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[BiodieselBR 2016] O andamento dos testes do B10 nos motores

Os testes que deveriam atestar o uso de misturas até B10 não estão avançando como deveriam. Há quem diga que essa exigência não será cumprida.
BiodieselBR.com 8 min de leitura
Está claro como a água. A Lei 13.263/2016 determina que sejam realizados testes e ensaios que validem a utilização de misturas de biodiesel até 10% “em até doze meses contados da promulgação”. Como a regra entrou em vigor no dia 23 de março, esse é – em tese – o prazo máximo para que seja dado um veredito definitivo a respeito da segurança do uso de B10. Acontece que as coisas não estão andando com a velocidade que deveriam e já tem gente admitindo que já não dá mais para cumprir essa exigência.

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Está claro como a água. A Lei 13.263/2016 determina que sejam realizados testes e ensaios que validem a utilização de misturas de biodiesel até 10% “em até doze meses contados da promulgação”. Como a regra entrou em vigor no dia 23 de março, esse é – em tese – o prazo máximo para que seja dado um veredito definitivo a respeito da segurança do uso de B10. Acontece que as coisas não estão andando com a velocidade que deveriam e já tem gente admitindo que já não dá mais para cumprir essa exigência.

Entender o que motivou os fabricantes de equipamentos a exigirem mais testes de um biocombustível que vem sendo continuamente virado do avesso ao longo dos últimos anos, o que está dando errado e como fica o mercado se, realmente, não conseguirmos cumprir a meta foi o propósito do segundo painel da Conferência BiodieselBR 2016.

“O B5 foi implementado no âmbito de um conjunto de ensaios que foram coordenados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. [Na época] teve uma preocupação muito forte”, recorda-se o vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Henry Joseph Jr. Segundo ele “já foram dados novos passos sem fazer testes” como a implementação do B6 e B7 em 2014 e não foi a única coisa que mudou nesse meio tempo no mercado brasileiro. Nos últimos anos tivemos a redução do teor de enxofre do diesel e a introdução de novas tecnologias de motores como parte do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve). Garantir que tudo isso funcione em conjunto é o motivo dos fabricantes de veículos e de autopeças fazerem questão dos novos testes.

CBBR Painel2 Henry

Para os fabricantes do biocombustível pode ser que haja uma dose de excessiva de zelo. Foi o que destacou o diretor executivo da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene, Donizete Tokarski, para quem o biodiesel é o “melhor combustível do Brasil”. “Graças ao trabalho da ANP, ele tem o controle de especificação mais rígido de todos os combustíveis do país”, destaca. Donizete diz ainda que, embora não seja contra os testes, acha que eles têm um “timing ruim” porque os fabricantes precisam avançar rapidamente depois de muito tempo de paralização da mistura.

Donizete, inclusive, lembra que, em outros países, já usam misturas maiores que B7 há um bom tempo sem que tenham sido registrados problema mais graves. “A Argentina está usando o B10 desde 2014 e a frota de veículos de lá não é muito diferente da nossa. Já a Colômbia usa B10 feito de óleo de palma que tem características parecidas com o de sebo bovino”, elenca.

CBBR Painel2 Donizete

Cumpra-se a lei

Goste-se ou não dos testes, ninguém discorda que uma vez colocados no texto da lei eles precisam ser realizados. Mas é justamente aí que a coisa enrosca. Inicialmente, tudo parecia estar caminhando relativamente bem. “O MME criou o Grupo de Trabalho para coordenar os testes. Já fizemos seis reuniões ordinárias até agora que tiveram uma participação intensa de fabricantes e entidades”, conta o executivo da Anfavea.

Como parte desse GT, a Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) que fez o trabalho de consolidar, numa planilha única, tudo o que precisaria ser feito. O plano inclui 49 diferentes testes e ensaios que os fabricantes de veículos e autopeças gostariam de fazer. “São testes de performance para ver como a mistura vai afetar o funcionamento dos motores, se as misturas atendem às demandas legais de emissões e de vida de prateleira do B10”, resume o coordenador da Comissão Técnica de Diesel e Biodiesel da AEA, Christian Wahnfried. Em resposta a Donizete, ele afirma que “se não fossem por essas experiências internacionais, nossa lista de testes seria ainda maior”.

