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[CBBR 2017] Os próximos passos do biodiesel no Brasil

A guinada que o setor de biocombustíveis deverá dar dentro dos próximos anos graças ao RenovaBio foi o tema do Painel 2 da Conferência BiodieselBR 2017
BiodieselBR.com 7 min de leitura
A indústria brasileira de biocombustíveis está às vésperas de passar por um de seus mais ambiciosos redesenhos. O novo programa desenhado pelo governo federal para incentivar ao setor deverá dar uma bela embaralhada nas peças que fazem parte desse jogo. Se, até agora, o etanol e o biodiesel conviviam como se seus peões disputassem suas partidas em tabuleiros totalmente independentes entre si, muito em breve, eles devam começar a se esbarrar por aí com consequências que ainda não estão lá muito claras.

A indústria brasileira de biocombustíveis está às vésperas de passar por um de seus mais ambiciosos redesenhos. O novo programa desenhado pelo governo federal para incentivar ao setor deverá dar uma bela embaralhada nas peças que fazem parte desse jogo. Se, até agora, o etanol e o biodiesel conviviam como se seus peões disputassem suas partidas em tabuleiros totalmente independentes entre si, muito em breve, eles devam começar a se esbarrar por aí com consequências que ainda não estão lá muito claras.

O painel 2 da Conferência BiodieselBR 2017 foi concebido justamente para tentar esclarecer algumas das mudanças que estão vindo por aí. Para tanto foram convidados: o diretor do Departamento de Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia, Miguel Ivan Lacerda; o superintendente da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), Donizete Tokarski e o diretor de abastecimento do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom), Leandro Silva.

Miopia

Reconhecendo que sua palestra teria um caráter mais “provocador”, Miguel Ivan Lacerda criticou o que ele considera uma postura pouco propositiva por parte das lideranças do setor. “O setor fica preso sempre no curto ou curtíssimo prazo. Falta uma visão de longo prazo”, critica apontando para os debates girarem, quase sempre, em torno da próxima ampliação da mistura obrigatória.

Essa uma postura que, segundo ele, pode não levar o setor muito adiante. “O etanol tem mistura de 27% [na gasolina] e muitas das usinas estão com dificuldades. Está claro que mistura não é o suficiente”, provocou. “O setor tem vários dilemas a serem superados, mas, para isso, é preciso parar de lutar batalhas que ou já estão perdidas ou já foram ganhas de vez”, criticou o palestrante apontando que, com o B10 a caminho, faz pouco sentido os fabricantes insistirem no B9.

Representante dos fabricantes de biodiesel no painel, Donizete Tokarski, ressaltou que os produtores já vêm se movendo na direção de um projeto de longo prazo. “Queremos avanços de um ponto percentual ao ano até chegarmos ao B15 que já é previsto pela legislação. Além disso, o setor também tem uma proposta de longo prazo que nos leva ao B20 até 2030”, disse lembrando de uma série de propostas endossadas conjuntamente pela Abiove, Aprobio e Ubrabio há mais de um ano. E cobrou. “O B10 está ‘garantido’. Mas enquanto ele não tiver sido publicado no Diário Oficial, não temos segurança de que ele virá”, alfineta.

Para os distribuidores, a visão de longo prazo também é um elemento fundamental. “Precisamos construir um caminho comum, ordenado e de previsibilidade”, afirma o diretor do Sindicom, Leandro Silva, para quem o biodiesel será uma peça chave na transição para uma matriz energética mais limpa. “O biodiesel vai ter um papel fundamental para preencher o gap até 2030”, complementa.

Importação

Retomando o fio do crescimento explosivo das importações de diesel que havia sido assunto do painel imediatamente anterior, Donizete reclama da aparente falta de empenho do governo em mudar o rumo. “Temos um pulmão enorme para continuar importando diesel, mas um fôlego muito curto na hora de aumentar a produção de biodiesel”, protestou.

Miguel Ivan lembra que a matriz global de combustíveis está mudando o que tornará a importação de diesel pelo Brasil um pouco menos problemática do que é hoje em dia. “A Europa está falando em proibir carros a diesel e, também, temos a eletrificação e o gás natural chegando até a motores pesados. Vai ter muito diesel no mercado e, com isso, os preços vão cair”, especula.

