivados do produto, também usado como ração animal. Os EUA poderiam fornecer o produto ao Brasil temporariamente com o imposto menor. Hoje, já se importa soja paraguaia.

Além do óleo de soja, o farelo é usado como ração animal e seu preço influencia no valor final de carnes suínas e bovinas. E vários alimentos processados, como maioneses e achocolatados, usam derivados da leguminosa na sua produção.

Segundo uma fonte da área econômica, a combinação entre preços elevados dos alimentos no mercado externo e real desvalorizado frente ao dólar vai estimular ainda mais as exportações do agronegócio, incluindo a soja. Com isso, o produto pode faltar ou ficar mais caro.

No entanto, Bolsonaro negou intenção de tabelamento ou outro tipo de intervenção no mercado.

De acordo com Carlos Cogo, analista de mercado da Cogo Inteligência em Agronegócio, 90% da safra de soja já foram vendidos: “Temos apenas 10% da safra disponível no mercado até o fim do ano”.

Segundo dados do Ministério da Economia, de janeiro a agosto deste ano, as importações de soja cresceram quase 300% em valor e 307% em volume frente ao mesmo período de 2019. Já as exportações aumentaram cerca de 30%.

INFOGRAFICO

O superintendente técnico da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Bruno Lucchi, explica que, no início da pandemia, muitas indústrias esmagadoras de soja reduziram a produção, diante da expectativa de uma forte queda na demanda. Mas esse cenário acabou não se confirmando, em razão do auxílio emergencial, que levou ao aumento do consumo pelas famílias.

“Se a indústria for comprar lá fora, terá que fazer isso em dólar, e o produto tem cotação internacional, o que significaria alta de custos”, diz Lucchi.

Ele lembra que, se de um lado o câmbio estimula as exportações, de outro encarece as importações. Além disso, o dólar valorizado aumenta os custos do produtor, já que o custo de sementes, defensivos agrícolas e outros insumos é referenciado em dólar.

“É uma tempestade perfeita”, concorda Cogo.

O cenário mais preocupante para o governo é este fim de semestre, época de entressafra. Daí a isenção do Imposto de Importação de arroz vigorar apenas até dezembro. No início de 2021, começa a ser colhida a safra de grãos. Mas a aposta é que os preços dos alimentos comecem a ceder já neste mês.

Em uma rede social, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, garantiu não haver risco de faltar arroz e que os preços vão recuar em breve.

As exportações de arroz cresceram quase 170%, em volume, este ano.

“Não só o preço está bom para exportar, o câmbio também. O arroz faz parte do dia a dia do brasileiro, é preciso importar para suprir a demanda interna”, disse o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

Lucchi vê o corte na tarifa de importação como inócuo. Cogo, por sua vez, acha que pode segurar a alta desenfreada.

Já o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Guilherme Bastos, disse que os preços dos itens da cesta básica já estão chegando ao limite e devem começar a ceder em outubro.

E o IBGE informou que a produção agrícola deverá bater novo recorde este ano: 251,7 milhões de toneladas.

Segundo levantamento da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), divulgado nesta quinta-feira, o país exportou mais de 3,4 milhões de toneladas de açúcar em agosto deste ano, o equivalente a US$ 959 mil dólares. Diante do crescimento de 69% das exportações de abril a agosto em relação ao mesmo período do ano passado, o presidente executivo da Copersucar, João Roberto Teixeira, projeta um segundo semestre aquecido: “Os embarques devem continuar bastante fortes neste período em função da demanda nos nossos principais mercados”.

Eliana Oliveira – O Globo