CBBR Painel2 Christian

A lista, inclusive, contava com um cronograma capaz de dar conta do recado no tempo disponível. “Previa três meses de preparação, seis para a realização dos ensaios propriamente ditos e mais três meses de consolidação dos resultados. Tudo para que tivéssemos um parecer final sobre o B10 no prazo necessário”, descreve Henry. O problema é que não deu certo. “O prazo atual é inviável para realizar algo que tenha valor técnico”, reconhece o palestrante.

Quem paga a conta?

O grande nó a ser desatado estava na aquisição e distribuição do biodiesel que será usado durante os ensaios. Isso porque não dá para usar qualquer biodiesel, para gerar resultados confiáveis o produto precisa ser o mais homogêneo possível. “Tem que ter a mesma qualidade, então, precisa ter a mesma origem”, explica o recém-empossado diretor do Departamento de Biocombustíveis do MME, Miguel Ivan Lacerda. Nem é tanto combustível assim – a programação prevê que serão precisos 232 mil litros nos testes de validação do B10 –, o mais complicado é que, na maioria dos casos, são cargas muito pequenas. “Esse combustível precisa ser distribuído em tambores e tem uma dispersão grande de cidades”, completa.

Mas foi numa questão bem mais banal que a coisa acabou empacando de vez: Quem afinal paga a conta? Entre aquisição e distribuição do combustível serão gastos R$ 4 milhões. “Levamos quatro meses para estruturar uma solução porque precisávamos de uma solução isonômica”, avalia Miguel Ivan.

CBBR Painel2 MiguelIvan

Uma solução definitiva só veio no final de outubro quando o MME aprovou a Portaria 504/2016 que permite desviar uma parte da margem do adquirente para custear os ensaios. “Conseguimos resolver o problema e montar a estrutura que precisamos para viabilizar todos os testes que serão necessários no futuro. A Petrobras fará a arrecadação, a aquisição do combustível e a logística de entrega”, comemora o representante do MME.

Nem tudo está necessariamente paralisado. Conforme o consultor da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Vicente Pimenta, contou à audiência graças a uma articulação entre a Abiove e a Aprobio há um grupo de sete ensaios que já estão em andamento. “A gente pinçou alguns testes de baixo consumo que usavam biodiesel de soja puro e estamos fazendo por conta até para mostrar que queremos fazer os testes”, garantiu. “Não temos medo dos testes porque estamos confiantes que as coisas vão correr bem”, completa.

CBBR Painel2 VicentePimenta

Sem problema

Para o ministério, a falha em cumprir o prazo estipulado é – certamente – um embaraço, mas não chega a ser um impedimento para a chegada do B8 em março. Segundo a interpretação de Miguel Lacerda, o texto da legislação só torna os testes realmente mandatórios para a implementação do B10. “O aumento da mistura vai ser efetivo a partir de março de 2017. Os testes não são um problema porque o texto da lei nos garante pelos próximos dois anos”, tranquiliza o servidor.

Não basta para aliviar o compreensível nervosismo da Anfavea. “Estamos falando de uma lei federal da qual podemos, ou não gostar. Só não podemos deixar de cumprir. Temos que agir para não ficarmos inadimplentes o que seria muito ruim”, preocupa-se Henry informando que há alguns meses a Anfavea vem cobrando um posicionamento do MME a respeito dessa questão. “Não recebemos resposta até agora”, arremata.

Miguel Ivan concorda que será preciso, pelo menos, uma revisão do cronograma. “A questão agora é o GT revisar o cronograma e fazer a execução”, diz.

Os testes não vão, necessariamente, para aprovar – ou reprovar – o B10 em definitivo. Christian Wahnfried explica em, em muitos casos, o mais importante será coletar subsídios para que as montadoras possam minimizar eventuais dificuldades. “Podemos aprimorar recomendações de manutenção e melhores práticas para que os problemas não aconteçam”, informa.

Pimenta também vai nessa direção. “Se os testes apontarem qualquer problema poderemos encontrar uma forma de mitigar e vamos ter um biodiesel ainda mais robusto e seguro. No futuro, isso também vai ajudar a abrir terreno para aumentar ainda mais a mistura porque o combustível renovável é uma tendência global”, encerrou.

O evento foi realizado com o apoio das seguintes associações e empresas:


Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com
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