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Produtores desistem de cultivar mamona


Diário do Nordeste - 10 set 2006 - 23:03 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

No campo, há um descompasso entre o projeto que incentiva o plantio da mamona para a produção de biodiesel e o desinteresse dos agricultores. Nos municípios de Parambu e Tauá, na região dos Inhamuns, e Piquet Carneiro e Acopiara, na região Centro-Sul, o quadro é de desistência da cultura. Os representantes do governo federal e estadual, responsáveis pelo programa de incentivo ao plantio da mamona para abastecer o biodiesel, chegam a admitir o problema, mas ainda tecem loas aos resultados.

Neste ano, praticamente não houve plantio de sequeiro da mamona, aquele que depende da chuva. A julgar pela situação atual e pelo sentimento expresso pelos pequenos agricultores, no próximo ano também não haverá renovação da cultura. A exceção é feita para um grupo de produtores no Perímetro Irrigado Várzea do Boi, no município de Tauá, que recebeu incentivo para o cultivo e vive um período experimental de produção.

Baixo preço pago aos agricultores, reduzida produtividade e pouca lucratividade são fatores que contribuíram para o abandono das áreas de produção. Em fins de 2004, os produtores foram incentivados pelo governo a fazer o cultivo da mamona, cuja produção seria voltada para a fabricação de biodiesel.

Os agricultores receberam da empresa Brasil Ecodiesel sementes, algumas ferramentas, a promessa de assistência técnica e de compra da produção pelo preço mínimo de R$ 0,56, o quilo. Centenas de pequenos produtores aderiram à idéia em 2005. Fizeram o cultivo, colheram, armazenaram os grãos em casa e esperaram o cumprimento do acordo.

Os agricultores ficaram abandonados. “Não houve cumprimento do acordo”, disse o secretário de Agricultura do município de Piquet Carneiro, Expedito José do Nascimento. “No campo, o clima é de revolta contra a empresa que não deu assistência técnica, nem pagou o preço mínimo e forneceu grãos, em vez de semente de boa qualidade”.

O preço pago pelo quilo da mamona variou entre R$0,25 e R$0,30. “Plantei meio hectare, colhi 350 quilos e só me pagaram 117 reais”, disse, em tom de tristeza, o agricultor, Otaciano Firmino, da localidade Alegre, no município de Piquet Carneiro. “Por aqui, todo mundo já desistiu. Não deu certo. Prometeram muitas coisas e não cumpriram nada”.

De acordo com os agricultores, havia um contrato firmado entre eles e a empresa Brasil Ecodiesel, que não foi cumprido. Os produtores José Barbosa e Edmilson de Brito revelam sentimento de raiva e já anunciaram que não farão novo cultivo. “Enganaram a gente”, disse o pequeno produtor, Francisco Micena Lima, morador do sítio Monteiro, em Piquet Carneiro. Ele ainda guarda parte dos dez quilos de semente de mamona que recebeu da empresa que prometeu implantar um projeto de inclusão social, segundo anúncio inscrito na embalagem.

Segundo os dados da secretaria de Agricultura de Piquet Carneiro, em 2005, 109 agricultores plantaram 150 hectares de mamona. Neste ano, a desistência foi total. Semelhante quadro ocorreu em Acopiara. Cerca de 100 pequenos produtores cultivaram 200 hectares, mas em 2006 repetiu o plantio de sequeiro. “A desistência foi geral por falta de preço e de assistência técnica”, disse o secretário de Agricultura do município de Acopiara, Luís Lucas. “O trabalho tem de recomeçar, mas ninguém confia mais na Brasil Ecodiesel”.

Honório Barbosa

Produtores de mamona não serão engolidos pelo agronegócio

A região Nordeste dispõe de quatro milhões de hectares e possui mais de 500 municípios zoneados para o plantio da mamona, dos quais, 81 são cearenses. Iniciado em dezembro de 2004, estruturado legalmente em 2005, o Programa Nacional do Biodiesel estima em 840 milhões de litros o tamanho do mercado do biodiesel. A projeção é de Arnoldo de Campos, coordenador do Programa Biodiesel pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), informando que foram realizados, desde 2005, quatro leilões pela Petrobras.

