A Conferência BiodieselBR trouxe um encontro inédito de representantes das três entidades representativas do setor de biodiesel.
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Entre as novidades dessa edição da Conferência BiodieselBR está um novo formato de debates batizado de Direto ao Ponto. Seu principal diferencial é ir direto para o debate de ideias sem que, antes, convidado seja obrigado a fazer uma longa apresentação que, muitas vezes, simplesmente repisam informações que o público já está cansado de saber. Para a estreia, o evento recebeu nomes de peso das três principais entidades representativas do setor: Erasmo Battistella, da Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio); Juan Diego Ferrés, da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene; e Fábio Trigueirinho, da Abiove.
Entre as novidades dessa edição da Conferência BiodieselBR está um novo formato de debates batizado de Direto ao Ponto. Seu principal diferencial é ir direto para o debate de ideias sem que, antes, convidado seja obrigado a fazer uma longa apresentação que, muitas vezes, simplesmente repisam informações que o público já está cansado de saber. Para a estreia, o evento recebeu nomes de peso das três principais entidades representativas do setor: Erasmo Battistella, da Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio); Juan Diego Ferrés, da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene; e Fábio Trigueirinho, da Abiove.
Esse era um encontro que ainda não havia acontecido de forma pública e que revelou um setor que, apesar das diferenças entre seus atores, possui muitas convergências naturais.
Convergência
A começar pela visão de futuro: todos querem avançar rapidamente na mistura obrigatória e acham que B15 seria uma meta razoável a ser perseguida olhando 10 anos para o futuro. “Num horizonte de 10 anos a gente [na Aprobio] imagina que seja possível chegar a algo entre o B15 e o B16 com segurança na oferta de matéria-prima e distribuição”, avalia Battistella acrescentando que seria possível chegar ao B20 até 2030 “como parte do compromisso brasileiro na COP 21”.
Segundo Ferrés, essa é uma meta convergente com o que vem sendo trabalhado pela Ubrabio para o longo prazo. Ele, no entanto, chama a atenção para a importância de um horizonte de curto e médio prazos como a implantação do B10 dentro dos próximos “dois ou três anos” e para o potencial dos mercados facultativos. “Temos uma oportunidade de crescer de forma muito significativa”, completa
Trigueirinho é até mais enfático. Para, a implantação do B8 deveria acontecer “para ontem”, mas, a partir daí, é possível adotar um cronograma mais compassado. “Daria para chegar ao B10 crescendo um ponto percentual ao ano”, completa garantindo que não vai faltar óleo de soja para dar sustentação a esse avanço. “Temos uma produção [de soja] consolidada e estamos chegando a 100 milhões de toneladas ao ano, (...) como 30% de nosso parque de processamento está ocioso e poderia dar suporte ao crescimento”, prossegue.
Para Battistella, seria possível avançar para o B10 “imediatamente” se fosse necessário, uma vez que há usinas ofertando menos do que poderiam nos leilões. Mesmo assim, ele recomenda prudência, até porque “temos que dar o tempo necessário para todos os agentes da cadeia”.
O grande nó, segundo Ferrés, é que ainda falta fechar a conta para que a indústria possa “capturar esse óleo que está no grão” de soja que, hoje, é exportado sem qualquer agregação de valor. “O programa de biodiesel é uma forma de industrializar a soja porque a China só quer o grão”, segue reclamando do que chamou de obsessão anti-inflacionária do governo que leva o país a desperdiçar o potencial de sua indústria de biodiesel. “Precisamos ter um pouco mais de visão e seguir em frente porque poderíamos baixar o preço do biodiesel no longo prazo de forma mais inteligente do que criando um estresse permanente de oferta”, critica.
Apesar das críticas pontuais, Battistella reconhece que o governo tem grande parte do mérito pelo setor ter chegado onde chegou mas, ele ressalta, esse é um processo que não pode parar. “O momento econômico exige que tomemos decisões como país porque, além de estarmos vivendo um processo de desindustrialização, temos metas de redução de emissões [de gás carbônico] a cumprir e o governo tem o papel de dar as diretrizes”, pondera. “Não podemos deixar de aproveitar as oportunidades que temos”, arremata.
