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[BiodieselBR 2016] O futuro das matérias-primas do biodiesel

Sempre que o setor de biodiesel se prepara para um salto de produção, surge a mesma dúvida: será que teremos matéria-prima o bastante?
BiodieselBR.com 9 min de leitura
Toda vez que o setor de biodiesel começa a se preparar para dar um novo salto de produção, o mesmo fantasma volta a assombrar todo mundo: será que teremos matéria-prima o bastante para dar conta do recado? Ninguém discorda que uma crise de desabastecimento generalizada seria o pior dos mundos para o segmento. Especialmente se ela chegasse num momento em que, só com os aumentos que mistura estão a caminho, a produção de biodiesel deve disparar dos 3,9 bilhões de litros do ano passado para algo próximo dos 6,4 bilhões de litros em cerca de três anos.

CBBR2016 Painel5 Abre Toda vez que o setor de biodiesel começa a se preparar para dar um novo salto de produção, o mesmo fantasma volta a assombrar todo mundo: será que teremos matéria-prima o bastante para dar conta do recado? Ninguém discorda que uma crise de desabastecimento generalizada seria o pior dos mundos para o segmento. Especialmente se ela chegasse num momento em que, só com os aumentos que mistura estão a caminho, a produção de biodiesel deve disparar dos 3,9 bilhões de litros do ano passado para algo próximo dos 6,4 bilhões de litros em cerca de três anos.

Fora isso, as três maiores associações do setor de biodiesel recentemente apresentaram uma proposta unificada que pode catapultar a produção para 18 bilhões de litros ao ano.

Verificar se há mesmo espaço para que a indústria possa pisar na tábua sem o risco de, mais adiante, dar de frente com um muro de concreto foi a razão de ser do painel “As matérias-primas disponíveis para o B10: o espaço da soja, sebo e palma na produção de biodiesel” que foi realizado no segundo dia da Conferência BiodieselBR 2016. O bloco contou com as palestras de representantes da Câmara Setorial da Palma-de-Óleo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra) e da empresa Bianchini.

Motor de arranque

Naturalmente, a soja será a maior responsável pelo sucesso – ou o fracasso – dos planos do setor de biodiesel. Afinal, o óleo de soja responde por 78% de todo o biodiesel que foi fabricado no Brasil este ano e nada indica que esse domínio esteja para ser abalado em qualquer futuro previsível. Olhando para o histórico do uso desta oleaginosa pelo setor de biodiesel, a aposta do diretor executivo da Bianchini – um dos maiores grupos de soja do Brasil –, Antin Bianchini, é que a participação da soja deverá permanecer mais ou menos no patamar atual por todo o período projetado.

CBBR2016 Painel5 AntinBianchini

Qualquer mudança no mix de matérias-primas do setor deverá acontecer nos andares de baixo do ranking. Especialmente envolvendo a capacidade de oferta de gordura animal e o – protelado – desenvolvimento da indústria de óleo de palma.

Nada, segundo Antin, parece indicar que o ciclo de expansão da soja no Brasil esteja perto de atingir seu limite. Estimativas de longo prazo indicam que o país deverá colher cerca de 142 milhões de toneladas do grão na temporada 2025/26 – 42% mais que os 100 milhões de toneladas esperados para o ano que vem – com aproximadamente metade desse volume sendo exportado in natura e a outra metade disponível para ser processada no mercado interno.

Embora, nesse meio tempo, a demanda interna de soja deva avançar quase duas vezes mais rápido – entre 2017 e 2026 o crescimento projetado é de 80% – os volumes finais ainda devem ficar dentro das margens. Em 2026, a demanda nacional por soja será de 65,8 milhões de toneladas; isso já considerando que, com a chegada do B15, a produção de biodiesel deverá superar os 10,1 bilhões de litros. “De forma muito conservadora, podemos estimar que vai dar para atender à demanda até 2025. Isso sem considerar novas políticas públicas ou tecnologias que mudem os valores”, assegura. As projeções consideram apenas até o B15 porque é esse o valor máximo que temos no marco regulatório atual.

Outras matérias-primas

Enquanto a soja mantém o rumo, a disponibilidade de sebo bovino parece estar se aproximando de seu limite. “Embora a produção de proteínas animais no Brasil esteja crescendo, o desenvolvimento tem sido diferente para cada segmento de mercado. Em 2015, tivemos queda na produção de bovinos enquanto a de frangos e suínos apresentaram um crescimento maior do que o esperado”, explica o coordenador técnico da Abra, Lucas Cypriano. Ele espera a volta do crescimento no segmento bovinos já neste ano, embora considere pouco provável que as projeções mais robustas venham a se concretizar.

Segundo a Fiesp, a produção brasileira de bovinos deve avançar 15% até 2025. Contudo, nos últimos 8 anos o crescimento foi de apenas 1,3%. “Tem uma disparidade muito grande entre as expectativas e o realizado nos últimos anos”, aponta Cypriano.

CBBR2016 Painel5 LucasCypriano

Embora ainda não seja uma matéria-prima relevante no dia a dia das usinas brasileiras, a palma-de-óleo está prestes a encerrar o ciclo de expansão iniciado cerca de 6 anos atrás. Segundo o presidente da Câmara Setorial das Palma-de-Óleo, Roberto Yokoyama, de 2010 para cá foram a área plantada cresceu cerca de 120 mil hectares elevação o total nacional para 236 mil hectares. Com a maturação desses novos plantios o país se tornará, pela primeira vez autossuficiente em óleo de palma. “Até hoje, a produção nacional não era bastante para atender à demanda do setor alimentício, mas, a partir de 2017, esse panorama deverá mudar”, informa.

