

O dia foi aberto com uma admissão...

O dia foi aberto com uma admissão: o plano do governo federal de tornar o pais autossuficiente na produção de óleo diesel falhou. Os recentes cortes no nível de investimentos previstos no Plano de Negócios da Petrobras confirmam que o país se manterá um importador substancial do derivado ainda por muitos anos, mas isso, segundo o diretor do departamento de combustíveis renováveis do MME, Ricardo Dornelles, “não é nenhum bicho de sete cabeças”. “É um déficit que exige um esforço logística considerável, mas que é administrável. O país não vai parar por causa disso”, garante.
Já o vice-presidente técnico da Ubrabio, Marcos Boff, ressaltou que o rombo pode ser bem maior do que o previsto pelo ministério. “A ANP está prevendo um déficit de 22,6 bilhões de litros. Isso porque eles estão prevendo um mercado menor por causa da retração da economia”, preocupou-se. Embora admita que seja impossível substituir esse volume todo por biodiesel. “Mas tem um espaço no qual poderíamos crescer bastante”, acrescenta.
O próprio Dornelles reconhece que a dependência externa “não é uma situação desejável” e confirma que sua perpetuação no longo prazo a cria – sim – “uma boa oportunidade para o crescimento do biodiesel”. O problema é que o argumento da substituição das importações pode não ser tão convincente quanto o empresariado do setor gostaria de pensar. “Afinal, o que é melhor para o país; produzir biodiesel e evitar a importação de diesel, ou exportar óleo de soja?”, questionou o servidor que mostrou que, do ponto de vista exclusivo das contas externas, importar óleo diesel é uma opção melhor do que deixar de exportar óleo de soja.
Desequilíbrios?
Embora, no passado, o biodiesel tenha ajudado a equilibrar o complexo soja num contexto em que a demanda por farelo avançou mais rápido do que a demanda por óleo no mercado de alimentação – o crescimento da produção de biodiesel absorveu o óleo excedente evitando que a indústria de processamento tivesse que colocá-lo no mercado em condições muito desfavoráveis.
É uma condição que pode não se repetir no futuro. Aumentar muito rapidamente a demanda por biodiesel sem criar mercados capazes de absorver o farelo que passaria a ser produzido poderia provocar prejuízos. “Ter uma sobreoferta [de farelo] pode gerar uma destruição de valor”, comenta. “Como a cadeia da soja é maior que a do biodiesel, não compensa destruir valor nela porque isso não seria saudável para o crescimento do país”, explica Dornelles.
Marcos Boff lembrou em sua palestra que o setor de biodiesel tem urgência. “A estagnação entre 2010 e o ano passado eliminou muitos produtores com a capacidade ficando muito concentrada em regiões vocacionadas para a produção de matéria-prima. É um cenário de preocupação”, afirmou explicando que para a Ubrabio seria importante avançar para o B10 até 2018. Também que não há impedimento do ponto da disponibilidade física de matérias-primas. “Em 2008, tivemos uma safra [de soja] de 60 milhões de toneladas. A safra atual está projetada para mais de 99 milhões de toneladas dos quais 55 milhões de toneladas serão exportados”, diz. Só com a fração exportada sem qualquer valor agregado adicional seria possível fabricar 11 bilhões de litros de biodiesel.
Balanceando a conta
Ajustar essa conta, segundo Dornelles, exigiria uma equação bem mais complicada que envolve o cálculo das externalidades positivas que o uso do biodiesel produz em termos de “benefícios para a saúde pública” ou “a diversificação e distribuição dos recursos ao longo da cadeia produtiva”.
“É fácil encontrar externalidades positivas para o biodiesel”, diz o diretor-superintendente da Aprobio, Júlio Minelli, dando como exemplo os avanços tanto no Produto Interno Bruto (PIB) quanto no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das cidades onde foram instaladas unidades produtoras de biodiesel e que resíduos nocivos ao meio-ambiente como o óleo de cozinha pós-consumo e a gordura animal estão indo para a produção.
Para que isso aconteça, Boff relembra uma velha queixa dos fabricantes de biodiesel – a falta de um horizonte de longo prazo. “Com uma previsibilidade melhor do mercado, teríamos um planejamento melhor”,
Há ainda outras travas que dificultam esse movimento: a indústria automotiva mantém uma posição avessa ao aumento. Com os fabricantes e sistemistas de injeção eletrônica mantendo que o limite seria de 7% enquanto algumas montadoras permitem misturas de até 30% por conta própria. “É fundamental a construção de um programa de testes de motores voltado às particularidades da frota brasileira. (...) Isso não pode ser uma tarefa exclusiva do governo federal”, pontuou Dornelles.
Minelli, da Aprobio, destacou o potencial de crescimento das exportações e consumo doméstico da carne de aves, suínos e bovinos – todas elas atividades usam o farelo de soja como insumo – como uma oportunidade de, novamente, manter as contas do complexo soja balanceadas. “Tem uma agregação de valor grande quando processamos o grão no território brasileiro”, analisa.
Outro ponto importante é que a composição do mercado biodiesel como existe hoje não é a única opção. “O biodiesel de palma na Região Norte vai demorar um pouco porque é uma região complicada, mas certamente virá porque tem um potencial produtivo importante”, avalia. Há outras opções tecnológicas comprovadas no horizonte – como diesel de cana-de-açúcar e o óleo hidrogenado – a espera de condições econômicas mais favoráveis para ganharem escala. “Não teremos o biodiesel transesterificado como única solução no longo prazo. Quanto mais alternativas, melhor para o consumidor e a sociedade temos que estar de olho para o que está acontecendo no restante do mundo”, complementa.
A substituição das importações não é o único argumento da indústria, a possibilidade do biodiesel servir como uma ferramenta para o cumprimento das metas de redução das emissões de gases do efeito estufa (GEEs) anunciadas há pouco pela presidente Dilma Rousseff. Até agora, o Brasil tem feito um bom trabalho simplesmente controlando o desmatamento ilegal na Amazônia, mas esse é um ciclo que vem se esgotando. “A energia e a agricultura passam a ser a bola da vez”, explica. “O aumento da mistura é uma das metas que será adotada, mas não está conhecido ainda como isso vai acontecer”, prossegue o representante do MME.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com