Em julho deste ano, foram realizadas dois, resultando na aquisição de 600 milhões de litros. No Nordeste, explica, o projeto tem parceria com a agricultura familiar. “A metade da produção do óleo na região deve vir dos agricultores familiares”, orienta, estimando que 319 milhões de litros serão produzidos no solo no nordestino, beneficiando mais de 150 mil famílias.

Arnoldo de Campos cita as plantas industriais da principal empresa a apostar no programa, a Brasil Ecodiesel, em Iraqui, no Maranhão; Crateús (Ceará); Floriano (Piauí) e Iraquara (Bahia). A empresa vendeu grande parte dos 600 milhões de litros de óleo no último leilão da Petrobras.

Segundo ele, não houve monopólio, justificando que participaram 28 empresas, tendo sido ofertados 1 bilhão e 100 milhões de litros. Esclarece que existem outras fontes, no entanto, a semente da mamona apresenta maior teor de óleo. Em comparação com a soja, por exemplo, que possui apenas 18% e, a mamona, 50%. Além de não concorrer com a produção de alimentos, já que a principal fonte da soja é o farelo e não o óleo.

A soja conta com 50 anos de pesquisa enquanto a mamona, 10 ou 15 anos. Arnoldo de Campos descarta a possibilidade de os produtores de mamona nordestinos serem engolidos pelo agronegócio da soja. “Até agora isso não aconteceu”, disse, explicando que a produção de biodiesel não será mantida por pequena usinas artesanais. Uma produção em pequena escala não pode agregar custo, observa.

No Nordeste, os agricultores vão receber crédito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Enquanto no Centro-Oeste a indústria paga imposto, no Nordeste, será zero. Pelo contrário, ressalta, “está sendo muito criticada a política de incentivo para o Nordeste”.

Esclarece que, no momento, a mamona não responde sozinha pela produção de biodiesel no Nordeste. Isto é, 50% vem da soja, informando que os agricultores não podem se prender apenas à produção de mamona. O Pronaf dispõe de R$ 100 milhões para financiar agricultores familiares.

De acordo com Arnoldo de Campos, a orientação é de que os agricultores plantem mamona, girassol, soja. “A monocultura é suicídio para o agricultor”, advertindo que o Nordeste precisa mais do que triplicar a produção.

Iracema Sales

Meta é abastecer mercado nacional

“A mamona é apenas uma das oleaginosas de onde se pode extrair biodiesel”, afirma José Carlos Miragaya, gerente da Área de Biodiesel da Petrobras, citando algodão, dendê, girassol, pinhão manso, soja, entre outras. “Existe espaço para todos”, completa, afirmando que, neste primeiro momento, a meta é abastecer o mercado nacional, depois o internacional.

Prova disso são as três usinas que estão sendo construídas até 2007 pela estatal. Todas são localizadas no semi-árido, ficando duas no Nordeste, Quixadá, no Ceará; Candeias, em Salvador; e Montes Claros, Minas Gerais. De acordo com José Carlos Miragaya, a produção atual está dando para atender os 2% estipulados em lei, pelo governo federal.

“Várias indústrias estão produzindo”, informa, ressaltando o caráter social do programa, sobretudo no semi-árido.

O crédito associado à mobilização dos agricultores constituem elementos fundamentais para a garantia do programa. O Nordeste está longe de atingir a meta de produção de 150 mil hectares, ou seja, 50 mil toneladas de sementes. É preciso investir para não faltar matéria-prima: a mamona. O mercado só está sendo suprido com a ajuda de outros óleos como, algodão e soja.

Conforme Alci Lacerda de Jesus, da área de Política de Desenvolvimento do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), a recomendação do MDA é fazer a integração da cadeia. A política de financiamento já foi aprovada e definidas as linhas, completa. O limite de crédito é de R$ 1.500,00, sendo beneficiados os agricultores inseridos na linha do Pronaf-B, ou seja, aqueles com renda familiar de até R$ 3 mil.

Para garantir que a cadeia produtiva não seja desrespeitada, o “produtor isolado não tem direito a financiamento”, avisa Alci de Jesus, completando que os agricultores do Pronaf -B se encontram nessa faixa mais baixa de renda. Outra exigência é de que seja apresentado um contrato de compra e venda da mamona por uma empresa.

Na safra de 2005/2006, a Brasil Ecodiesel cadastrou 15 mil famílias. A reportagem entrou em contato com a Assessoria de Imprensa da Brasil Ecodiesel, mas a empresa não atendeu ao pedido de entrevista.