Estimativas apresentadas pelo palestrante dão conta que teremos uma oferta crescente de óleo de palma, pelo menos, até 2020 quando a produção tenderá a se estabilizar e voltar a se aproximar da demanda. Se mais nenhum novo investimento vier, por volta de 2025 voltaremos a depender de importações para abastecer o mercado. “Mas se conseguirmos manter um crescimento, pelo menos vegetativo, nos manteremos autossuficientes”, prossegue informando que há alguns sinais positivos no horizonte.

Segundo Yokoyama, um programa desenvolvido pelo governo estadual do Pará – principal estado produto de palma – pretende incentivar o acréscimo de, pelos menos, 25 mil hectares ao ano. Isso elevaria a área plantada para até 550 mil hectares até 2030. “Se isso acontecer mesmo, teremos óleo não só para fabricar biodiesel como para exportar”, prossegue. O Brasil seria uma opção para a oferta de óleo de palma asiático que “vem de áreas desmatadas e é produzido com mão-de-obra mal paga”.

Área para tanto temos de sobra. Só o Pará tem 2,3 milhões de hectares altamente aptos ao plantio e já disponíveis sem a necessidade de avançar sobre matas nativas – o país como um todo tem 7,1 milhões de hectares nessas mesmas condições. “A gente tem clima e solo favoráveis e áreas disponíveis, mas precisa de vontade política para que isso aconteça”, pontua Yokoyama.

Industrialização

Concretizar o cenário para a soja, no entanto, exigiria reverter a tendência de queda no nível de processamento da principal oleaginosa brasileira. Em meados da década de 1990, o Brasil processava quase toda a soja – 83% –que colhia. Atualmente, o índice está em cerca de 40%. “Estamos involuindo em termos de processamento”, diz Bianchini, acrescentando que essa não é uma exclusividade nossa. “Os Estados Unidos, mesmo sendo um país muito rico e com enorme mercado interno, hoje só industrializa 50% de sua soja [no começo dos anos 1990, o índice chegava perto dos 70%]”, informa.

É mais uma questão de aumentar os incentivos para que a soja seja processada no país. A capacidade instalada de esmagamento ronda dos 59,5 milhões de toneladas dos quais apenas 53,4 milhões de toneladas estão ativos. “Se houver um aumento de demanda, as processadoras que hoje estão paradas poderiam voltar a operar rapidamente”, garante. Seria exequível processar até 70% da produção da sojicultura brasileira se forem realizadas reformas em políticas fiscais – especialmente a Lei Kandir – para estimular a exportação de produtos industrializados e criadas linhas de financiamento melhor desenhadas para as necessidades de investimento e capital de giro do ramo.

Nos últimos anos, o setor de reciclagem animal entrou em processo de consolidação – de 512 empresas em 2010 o número se reduziu para 344 no ano passado. Isso aconteceu ao mesmo tempo em que a performance cresceu. Em 2015, o setor movimentou R$ 7,9 bilhões no ano passado produzindo 2 milhões de toneladas de gorduras e 3,3 milhões de toneladas de farinhas proteicas. “O setor agora tem fábricas maiores e mais densas tecnologicamente”, explica Cypriano.

Barreira

Das gorduras produzidas, 38% – cerca de 760 mil toneladas – foram para a usinas de biodiesel. Hoje, a produção de biocombustíveis é o maior mercado da indústria de reciclagem animal. Contudo, a desaceleração no número de abates somando ao desaquecimento da economia brasileira que aumentou o consumo de sabão em barra – mais barato que o sabão em pó ou líquido – o que, por sua vez, aumenta a competição pelo sebo no mercado brasileiro. “Ao menos momentaneamente, atingimos o limite de oferta do sebo”, diz. A falta da gordura está tornando o Brasil importador de sebo.

Segundo Cypriano, uma forma de aumentar rapidamente a oferta de sebo no Brasil seria a aprovação de um projeto que libera a atividade de coleta e reciclagem das carcaças de animais que morrem naturalmente nas fazendas. Isso poderia aumentar a oferta de gordura animal entre 300 e 400 mil toneladas. Entretanto, esse projeto só deve sair no médio prazo. “Se tudo der certo, a reciclagem no campo não deve se iniciar antes de 2018”, completa.

Para a palma, o maior desafio vem da situação fundiária no estado do Pará. “Precisa desburocratizar para que o governo estadual tenha agilidade e precisamos de políticas públicas duradouras porque, quando você fala de uma cultura agrícola que produz por 30 anos, não podemos ficar sujeitos à mudanças de regras”, avalia Yokoyama. Também será preciso que a indústria brasileira investa pesadamente em mecanização e melhorias de produtividade para poder competir com o produto mais barato que vem da Indonésia e das Malásia.

CBBR2016 Painel5 RobertoYokoyama

No caso da soja, maior barreira no caminho é o que fazer com o farelo de soja que será produzido. Serão 54,7 milhões de toneladas de farelo em 2026. Além de atuar internamente estimulando a indústria de carnes, para escoar esse volume extra será preciso trabalhar mais intensamente a abertura de mercados internacionais o que, por sua vez, demandará novos investimentos em infraestrutura de armazenamento e portuária. “É impositivo aumentarmos o consumo interno [de farelo] porque só as exportações não vão dar conta, uma vez que temos outros players concorrendo conosco”, detalhou Antin Bianchini.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com
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