Luiz Pereira Ramos

99th AOCS Annual Meeting


Luiz Pereira Ramos - 23 mai 2008 - 10:27 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:06

Há pouco mais de um dia, foram encerrados os trabalhos da 99ª Reunião Anual da American Oil Chemists’Society, uma das melhores reuniões científicas de todo o mundo sobre oleoquímica e áreas afins. E neste fórum, a divisão técnica de maior interface com os leitores desta página é a de “Industrial Oil Products” (doravante IOP), que congrega atividades na área de usos alternativos de óleos vegetais e seus derivados, incluindo os biocombustíveis.

Durante três dias de evento (19 a 21 de maio), foram seis sessões técnicas em temas variados onde se discutiu o estado-da-arte da oleoquímica mundial, paralelamente a dezenas de outras sessões focadas em temas complementares, a maioria relacionada com a indústria alimentícia. A Divisão de IOP contou com a apresentação de cerca de dez trabalhos por sessão, a grande maioria de excelente qualidade técnica e grande relevância científica.

Naturalmente, abordar a diversidade destas palestras não é o objetivo desta coluna, mesmo porque isto não nos seria possível. Portanto, permitam-me comentar algo sobre o que considerei mais importante de todas as palestras que atendi.

Como todos sabemos, a cadeia de produção do biodiesel está pressionada pela falta de matéria-prima, fato que vem se agravando com os recentes debates sobre segurança alimentar, além do evidente aumento no custo da matéria-prima. Neste contexto, imagina-se que a produção de matéria-prima para a indústria do biodiesel dependa de uma grande disponibilidade de áreas agricultáveis, idealmente distantes de qualquer contato com regiões de alta sensibilidade ambiental e de grande biodiversidade. Percebam que até mesmo a tão propalada hegemonia do Brasil no mercado futuro de biocombustíveis depende desta importante vantagem estratégica. No entanto, não me parece de forma alguma que isto corresponda à realidade, em face dos últimos desenvolvimentos nas tecnologias de produção de materiais graxos pelo cultivo heterotrófico de algas e de microorganismos oleaginosos.

Na verdade, muitos têm sugerido que as algas oleaginosas realmente representam solução de grande impacto para o setor, mas que esta realidade somente seria atingida em dez a vinte anos. Pura ilusão! Empresas como a Solazyme têm demonstrado que o cultivo heterotrófico de algas já é uma realidade, e que trabalhos de engenharia metabólica, juntamente com a otimização dos meios de cultivo com fontes de carbono de baixo custo, já permitem a produção em larga escala de materiais graxos de alta qualidade, cujas propriedades combustíveis, fruto de sua composição ideal em ácidos graxos, não encontra nada equivalente dentre as inúmeras espécies vegetais hoje exploradas para a produção de biodiesel.

Por outro lado, embora ainda relativamente embrionário, o conceito de transformar estações de tratamento de esgotos e/ou efluentes industriais em biorrefinarias vem ganhando grandes proporções, fruto de resultados impressionantes sobre a quantidade e a qualidade dos materiais graxos produzidos por uma variedade de organismos, incluindo as próprias algas citadas acima. Seja nesta ou naquela opção, estamos prestes a testemunhar uma revolução sem precedentes na área de bioenergia, onde, finalmente, nossos vastos campos verdejantes poderão ser efetivamente reservados para a produção exclusiva de alimentos. Dá para imaginar o potencial de um microorganismo que seja capaz de produzir 60 a 80% de sua massa seca em óleos triglicerídicos de alta qualidade, crescendo em meios de cultura compostos por efluentes industriais, esgoto doméstico e hidrolisados ácidos de lixo orgânico municipal?

É, as coisas estão mudando muito rapidamente e só haverá perspectiva de sucesso futuro para quem puder antecipar as tendências atuais e adiantar-se ao tempo nas questões estratégias que dominarão o mercado de energias alternativas, à medida em que o petróleo segue numa escalada de preços nunca dantes imaginada. Oxalá não permaneçamos deitados em berço esplêndido, comodamente satisfeitos com a evidência de que nestas terras, plantando tudo dá. Em pouco tempo, países como o Japão, que não dispõe de áreas para cultivo, passarão a ser líderes nestas tecnologias inovadoras (na verdade, já são) e nós, satisfeitos com dádivas derramadas pela providência divina em nosso território, teremos que dispor de nossos recursos, desta vez financeiros, para licenciar tecnologias de ponta na área de bioenergia. Pelo que vi neste e em outros eventos, a comunidade científica brasileira está fazendo a sua parte, apesar de todos os pesares. Resta-nos, portanto, saber se haverá tempo hábil para reagirmos, e se nossos laboratórios, institutos de pesquisa e empresas nacionais estarão preparados para competir com o mundo moderno, altamente motivado por políticas públicas, incentivos fiscais e barreiras comerciais muito bem consolidadas.

Luiz Pereira Ramos, UFPR. Colunista do site BiodieselBR.com, Bacharel e Licenciado em Química (1982) e Mestre em Bioquímica pela Universidade Federal do Paraná (1986), obteve o grau de Ph.D. sob a supervisão do Prof. Dr. J. N. Saddler na Universidade de Ottawa, Canadá, em 1992. Saiba mais sobre o autor. 

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