União Europeia

Europa propõe abandonar biocombustíveis de primeira geração


O Estado de S. Paulo - 01 dez 2016 - 10:24

A Europa está se afastando dos biocombustíveis de primeira geração como alternativa energética, em uma mudança importante de rumo. Em um novo plano apresentado nesta quarta-feira (30), em Bruxelas, a Comissão Europeia reduziu o que pretende ser a participação do etanol e outros combustíveis feitos a partir alimentos na matriz energética do bloco até 2030. Uma das consequências poderá ser a queda nas exportações brasileiras.

Em 2003, no auge dos investimentos nos biocombustíveis, a UE anunciou que queria 10% de seu transporte movido a etanol até 2020. Naquele momento, o produto era o carro chefe da diplomacia brasileira, em busca de mercados e de estabelecer o etanol como referência.

Mas, em 2014, os dados da UE indicavam que apenas 5,9% do transporte era movido por fontes renováveis. Isso incluía biocombustível, mas também carros elétricos e até hidrogênio.

A meta para 2020 será mantida, mas, agora, os biocombustíveis de primeira geração só poderão responder a 7% e, para 2030, a comissão quer que a taxa destes biocombustíveis seja reduzida para apenas 3,8%. O restante viria de produtos de segunda geração fabricados a partir de matérias-primas alternativas como resíduos, algas e outras fontes que não representem uma interferência na agricultura. A ideia de descontinuar o uso de biocombustíveis de primeira geração já vinha sendo estudada pela UE há alguns meses.

A proposta faz parte de uma nova estratégia da Europa de repensar seu abastecimento energético diante dos acordos climáticos assinados. O projeto ainda propõe um corte no desperdício de energia e retirar subsídios estatais para energias de origem fóssil.

A meta, que ainda precisa ser aprovado pelos governos europeus, estipula que o bloco corte o consumo de energia em 30% até 2030 e que todas as fontes alternativas – incluindo eólica e solar – representem 27% do abastecimento do continente.

"Precisamos gradualmente deixar os biocombustíveis de primeira geração feitos a partir de alimentos", disse o comissário de Energia da Europa, Maros Sefcovic. Sua percepção é de que esses produtos, ao serem usados para o transporte, poderiam aumentar o preço de alimentos e até gerar um impacto maior para mudanças climáticas que a gasolina tradicional. "Esses produtos não devem representar mais de 3,8% da matriz energética em 2030", disse.

Segundo ele, essa taxa foi estabelecida depois de um "profundo estudo de impacto" do que representarão os biocombustíveis.

Oposião

A proposta, porém, deve sofrer dura oposição. "Fomos traídos pela Comissão Europeia, depois de todos os investimentos que realizamos", declarou a Associação de Etanol da Europa.

A proposta foi duramente criticada por diversos grupos, entre eles a Copa e Cogecas, as cooperativas agrícolas da Europa. "A proposta é totalmente inaceitável", declararam. Para elas, esses combustíveis são ainda hoje a única alternativa realista ao petróleo. "Sem eles, a Europa não conseguirá atingir suas metas ambientais", alertaram.

Para as cooperativas, porém, a maior preocupação é o impacto na agricultura do bloco. Na Europa, milho, açúcar de beterraba e trigo têm sido usados para produzir o combustível. "Os biocombustíveis têm dado uma alternativa de renda aos fazendeiros", alertou Pekka Pesonen, secretário-geral das cooperativas. Para ele, a meta de 7% precisa ser mantida até 2030.

Para o Conselho de Biodiesel da Europa, a medida irá "destruir uma indústria criada por uma lei da UE e que hoje emprega 220 mil pessoas". "Biocombustíveis avançados não conseguirão substituir imediatamente à queda nos produtos de primeira geração", alertou e entidade. "O risco real é de que 110 mil postos de trabalho sejam cortados", insistiu.

"A proposta vai gerar um aumento do combustível fóssil no transporte", insistiu Raffaello Garofalo, secretário-geral da entidade.

Proposta brasileira

Em um movimento que parece ter se antecipado a essa decisão da Comissão Europeia, o Brasil lançou no começo do mês a Plataforma Biofuturo, uma parceria com outros 19 países, alguns europeus, inclusive, para incentivar pesquisas e trocas de conhecimento sobre os biocombustíveis avançados.

Uma das ideias é dar escala para o etanol de segunda geração, obtido através da quebra de celulose do bagaço de cana (e não só do açúcar), hoje já obtido por duas usinas no Brasil, mas ainda em quantidade pequena.

Com essa tecnologia, estima o governo, seria possível aumentar em 50% a produção de etanol sem ter de plantar nenhum pé de cana além do que já existe, o que conteria uma eventual competição de canaviais por áreas de plantio de alimentos. Atualmente o País produz cerca de 30 bilhões de litros de etanol por ano somente com a tecnologia de primeira geração.

O Brasil já vinha enfrentando resistência na exportação do etanol de primeira geração para a Europa e espera com o produto de segunda geração superar as barreiras.

Com adaptação BiodieselBR.com