Luiz Pereira Ramos

Sobre a Rede Brasileira de Tecnologia de Biodiesel


Luiz Pereira Ramos - 12 fev 2008 - 12:04 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

Desde o lançamento do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), nosso maior desafio tem sido o de encontrar meios para dar sustentação a toda a cadeia produtiva do biodiesel, independentemente da escala de produção. E esta foi exatamente a principal justificativa para a criação da Rede Brasileira de Tecnologia para Produção e Uso de Biodiesel, cujas atividades têm sido centradas nos principais alicerces do setor, a saber: agricultura, produção, armazenamento, controle de qualidade, uso de co-produtos e, mais recentemente, uso de biodiesel e sustentabilidade sócio-ambiental. Tratam-se, obviamente, de áreas profundamente inter-relacionadas cujo sucesso, dentro do conceito de redes temáticas, exigiria uma coordenação rigorosa, participativa, transparente e perfeitamente coadunada com as metas do programa.

O problema é que 2007 praticamente inexistiu neste sentido. Primeiramente, pela ausência de uma melhor interlocução entre a coordenação geral e os membros da equipe de coordenadores regionais indicados pela comunidade e, não menos importantemente, pela falta de reconhecimento que estas coordenações regionais têm recebido ao longo destes últimos dois anos. Um exemplo disto foram os resultados do II Congresso da Rede Brasileira de Tecnologia para Produção e Uso de Biodiesel, realizado em Brasília de 21 a 24 de novembro de 2007. A princípio, o evento foi um grande sucesso, pois o número de participantes e de trabalhos científicos foi pelo menos três vezes superior ao verificado no congresso anterior, realizado em dezembro de 2006. No entanto, esperava-se que esta reunião fosse cercada de maior rigor técnico e científico, e que fosse capaz de evidenciar os resultados tecnológicos da rede, e não da iniciativa isolada de alguns grupos de pesquisa. Na verdade, ainda estamos muito aquém do compromisso de consolidarmos as ações integradas que deveriam constituir a rede e parte do problema está exatamente relacionado à falta de uma gestão coordenada e participativa de toda esta informação, até mesmo para orientar as tomadas de decisão do governo federal e de suas agências de fomento.
 

 "Falta uma gestão coordenada e participativa de toda informação"


Seria, portanto, absolutamente urgente re-estabelecer uma interlocução, presente e pró-ativa, entre todas as iniciativas científicas e tecnológicas da rede, através de ações muito mais eloqüentes do que a simples criação de uma página na internet ou de grupos informais de discussão. Por exemplo, passados três anos do lançamento do programa, ainda não contamos com uma especificação técnica definitiva para o produto, exatamente no momento em que se discute a harmonização das normas técnicas internacionais, sob padrões cada vez mais rígidos. Além disto, há que se discutir a necessidade de promovermos ações para aumentar a disponibilidade de matérias-primas alternativas de maior viabilidade, e de avaliarmos o impacto da discriminação de outras que ainda se apresentam como solução real para o momento.

O emprego errôneo de conceitos básicos de engenharia (rendimento, conversão e pureza do produto final) tem dificultado a análise comparativa de resultados oriundos de diferentes laboratórios e, em muitos casos, percebe-se a insistência na investigação de rotas tecnológicas que jamais atingirão viabilidade no mercado. O momento exige concentração de esforços para que possamos oferecer soluções reais aos verdadeiros gargalos do programa. Da rede de especialistas que dá suporte ao programa, precisamos de agilidade na oferta de soluções concretas para as dificuldades tecnológicas descritas acima e, do poder público, precisamos de medidas mais contundentes que promovam o desenvolvimento sustentável e que incentivem os investidores ao longo de toda a cadeia produtiva.

Luiz Pereira Ramos, UFPR. Saiba mais sobre o autor.
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