Pinhão-manso

Os esforços para agregar valor às tortas de pinhão-manso e mamona


Embrapa - 05 jul 2012 - 07:30
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O primeiro dia de discussões no Simpósio de Destoxificação e Aproveitamento de Tortas de Pinhão-manso e Mamona – SiDAT mostrou que a pesquisa avançou na busca de alternativas de uso do coproduto das duas oleaginosas, que podem servir de matéria-prima para a produção de biodiesel. O SiDAT teve início nessa terça-feira (03/07), no auditório da Embrapa Estudos e Capacitação (Brasília-DF), reunindo cerca de 90 pessoas. O evento busca opções de agregação de valor às tortas resultantes do processamento dos grãos de mamona e pinhão-manso para extração de óleo. A ração animal é o principal destino das tortas de outras oleaginosas, com a soja. No entanto, as substâncias tóxicas presentes nas matérias-primas que são tema do Simpósio impedem o seu uso para tal fim. O simpósio é realizado pela Embrapa Agroenergia (Brasília-DF) e a Embrapa Algodão (campina Grande-PB), com o apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

O coordenador do evento, Clenilson Rodrigues, destaca o desenvolvimento de novos processos para redução das substâncias tóxicas bem como os progressos da genética para silenciar genes responsáveis pela presença delas nas plantas. Chamou a atenção também para novos de uso apresentados nos debates, tais como a fabricação de biopesticidas e o isolamento de compostos de interesse farmacológico.

Biorrefinarias
Na abertura do evento, o chefe-geral da Embrapa Agroenergia, Manoel Souza, ressaltou que o centro de pesquisa “trabalha na lógica das biorrefinarias, buscando o aproveitamento total da biomassa”, por isso investe em eventos como o SiDAT que promovem discussões e fomentam a construção de redes de pesquisa. O coordenador de agroenergia do Mapa, João Abreu, concorda com a necessidade de investir no conceito de biorrefinarias, já que, quanto mais se aproveita a biomassa, maior o valor da produção agrícola.

O chefe-geral da Embrapa Algodão, Napoleão Esberard, enfatizou que a torta da mamona já é utilizada como fertilizante orgânico e, este ano, por causa da quebra de safra em função da seca, está com o preço bastante elevado. Ele acredita que a utilização como adubo é um excelente destino para a torta dessa planta típica do Nordeste Brasileiro.

O coordenador do Departamento de Cana-de-açúcar e Agroenergia do Mapa, Tiago Giuliani, disse que o órgão está empenhado em ampliar a oferta de óleo para produção de biodiesel. Ele explicou que o País conseguiu adicionar 5% do biocombustível a todo o diesel produzido no País, apoiado principalmente na cultura da soja, que já tinha sistema logístico e de produção bem estabelecidos. Para Giuliani, um dos principais gargalos para outras culturas ganharem posição de destaque no programa é a falta de cultivares comercias, a exemplo do que acontece com o pinhão-manso.

O pesquisador da Embrapa Agroenergia Bruno Laviola apresentou o esforço que vem sendo desenvolvido na instituição para fornecer material genético de qualidade e recomendar um sistema de produção do pinhão-manso eficiente para o agricultor. “Hoje, os desafios são maiores do que as potencialidades, mas sabemos que podemos reverter isso com a pesquisa”, afirmou. Os estudos da Embrapa Agroenergia e organizações parceiras mostraram que a torta de pinhão-manso é um excelente fertilizante, com concentrações consideráveis de nutrientes como nitrogênio, fósforo, e potássio.

Alimentação animal
Bastante discutida durante o evento, outra possibilidade de uso para a torta de pinhão-manso é como ração de pequenos ruminantes (caprinos e ovinos, principalmente), depois de processos de destoxificação que as pesquisas que estão conseguindo tornar cada vez mais eficientes. Foi o que apresentaram Simone Mendonça, da Embrapa Agroenergia, Carlos Piler de Carvalho, da Embrapa Agroindústria de Alimentos (Guaratiba-RJ), e Maria Catarina Kasuya, da Universidade Federal de Viçosa. O pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos (Sobral-CE), Antônio Silvio do Egito, mostrou que o mesmo uso também tem sido apontado como alternativa para torta da mamona.

O primeiro dia de trabalhos contou ainda com palestra do pesquisador Francisco Aragão, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, que falou sobre a engenharia genética da mamoneira. As recentes abordagens na destoxificação da torta da mamona na Índia foram apresentadas por Samireddypalle Anadan, do Instituto Nacional de Nutrição Animal e Fisiologia daquele país.

O vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Pinhão-manso (ABPPM), Mike Lu, declarou que os agricultores e as indústrias estão ansiosos pelos resultados das pesquisas para viabilizar a cadeia produtiva da cultura. No Paraná, os produtores da oleaginosa já estão usando a torta como fertilizante em cafezais, pomares de laranja e nas próprias culturas de pinhão-manso. O presidente da associação local dos agricultores, Aguimario Alves, disse que os resultados têm sido excelentes. Ele conta que as cascas também têm sido utilizadas como substrato em viveiros.

Nível elevado
Na plateia do SiDAT estava do CEO da empresa italiana Agroils Technologies, Giovanni Del Greco, que desenvolve tecnologia para aproveitamento do óleo, da torta e de substâncias de interesse farmacológico obtidas a partir do pinhão-manso. Ele conhecia os trabalhos brasileiros nessa área, principalmente por causa do voo experimental feito pela TAM, em 2010, com bioquerosene produzido a partir do óleo da planta. Del Greco considerou muito elevado o nível das apresentações e das discussões promovidas durante o primeiro dia de atividades do Simpósio.

O evento segue hoje, com mesas-redondas focadas em controle de qualidade de processos de destoxificação e novas alternativas de uso e agregação de valor.

Vivian Chies