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Agrenco: operação no MT prossegue; inaugurações são adiadas


Valor Econômico - 09 jul 2008 - 06:20 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:06

Os problemas enfrentados pela Agrenco, que incluíram a prisão de três de seus ex-diretores em junho, não interromperam a produção na unidade de processamento de grãos que a companhia inaugurou em março em Alto Araguaia (MT). Ainda assim, freou a programação dos investimentos anunciados pela empresa e pôs em alerta os funcionários da unidade mato-grossense.

Segundo o cronograma da Agrenco, reiterado no anúncio de seu balanço do primeiro trimestre, a inauguração em Alto Araguaia seria sucedida pelo início das atividades das outras duas plantas, localizadas em Caarapó (MS) e Marialva (PR). As duas unidades entrariam em operação em maio.

Segundo um funcionário da Agrenco ouvido ontem pelo Valor, a planta de Caarapó, de esmagamento de soja para a produção de biodiesel, está “prontinha, pronta para operar”, tarefa que acabou adiada. “Depois do que aconteceu, está todo mundo esperando para ver o que vai acontecer”, disse ele. O investimento na unidade foi de cerca de R$ 60 milhões.

As obras na planta paranaense, que também seria inaugurada em maio, ainda não foram concluídas, de acordo com o funcionário. À prefeitura de Marialva, a informação dada em 2007 era de que a unidade receberia investimento de R$ 40 milhões.

Em Alto Araguaia, a produção continua em curso para dar conta da entrega dos lotes de biodiesel que cabem à Agrenco, uma das vencedoras do mais recente leilão de compra realizado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em abril, a ANP realizou, em dois dias consecutivos, o oitavo e o nono leilões de biodiesel.

A oitava rodada, a maior, movimentou R$ 710 milhões e negociou 264 milhões de litros. A Agrenco ficou com 39,6 milhões de litros, ou 15% do total. Os três lotes da companhia foram os demenor preço da rodada. O de menor preço, de R$ 2,389 por litro, representou um deságio de quase 15% em relação ao teto de preço estipulado pela ANP — na rodada, o deságio médio foi de 4,02%. Esse “desconto” garantiu a vitória na rodada — no total, 16 companhias venceram o leilão —, mas, no mercado, o comentário é que a margem da empresa ficou mais apertada que a da concorrência.

Após o fim da colheita da safra no Mato Grosso, os trabalhadores temporários da planta de Alto Araguaia, que representam entre 20% e 30% do efetivo total, desligaram-se da empresa — movimento usual no mercado. “Mas tem muita gente saindo. Sempre tem e-mail de despedida”, afirma o funcionário. A previsão era que a unidade teria 150 funcionários próprios. A fonte ouvida pelo Valor não soube informar se todas essas vagas foram preenchidas.

Agrenco leva Cássio Casseb para conselho

O destino da Agrenco passa pelas mãos do ex-presidente do Banco do Brasil e do Pão de Açúcar Cássio Casseb. O executivo foi eleito para o conselho de administração da companhia e compõe um trio de executivos que conduz os negócios desde que os três principais acionistas controladores foram presos em ação da Polícia Federal, há duas semanas, na chamada Operação Influenza.

A eleição de Casseb ainda não foi comunicada ao mercado. De acordo com a empresa, ele foi eleito em 28 de fevereiro — portanto, antes do operação policial — e sua posse será informada à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) “em breve”. Nos registros do regulador, não há qualquer menção à alteração do conselho da empresa. Mesmo nos informativos da companhia (IAN), a composição do conselho ainda não traz o nome de Casseb.

Não está claro se houve assembléia para mudar a composição do colegiado e mesmo se há essa obrigatoriedade no caso da Agrenco. O estatuto social da empresa afirma que os controladores, desde que possuam mais de 20% do votos válidos em assembléia, podem destituir e eleger um conselheiro por meio de uma notificação entregue à empresa.

Não há, na CVM, nenhum registro de documentos encaminhados pela Agrenco referente à assembléia de acionistasemfevereiro ou troca na sua composição.

O documento mais recente que trata do conselho de administração — antes da ação da PF — é sua proposta de pauta para a assembléia geral, de abril. A sugestão era de que fosse mantida a composição anterior do colegiado, com cinco membros, mas sem citar quem seriam esses representantes. Havia ainda uma outra proposta: para que o conselho e demais administradores ficassem “isentos e dispensados de qualquer responsabilidade com relação aos atos praticados no exercício de 2007”.

Pela regra da CVM para empresas que negociam recibos de ações — caso da Agrenco, com sede em Bermudas — um resumo das decisões em assembléia deve ser divulgado no dia seguinte à realização do encontro. Mas sequer está claro se Casseb foi eleito em assembléia, uma vez que não há registro de sua convocação no regulador.

Nem mesmo no comunicado enviado após a prisão dos sócios Antonio Iafelice, Antônio Augusto Pires Júnior e Francisco Carlos Ramos, a Agrenco falou sobre a atuação de Casseb. Ele cuida do negócio junto José Guimarães Monforte e James Wright — que compunham o conselho desde a estréia da empresa na bolsa. Apesar de ter informado que o conselho seria assumido pelos “três membros externos”, a companhia não citou os nomes dos executivos. Os sócios controladores foram presos no dia 20 de junho, suspeitos de crimes que vão desde desvio de dinheiro da companhia, até fraude de balanços e sonegação fiscal.

Casseb está à frente das decisões do conselho ao lado de Monforte, ex-presidente do conselho do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e sócio da consultoria Pragma Gestão de Patrimônio. A sua chegada já estaria relacionada à busca de alternativas para as dificuldades encontradas para obtenção de crédito. Os bancos ficaram mais arredios à concessão de recursos ao setor, especialmente, depois dos problema de solvência da Selecta.

A Agrenco já não havia conseguido executar por completo seu plano financeiro após a abertura de capital e foi ainda mais prejudicada pelos problemas no setor. Quando chegou na bolsa, em outubro do ano passado, obteve R$ 666 milhões. Os recursos foram usados para pagar dívidas anteriores e alimentar o negócio com capital de giro. A idéia era quitar os vencimentos antigos e obter novos, em melhores condições após a capitalização.

No entanto, a companhia não conseguiu acessar o mercado de crédito como pretendia. Umaconjunção de fatores aumentou a aversão dos bancos ao risco do setor agrícola, com destaque para as companhias de comércio exterior desse segmento — as tradings, principal negócio da Agrenco.

Pouco antes da prisão dos sócios, a companhia planejava um aumento de capital, para melhorar sua liquidez. Tinha, no fim de março, dívidas de R$ 1 bilhão para vencer em 12 meses e apenas R$ 52 milhões em caixa.

Depois dos problemas com os sócios, o plano é capitalização com a entrada da Louis Dreyfus Commodities (LDC) no bloco de controle. A empresa francesa traria US$ 68 milhões e trabalharia com a administração para obter um empréstimo de US$ 150 milhões.