Univaldo Vedana

O girassol e o biodiesel


Univaldo Vedana - 04 jun 2007 - 17:44 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

Em 2003, um agrônomo argentino que entende muito de girassol, é inclusive produtor de sementes, me disse que o potencial brasileiro de produção de girassol é de milhões de toneladas. E disse mais, o lugar do girassol no Brasil é em todo o centro oeste e plantado nos meses de fevereiro e março, ou seja, na safrinha. Segundo a CONAB a safra de girassol brasileira para 2007, será de míseras 120 mil toneladas.

Com esta celeuma sobre os biocombustíveis versus alimentos, o girassol nestas condições solucionaria dois problemas: a produção de matéria prima para biodiesel e o aumento da produção de alimentos. A falta de matéria prima para biodiesel é uma realidade mundial, prova disto é o óleo de soja que está chegando perto do maior preço histórico já alcançado e está se mantendo acima dos trinta centavos de dólar por libra peso na bolsa de Chicago há oito meses, sem previsão de baixas significativas.

Desde que comecei com biodiesel na primeira usina no sul de Goiás, inaugurada em agosto de 2003, a opção foi pelo girassol porque é a melhor conta tanto para o produtor, como para a usina. A previsão era uma produção de 1.500 quilos por hectare e uma extração de 30% de óleo na prensagem mecânica. Vejam que são números modestos, usando um pouco de tecnologia em condições normais de clima, consegue-se facilmente aumentar esta produção por hectare e extrair mais óleo. Mesmo com esta projeção modesta temos 450 litros de biodiesel por hectare e 950 quilos de torta. O produtor usando boa tecnologia de plantio não gastará mais que R$ 500,00 por hectare.

O girassol é uma planta mecanizável, do plantio até a colheita tudo pode ser feito com máquinas, portanto é ideal para os produtores rurais do centro oeste que têm as terras, as máquinas e agora, a opção de plantar, após a colheita da safra de verão,  girassol em uma área correspondente às suas necessidades de combustível, reduzindo significativamente os custos com combustíveis.

Por outro lado vemos o governo e algumas empresas incentivando o plantio de girassol nas pequenas propriedades rurais. Será que a pequena propriedade rural , que usa trabalho manual, conseguirá competir em preço com o produtor rural que trabalha mecanizado? No passado o algodão era produzido nas pequenas propriedades e todo o cultivo era feito manualmente. A partir do momento que a cultura foi mecanizada e o grande produtor entrou, a cultura manual não se sustentou e hoje a produção está 100% na mão dos grandes produtores do centro oeste. Insistir no girassol para a agricultura familiar tendo o exemplo do algodão não seria um desacerto? O caminho da agricultura familiar, a meu ver, passará por culturas perenes, com maior produção de óleo por hectare, a exemplo das palmáceas, pinhão manso e tungue que poderão ser plantadas em consórcio com alimentos.

A Coapar, em Campos de Julio no Mato Grosso, e a Jataí Agroindustrial, em Jataí em Goiás, estão iniciando nesta safra a produção de biodiesel com girassol plantado na safrinha, trabalhando na produção de biodiesel para consumo próprio e de associados. Com o trabalho destas duas empresas teremos dentro de mais alguns meses as provas práticas definitivas da viabilidade desta cultura e a transformação em biodiesel, servindo de exemplo para que no próximo ano dezenas de outros produtores façam o mesmo.

Univaldo Vedana é especialista em biodiesel e responsável pela primeira fábrica de biodiesel do país abrangendo todo o processo de produção.