Luiz Pereira Ramos

Congresso de mamona


Luiz Pereira Ramos - 06 ago 2008 - 12:26 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:07

O Congresso Brasileiro de Mamona, em sua terceira edição, teve início na noite do dia 4 em Salvador, BA, na presença de aproximadamente 500 participantes vindos de todo o Brasil e de parte da América Latina. Um evento de organização exemplar, focado em questões críticas para o setor como a promoção da ricinoquímica no país, o posicionamento da cultura frente ao mercado energético, o fortalecimento da agricultura familiar associada à ricinocultura e a busca por uma melhor distribuição de renda para o produtor rural.

A primeira conferência do evento foi proferida pela direção da Petrobras Biocombustível, cujo posicionamento e futura atuação no mercado têm gerado muitas expectativas em toda a cadeia de produção e uso do biodiesel. Sob a ótica de um mero expectador, aprendi que a empresa vê o programa nacional como fundamentado em uma política de preservação da segurança alimentar, baseada em fortes premissas de sustentabilidade ambiental e de inclusão social, paralelamente à autonomia energética. Como política institucional, foi enaltecida a necessidade de garantir o fornecimento de todo o biodiesel necessário para o plano de metas do programa nacional e que, tanto quanto possível, tal produção deverá ser descentralizada, respeitando vocações regionais, promovendo inovação em todas as etapas da cadeia produtiva e recusando a monocultura agrícola e tecnológica. Trata-se, indiscutivelmente, de um conjunto de grandes desafios, que naturalmente promoverá uma grande mobilização no setor.

Neste sentido, foi reiterado que a mamona continuará no centro das atividades da empresa, com o objetivo de corresponder a pelo menos 30% de seu consumo em oleaginosas. Possível? Creio que sim. Algumas barreiras ainda (e naturalmente) persistem, mas as tendências são muito positivas.

O óleo de mamona pode não ser a fonte ideal para B100, mas pode oferecer propriedades muito interessantes para o biodiesel, quando utilizado na proporção adequada em conjunto com outros óleos vegetais ou mesmo com o diesel propriamente dito. Há questões ainda a serem resolvidas, como a susceptibilidade destas blendas aos métodos oficiais de análise e certificação e o seu comportamento durante o processo de combustão. Também haverá a competição entre o mercado energético e a ricinoquímica por este óleo de propriedades tão especiais e, neste aspecto, não tenho a menor dúvida de quem poderá ser o melhor pagador, aquele que melhor remunerará o produtor rural.

Seja como for, o congresso seguirá pelos próximos dias com a missão de recuperar o setor de um aparente desestímulo, fruto da inserção de limites rígidos para a viscosidade do biodiesel na especificação nacional. Ora, o que foi feito não foi nada senão o correto, algo que já deveria ter sido feito há muito tempo. E a diferença, agora, reside apenas no fato de que não poderemos mais nos referir aos monoésteres alquílicos de mamona como biodiesel. Grande coisa para um insumo renovável cujo potencial em vários setores da indústria química é absolutamente insondável.

Luiz Pereira Ramos, UFPR. Saiba mais sobre o autor.
e-mail: [email protected]