Para Leandro Silva, é preciso integrar o debate em torno do biodiesel ao Combustíveis Brasil – um programa que vem sendo desenhado pelo governo federal com foco na atração de novos atores e investimentos no setor de refino e abastecimento. “A Petrobras tomou a decisão de que não vai mais garantir o suprimento do mercado brasileiro em sua totalidade e reduziram o nível de utilização de suas refinarias de 95% para perto de 85%. É por isso que estamos importando mais [óleo diesel e gasolina]”, afirma

O executivo do Sindicom cobrado uma aproximação maior entre as discussões do RenovaBio e do Combustível Brasil. “Não tem nem como ver [esses dois programas] de forma desintegrada. A infraestrutura que o Combustível Brasil quer estimular vai ser fundamental para movimentar as quantidades de biocombustíveis que o RenovaBio quer fabricar”, pondera. E alerta que, sem um trabalho mais harmonioso, podemos ter problemas de abastecimento dentro de alguns anos. “Precisamos ter um plano integrado. Se ficarmos com discussões vazias não vamos estar prontos e teremos problemas em mais uns 12 anos”, alerta.

Venha o que vier, no entanto, Leandro insiste na necessidade de um planejamento. “Nosso problema não é e nunca foi o nível da mistura, mas a necessidade de um planejamento prévio. Sem fazer os investimentos necessários na infraestrutura das bases de distribuição eu tenho problema porque perco capacidade de atender a demanda”, elabora e exemplifica dizendo que sem modificar a tancagem e as tubulações uma distribuidora que, hoje, consegue carregar 10 caminhões passa a poder atender apenas 6.

É um ponto sobre o qual Miguel Ivan concorda. “Mantidas iguais todas as variáveis, teremos uma crise de abastecimento de combustíveis. A recessão econômica foi o que nos salvou que ela acontecesse agora”, preocupa-se. “Precisamos de grandes investimentos e não vai ser só o governo que vai conseguir resolver”, prossegue.

Ganhos indiretos

Trocar diesel importado por biodiesel nacional não é a única vantagem para Donizete. “Não somos um setor estanque, os reflexos do aumento do biodiesel seriam muito maiores do que a gente fala aqui”, diz. “A indústria de esmagamento está com ociosidade de 33%, mas os investimentos deles também dependem de uma garantia de previsibilidade do setor de biodiesel”, prossegue ressaltando que alguns pontos de uma agenda estratégica para a cadeia como um todo esbarrem em dificuldades externas ao segmento.

“Precisamos ter uma política pública para a coleta de gordura animal e precisamos de mais pesquisa em desenvolvimento tecnológico e inovação, mas o orçamento nessa área vem sendo cortado”, ressalta.

De acordo com Miguel Ivan, o RenovaBio também poderá trazer ganhos inesperado para a indústria ao dizer que os certificados que as usinas passarão a ter direito de emitir – chamados de créditos de descarbonização por biocombustíveis (CBIOs) – poderão encontrar demandas que irão além do programa brasileiro. “A Associação Internacional de Transportes Aéreos tem um compromisso de começar a fazer compensação das emissões. No futuro, poderemos vender créditos para as operadoras aéreas o que permitiria reduzir o preço dos biocombustíveis no mercado interno”, adianta. “Temos uma visão estratégica”, arremata.

Os fabricantes podem não estar tão dispostos a pagar para ver porque o RenovaBio pode demorar mais do que a simples apresentação de uma medida provisória porque muitos de seus efeitos mais benéficos dependeriam de regulamentações posteriores. “A regulamentação do RenovaBio vai demorar entre seis meses até um ano depois de sua aprovação. Não temos como atrelar o avanço da mistura obrigatória a esse processo”, garante acrescentando que o setor tem pressa. “ A oportunidade do biodiesel é agora. Todos sabemos que o biodiesel não terá uma vida tão longa assim e, se não aproveitarmos, vamos dar um tiro no pé. Precisamos ter previsibilidade”, martela Donizete.

A despeito de qualquer desentendimento, Miguel Ivan indica que os desencontros são somente pontuais e que todos estão no mesmo barco. “Eu acredito e trabalho pelo setor de biocombustíveis, mas precisamos discutir estrategicamente. Para construir essa visão contem com a Diretoria de Biocombustíveis do MME”, finaliza.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com
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