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Óleo de cozinha

Demanda da indústria de biodiesel por óleo de cozinha usado dispara


Fábio Rodrigues - 13 nov 2023 - 08:55

O que parece apenas um resíduo de uso doméstico tornou-se um negócio em ascensão, com potencial de gerar benefícios ao meio ambiente. A busca da indústria de biodiesel por óleo de cozinha usado para produção do biocombustível está cada vez maior e tem impulsionado os preços do insumo.

Neste ano, a produção de biodiesel do Brasil pode marcar um novo recorde de 7,6 bilhões de litros. O desempenho estimado pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) se deve ao aumento na mistura obrigatória de biodiesel ao diesel, que passou de 10% (B10) para 12% (B12). O governo federal prevê a elevação gradativa desse percentual e já estuda a chegada do B20 ao mercado.

“O aumento na mistura gera uma reação em cadeia, esse é um dos fatores fundamentais. Aumenta o volume do biodiesel e com isso aumenta a demanda por matéria-prima”, disse à reportagem o coordenador de Sustentabilidade da Cargill, Marcio Barela.

A principal matéria-prima do biodiesel ainda é o óleo de soja, mas foi justamente o fato de o óleo de cozinha usado ser uma alternativa mais competitiva que o tornou atraente.

E o reflexo já apareceu nos preços. Na última semana, o óleo de cozinha usado foi comercializado em São Paulo para a indústria por cerca de R$ 5 mil por tonelada, enquanto o óleo de soja alcançou o preço médio de R$ 5,1 mil. “Há alguns meses, essa diferença era de R$ 150, agora baixou para R$ 100”, disse Alexandre Melo, especialista em Biodiesel e Insumos da Argus.

Segundo Melo, o óleo de cozinha normalmente é um insumo mais barato do que o óleo de soja, o sebo bovino e outras matérias-primas que também são utilizadas para o biodiesel.

Há ainda a questão ambiental como mais um atrativo. “As principais indústrias hoje têm um programa de coleta de óleo de cozinha. Isso acaba sendo algo que se inclui entre as metas ESG [relativas às boas práticas ambientais, sociais e de governança]”, ele acrescentou.

Demanda por óleo em alta

Seja pela conscientização da população que está reciclando o óleo, pela monetização dos restaurantes que vendem o óleo usado, pelo avanço da logística de coleta, ou pela atuação das empresas do setor, o uso de óleo de cozinha como matéria-prima do biodiesel disparou nos últimos anos.

Entre 2012 e 2022, a produção de biodiesel a partir de óleo de fritura usado saiu de 17,83 milhões de litros para 148,37 milhões, conforme levantamento da Abiove com base em dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), um salto de mais de 700%. A participação do insumo ainda representa 2% como matéria-prima, mas foi uma das que mais cresceram em 10 anos.

“Este aumento na utilização deve estar mais vinculado ao valor do que à conscientização da sociedade”, afirmou o executivo da Cargill. “Hoje, cerca de 30% do óleo de cozinha usado vem da população”, estimou Barela. O restante é proveniente de estabelecimentos, como os restaurantes.

Segundo ele, a conscientização dos adultos é o principal desafio. Por isso uma das estratégias do programa Ação Renove o Meio Ambiente, promovido pela Cargill desde 2010, é incentivar a coleta de óleo usado nas escolas, onde estudantes e familiares podem entregar o resíduo. Há também pontos de coleta em supermercados, shoppings, empresas, ONGs e até porta a porta.

A coordenadora de Sustentabilidade da Abiove, Aline Lazzarotto, disse que programas como os da Cargill contribuíram para que, em 10 anos, houvesse um aumento de 14% no número de pontos de entrega disponíveis para a população, até 2022.

“As associadas fazem os programas, e uma empresa homologada fica responsável pela coleta do óleo que foi entregue nos pontos. Essas empresas podem também fazer a filtragem e até os resíduos do óleo usado têm destinação, tudo é aproveitado. Há informalidade como em outros setores, mas é um mercado que pode crescer muito”, afirmou ela.

Na avaliação de Melo, da Argus, a demanda tem espaço para crescer, mas a oferta de óleo de cozinha usado pode não avançar na mesma velocidade. A razão é que isso depende da conscientização da sociedade para a reciclagem do óleo e também da disseminação da coleta, hoje concentrada no Sudeste, para outras regiões do país.

Nayara Figueiredo – Globo Rural{/viewonly}