Fora da caixa
Além do aumento da mistura, Ferrés cobra uma “reconstrução” da Comissão Executiva Interministerial do Biodiesel (Ceib) que, segundo ele, anda “mais adormecida”. Em sua opinião, o órgão seria a instância certa para encontrar maneiras criativas de potencializar a atuação de setor, especialmente para combater ineficiências como a ociosidade das usinas. “A ociosidade gerar um incremento de custo que pode ser maior que 2% da margem e é um dinheiro que está indo pelo ralo”, reclama.
Ter uma gestão mais ousada para o biodiesel também poderia ajudar a resolver gargalos históricos do programa como o das metas de inclusão produtiva para o Norte e Nordeste que poderiam se beneficiar do crescimento da soja nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (região chamada de Matopiba). “Poderíamos ter um programa estrutural para o Matopiba onde já se plantam mais de 7 milhões de hectares de soja. Deveríamos ir atrás desse potencial”, afirma.
Isso ajudaria, inclusive, a resolver situações relacionadas ao Selo Combustível Social que, na opinião das três entidades, “precisa evoluir”.
“O Selo é fundamental, mas não deveria ser computado em todo o volume fabricado pelas usinas. (...) Os mercados da mistura facultativa, por exemplo, não deveriam entrar no Selo”, defende Ferrés.
Além dessas mudanças mais estruturais e de achar que o programa construiu um “ativo importante de regras que funcionam de forma satisfatória”, Trigueirinho chama a atenção para mudanças mais simples mas que poderiam fazer bastante diferença para as usinas caso, por exemplo, da definição de prazos máximos para que as entidades da agricultura familiar deem sua anuência aos contratos entre os agricultores e as usinas. Fora isso, com o prazo final do Cadastro Ambiental Rural (CAR) se aproximando, o executivo da Abiove entreve dificuldades para cumprir as metas. “Temos uma preocupação porque uma parcela grande da agricultura familiar no Sul está atrasada em relação ao CAR”, comenta.
Mercado Externo
A conversa abordou também um velho fantasma: a possibilidade de que as usinas de biodiesel da Argentina venham a competir por um naco do mercado brasileiro de biodiesel.
Para Ferrés a importação não seria um tabu. “Não podemos vetar a importação como uma solução válida para um problema conjuntural de falta de biodiesel”, disse afirmando que as usinas do país vizinho não são melhores do que as brasileiras. “As tecnologias são parecidas”, pontua.
A grande vantagem dos argentinos em relação aos produtores brasileiros diz respeito ao regime tributário. O governo argentino oferece vantagens tributárias para empresas que exportem produtos com maior valor agregado em relação à exportação de matérias-primas menos processadas. “Isso não poderíamos assistir passivamente. O Brasil teria que fazer políticas compensatórias para resolver qualquer distorção”, defendeu o empresário.
Trigueirinho colocou os números no debate – enquanto para exportar óleo de soja as esmagadoras argentinas pagam 32% de imposto, uma usina de biodiesel paga apenas 10%. “É impossível competir dessa forma porque faltaria isonomia tributária”, elabora.
Esse diferencial tributário também é o que vem travando as exportações de biodiesel brasileiras, na opinião de Battistella cuja empresa – a BSBios – foi uma das raras empresas do setor a exportar biodiesel. “Não foram volumes assim tão grandes, mas foi algo que nos deu bastante orgulho. Continuo sonhando com o mercado externo”, resumiu.
Alinhamento
Com três entidades atuando dentro de um único setor, manter o alinhamento é fundamental para que o trabalho de uma organização não acabe – ainda que involuntariamente – erodindo o de outra. “Precisamos alinhar de tempos em tempos”, reconhece Trigueirinho destacando, no entanto, que um alinhamento perfeito é ilusório. “No setor de esmagamento onde a Abiove atua sozinha, temos diferenças de posição entre as associadas”, relativiza.
Battistella garante que, apesar das diferenças, cada uma das três entidades tem especificidades que as legitimam e desenvolvem trabalhos importantes. “Mesmo assim, acho que seria importante termos uma voz suprainstitucional que pudesse falar representando 100% dos fabricantes”, opina.
Ferrés defende que as empresas ficam mais forte quando estão associadas. “Precisa ter militância”, finaliza.