Luiz Pereira Ramos

Notas sobre o Primeiro Congresso da Rede Brasileira de Produção e Uso de Biodiesel


Luiz Pereira Ramos - UFPR - 27 set 2006 - 10:45 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

O Congresso da Rede Brasileira de Biodiesel teve suas atividades distribuídas entre os dias 31 de agosto e 01 de setembro do corrente na capital federal, sob a organização do MCT e da ABIPTI. Estas atividades foram concentradas em cinco áreas temáticas, que já tinham sido anteriormente definidas no programa como as mais embrionárias e/ou de maior demanda tecnológica: a agricultura, a produção, o armazenamento, o uso de co-produtos e o controle de qualidade. Em geral, o evento apresentou boa qualidade técnica, com mais de uma centena de trabalhos sendo apresentados sobre os mais diversos assuntos relacionados à cadeia produtiva do biodiesel. Sobre esta questão, vários pesquisadores se declararam publicamente satisfeitos pela diversidade e pela qualidade dos trabalhos apresentados, cujos conteúdos revelaram a evolução que o programa sofreu desde a sua criação. Além das sessões de pôsteres, cada uma das áreas temáticas contou com a realização de um painel, organizado pelos seus respectivos coordenadores e composto pela comunicação oral de seis trabalhos, previamente selecionados dentre os demais por uma equipe de pesquisadores com ampla representação regional. Pois bem, desta interessante e intensiva experiência de dois dias, gostaríamos de dividir com os leitores desta coluna algumas observações pessoais. Embora não nos tenha sido possível participar das seções de agricultura e de controle de qualidade, devido à superposição de horários com seções onde deveríamos contribuir com apresentações orais, parece-nos consensual que a seção de produção foi a mais interessante, com trabalhos de excelente qualidade técnica sendo apresentados em temas como rotas catalíticas alternativas para a (trans)esterificação de diferentes tipos de matérias graxas (p. ex., hidróxidos minerais, lipases, óxidos de zircônio e estanho sulfatados, fosfato de alumínio e complexos organometálicos de titânio e zircônio) e a otimização dos processos de craqueamento termocatalítico e de produção de biodiesel a partir de matérias graxas de descarte, como os óleos de fritura. Como o aumento da competitividade do biodiesel depende parcialmente da evolução dos catalisadores heterogêneos, provavelmente inseridos em processos contínuos de produção, o enfoque proporcionado pelos coordenadores facilitou a avaliação de quão próximos estejamos da viabilização técnica e econômica destas alternativas tecnológicas.

Os projetos apresentados na seção técnica de armazenamento foram bastante abrangentes e indiscutivelmente representativos da importância estratégica que a área representa para o programa. Porém, alguns trabalhos apresentaram resultados baseados em amostras de biodiesel não especificadas, enquanto que outros ofereceram interpretações questionáveis sobre os resultados obtidos por métodos analíticos como o Rancimat, a análise térmica e a espectrometria no infravermelho. Esta situação se demonstrou bastante preocupante, já que soluções para aumentar a estabilidade ao armazenamento e diminuir a susceptibilidade à oxidação devem ser consideradas prioritárias para que o biodiesel possa vir a ser utilizado com segurança nos setores de transporte e de geração de energia elétrica. Um fator interessante foi a abordagem dada por vários grupos à rancidez hidrolítica de origem microbiana, que pode apresentar dificuldades na manutenção dos tanques e reservatórios que receberão o biodiesel anteriormente à mistura com diesel convencional. Portanto, a biodegradabilidade, que constitui vantagem sob o aspecto ambiental, pode representar um problema para a logística de armazenamento e de transporte do biodiesel, já que as bactérias que normalmente contaminam tanques de armazenamento de diesel são perfeitamente capazes de metabolizar o biodiesel, gerando um aumento significativo na acidez do produto pelo aumento da atividade lipolítica (ação de lipases) no meio.

No painel sobre co-produtos, trabalhos interessantes foram apresentados na linha dos compósitos biodegradáveis, da produção de biogás e do uso de glicerina em química fina para a produção de ésteres e éteres glicerídicos. As perspectivas do uso de tortas e farelos de oleaginosas (particularmente da mamona) como ração para animais, ou mesmo para a geração de energia térmica e elétrica, também foram bastante discutidas como alternativas para a destinação destes co-produtos; naturalmente, dúvidas ainda pairam sobre o processo ideal para a detoxicação e desalerginização da torta de mamona. Neste sentido, várias instituições nacionais de ensino e pesquisa estão conduzindo projetos para resolver o problema.

