Luiz Pereira Ramos

A Bolha de Glicerina


Luiz Pereira Ramos - 24 jun 2007 - 21:36 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23
Glicerina
Nestes últimos meses, os meios científicos, tanto quanto o setor publicitário, têm discorrido de forma exacerbada sobre as incertezas relacionadas à destinação da glicerina que vem se acumulando, em todo o mundo, como resultado das atividades industriais de produção de biodiesel.

Na verdade, desde os primórdios do programa nacional, e de toda e qualquer atividade que se tenha iniciado em todo o mundo com este objetivo, o aumento da oferta de glicerina tem preocupado desde os ambientalistas até as grandes unidades de processamento e/ou purificação deste importante componente de nossas atividades industriais. Aos ambientalistas, cabe uma preocupação particularmente importante e associada ao pequeno produtor que, desprovido de uma alternativa imediata para destinação de sua glicerina bruta, acaba “forçado” a despejá-la em águas superficiais, redes de saneamento público ou áreas de alta sensibilidade ambiental. Por outro lado, aos grandes produtores de glicerina da atualidade, cabe a preocupação quanto à queda das cotações internacionais do produto, já que o investimento de capital para a instalação de uma unidade industrial de grande porte é bastante expressivo.
{sidebar id=1}
Sem dúvida, esta nova realidade de mercado tem levado muitos à reconsideração sobre suas atividades empresariais e perspectivas de investimento, algo registrado através do fechamento de várias unidades de produção e/ou refino de glicerina mundo afora. Por outro lado, a comunidade científica (à exceção dos químicos) também me parece um pouco atordoada com a evolução macroeconômica do biodiesel, deixando-se amedrontar pelo tão propalado “tsunami de glicerina”, ou glycerin glut, como os americanos costumam se expressar. Mas, será que estamos a tratar de mais um “terrorismo da mídia”, ou deveríamos realmente nos preocupar com o cenário que hoje se desenvolve?

Para abordar este questionamento, é necessário avaliar (comparativa, porém, separadamente) os cenários nacional e internacional. No cenário internacional, os principais usos alternativos da glicerina estão relacionados à produção de epicloridrina e 1,2-propilenoglicol, cujos mercados giram em torno de 0,23 e 1,72 milhões de toneladas, respectivamente. O uso da glicerina para a produção industrial de epicloridrina, um importante insumo industrial para a produção de resinas epóxi, já foi anunciado por gigantes da indústria química mundial, como a Solvay e a Dow Epoxy, do grupo Dow Chemical. Por outro lado, há evidências de que empresas como Cargill, ADM, Huntsman, DuPont, Senergy e a própria Dow Chemical já iniciaram a construção de unidades industriais de grande porte para a produção de 1,2-propilenoglicol, que pode ser produzido por desidratação seguida por hidrogenação da glicerina. Sabe-se há muito que este poliol pode ser empregado como substituto do etilenoglicol em várias aplicações industriais; no entanto, pelo menos a priori, este 1,2-propilenoglicol de origem renovável (cujo mercado está em franca expansão) não deverá competir diretamente com o etilenoglicol, mesmo porque não haveria glicerina o suficiente para atender à grande demanda por este insumo (o mercado internacional de etilenoglicol é pelo menos 10 vezes maior que o de 1,2-propilenoglicol). No entanto, várias aplicações do etilenoglicol, particularmente a de seu uso como agente anti-congelante, vêm sendo questionadas e/ou proibidas pela legislação ambiental devido ao comportamento desta substância que, segundo relatos já comprovados cientificamente, incorpora-se facilmente aos lençóis freáticos e/ou reservatórios de água de onde dá origem a sérios problemas sócio-ambientais, já que é comprovadamente nociva à saúde humana.

Pois bem, admitindo-se a substituição do etilenoglicol nesta e noutras aplicações mais imediatas, estima-se que o mercado internacional de 1,2-propilenoglicol atinja algo em torno de 2 milhões de toneladas e, conforme avaliações realísticas das perspectivas de expansão mundial da produção e uso de biodiesel, toda a glicerina aparentemente excedente não atenderia nem sequer a metade da demanda futura de 1,2-propilenoglicol. De acordo com o Dr. Rusty Sutterlin, da Renewable Alternatives (MI, USA), o tamanho do suposto “tsunami” de glicerina gira em torno de 700 mil toneladas (estimativa total produção de glicerina bruta menos o consumo global de glicerina refinada), isto baseado no levantamento de toda a produção mundial (incluindo a glicerina derivada do biodiesel) e na atual demanda de mercado por este produto. Portanto, tão logo sejam inauguradas as novas unidades de produção de 1,2-propilenoglicol e epicloridrina a partir de glicerina, todo o excedente até hoje acumulado será rapidamente absorvido e não me surpreenderia se, em pouco tempo, o mercado deste produto passasse a ser profundamente deficitário. E tudo isto, meus caros leitores, apenas avaliando estes dois mercados, sem qualquer menção a quaisquer outras atividades que possam vir a se tornar viáveis em virtude da queda dos preços internacionais da glicerina.

Uma última e importante observação diz respeito à especificação da glicerina destinada à produção de 1,2-propilenoglicol: todas as empresas envolvidas nesta atividade reafirmam que os seus respectivos processos de produção absorvem glicerina bruta, diretamente oriunda da produção de biodiesel por métodos clássicos de transesterificação ou alcoólise. Portanto, o aproveitamento da glicerina oriunda do biodiesel não dependerá (ou não deverá depender) de uma longa e dispendiosa etapa de refino, algo que tenho reiterado como de fundamental importância para a viabilidade econômica do processo. Passando agora ao cenário nacional, é realmente indiscutível que a revelação de que o Brasil ainda não saiba o que fazer com a glicerina oriunda das plantas de biodiesel, como divulgou recentemente a Gazeta Mercantil (5 de junho de 2007). No entanto, isto não significa dizer que há qualquer imobilismo ou inércia por parte da comunidade científica. Neste sentido, uma primeira iniciativa, tomada no âmbito do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel, permitiu a aprovação de um projeto nacional para o desenvolvimento de alternativas relacionadas ao uso de co-produtos associados à cadeia produtiva de biodiesel. Mais de 10 instituições nacionais de pesquisa e desenvolvimento, e algumas poucas empresas intervenientes, encontram-se envolvidas em um projeto que tem atividades múltiplas nas áreas de energia (5 sub-projetos), materiais (4 sub-projetos) e química fina (5 sub-projetos), em sua maior parte focadas no aproveitamento e valorização da glicerina. Novas iniciativas como esta, que deverão ser oportunamente anunciadas pelo Governo Federal, serão indiscutivelmente necessárias para contemplar outras excelentes propostas tecnológicas existentes no país, oriundas de inúmeras instituições nacionais eventualmente não selecionadas na primeira etapa de financiamento.
 

"É importante que a iniciativa privada perceba a grande oportunidade que se vê imbuída nesta aparente “crise” do setor de biocombustíveis do país"


Portanto, já que as agências oficiais de financiamento à pesquisa jamais poderão atender a toda esta demanda, é importante que a iniciativa privada perceba a grande oportunidade que se vê imbuída nesta aparente “crise” do setor de biocombustíveis do país, buscando uma aproximação junto às instituições proponentes e uma avaliação criteriosa sobre a viabilidade destas diferentes propostas tecnológicas, hoje identificadas como alternativas para o uso de uma glicerina cada vez mais acessível ao mercado. O segredo deste processo, naturalmente, é o da agregação de valor, e os primeiros a se servirem deste momento certamente colherão os melhores frutos.

Agora, quanto à disponibilidade de glicerina para atender a todo este mercado em franca evolução, bem, prefiro atrelar-me ao conceito de que o mercado de energia é insondável, e que o aumento de produção de biodiesel dificilmente desacelerará até o momento em que uma nova forma de energia se faça tão imediatamente disponível a nós, consumidores, quanto o biodiesel atualmente o é. Portanto, a glicerina, que de sub-produto se viu recentemente elevada à condição de co-produto, poderá em pouco tempo ampliar a sua importância na viabilidade econômica do processo e reverter a situação, passando a figurar como a vedete do processo de alcoólise de óleos e gorduras. Quem viver, verá!

Luiz Pereira Ramos, UFPR. Saiba mais sobre o autor.

e-mail:
[email protected]
Tags: Glicerina