Segundo informações, a seção de controle de qualidade foi bastante polêmica, já que os métodos ainda sugeridos pela especificação nacional concentram vários problemas analíticos decorrentes do emprego de procedimentos desenvolvidos exclusivamente para ésteres metílicos e/ou derivados de óleo de colza (canola) e de soja. Dos métodos alternativos sugeridos, o grande número de procedimentos baseados em espectrometria no infravermelho, ressonância magnética nuclear de hidrogênio e análise térmica chamou a atenção, mas, em praticamente todos os casos, o limite de detecção, a reprodutibilidade e a faixa de linearidade destes métodos não foi discutida a contento. Foi também discutida a necessidade de uma política adequada para o controle de qualidade do biodiesel nacional, favorecendo inclusive o desenvolvimento de uma especificação definitiva que não ofereça conflito para as suas diferentes aplicações práticas, seja como combustível puro (B100), como componente de mistura (B5 a B50) ou como simples aditivo do diesel derivado do petróleo (B2 a B5).

Finalmente, o grupo técnico de agricultura parece ter progredido na definição de estratégias para fomentar a produção de matérias-primas alternativas, como o pinhão-manso, o pequi e outras oleaginosas perenes, dando alguma segurança de que as iniciativas hoje sendo implementadas poderão garantir o fornecimento da matéria-prima necessária para a expansão do programa. Vale registrar que a grande maioria dos produtos hoje gerados em território nacional tem origem no óleo de soja, cuja baixa estabilidade à oxidação exigirá o emprego de antioxidantes eficientes em níveis compatíveis com o exigido pela especificação.

Não nos seria possível concluir esta nota sem mencionar um dos pontos mais polêmicos do evento, que mereceu vários posicionamentos importantes de pessoas de expressão nacional em suas respectivas áreas de atuação. Referimo-nos ao HBio, combustível “renovável” que vem sendo repetidamente anunciado como alternativa importante para a matriz energética nacional. Afora considerações técnicas que não caberiam a esta coluna, mesmo porque já foram competentemente abordadas por outros colegas neste mesmo veículo de comunicação, cremos interessante o registro das seguintes impressões: (a) a injeção de óleos vegetais na corrente de hidrotratamento do óleo diesel melhora as propriedades do produto final, mas não deixa de o caracterizar como diesel – portanto, este produto ainda estaria suscetível à Lei que exige a adição de biodiesel no diesel consumido no território nacional; (b) problemas de logística poderão ser definidores na viabilidade econômica do processo, cujos parâmetros de qualidade exige o emprego de óleos vegetais pré-refinados (senão refinados); (c) muitas das vantagens estratégicas do biodiesel não são atendidas pela opção pelo HBio, que perpetua a estrutura centralizadora hoje existente para a produção e distribuição de combustíveis diesel no país; e (d) o problema energético nacional não poderá ser resolvido por uma única alternativa tecnológica, implicando na necessidade de diversificação para atender à demanda e aos arranjos produtivos locais. Em conclusão, foi observado que o HBio não representa uma ameaça ao programa de produção e uso do biodiesel, a não ser que a vontade política hoje explicitamente concentrada no programa (de biodiesel) não venha a prevalecer como prioridade para o próximo governo.

Muitas outras considerações sobre o evento poderiam ser aqui apresentadas, mas, por uma questão de tempo e espaço, cremos extremamente importante reconhecer o fato de que o programa, com apoio da comunidade científica nacional, está muito preocupado com o desenvolvimento da cadeia produtiva do biodiesel como um todo. Assim, a qualidade das iniciativas registradas no evento permite antecipar profundas mudanças em um futuro relativamente próximo, certamente em direção a um programa maduro e de grande contribuição para a sociedade em todos os seus pilares fundamentais de sustentação: o tecnológico, o social, o ambiental e o econômico.

Luiz Pereira Ramos, UFPR. Colunista do site BiodieselBR.com, Bacharel e Licenciado em Química (1982) e Mestre em Bioquímica pela Universidade Federal do Paraná (1986), obteve o grau de Ph.D. sob a supervisão do Prof. Dr. J. N. Saddler na Universidade de Ottawa, Canadá, em 1992. Saiba mais sobre o autor.