Simoni Margareti Plentz Meneghetti

Sobre impacto ambiental e biodegradabilidade na área dos biocombustíveis


Simoni P. Meneghetti - 30 mai 2007 - 16:27 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

Hoje, mais do que nunca, o termo biodegradabilidade é largamente empregado sem que façamos uma real reflexão sobre o que representa.

Numa situação de equilíbrio, os sistemas biológicos (animais e plantas) não sintetizam materiais que não possam decompor (1). Vem daí o fato de que os biocombustíveis, que são oriundos de fontes naturais e renováveis (sistemas biológicos) serem considerados biodegradáveis e, por conseqüência, isentos da necessidade de nos preocuparmos com seu impacto ambiental. Isto será verdade?

Neste artigo discutirei o conceito de biodegradabilidade aplicado aos biocombustíveis, principalmente ao biodiesel, e questões envolvendo impacto ambiental.

Tecnicamente, a biodegradabilidade é a característica de algumas substâncias químicas poderem ser usadas como substratos por microorganismos, que as empregam para produzir energia e criar outras substâncias como aminoácidos, novos tecidos e novos organismos.

Sabe-se que, apesar dos produtos oriundos do setor agrícola serem conceituados como biodegradáveis, o seu uso e disposição tem representado um desafio para a sociedade nas últimas décadas!!!! E porque? Por que houve um dramático incremento das atividades industriais envolvendo biotecnologia e demais processos. Existe uma necessidade de encontrarmos demanda de utilização compatível com a oferta dos produtos e co-produtos neste setor.

Caso não resolvamos, como sociedade, a equação demanda-oferta, aí teremos um impacto ambiental indesejável que contradiz tudo que se divulga de ambientalmente correto para produtos oriundos dos sistemas biológicos!

E no caso do biodiesel, que impactos poderiam ser esses?

Inicialmente podemos citar os co-produtos (glicerol, torta, etc.), para os quais devemos ter uma disposição correta para evitar danos irreversíveis ao meio ambiente. Podemos imaginar uma situação na qual a disposição de glicerol num curso d’água venha a se transformar num desastre. Com certeza haveria alteração do ecossistema com, por exemplo, mortandade de peixes e plantas. E nesse caso o glicerol é um co-produto de indústrias baseadas em recursos renováveis e biodegradáveis...

E se tivéssemos um derramamento de biodiesel, fabricado com etanol, no solo ou água? Não teríamos impacto ambiental, por se tratar de um biocombustível renovável oriundo de sistemas biológicos?

É por isso que devemos repensar o nosso conceito de biodegradabilidade. Esse conceito obrigatoriamente está ligado à quantidade e escala de tempo.

Por que ligado á quantidade? Por que o ecossistema de um determinado rio pode nem sentir o impacto de 1 L de biodiesel ali jogado. Mas não teríamos conseqüências no caso de 50.000 L dispostos no mesmo curso d’água?

E por que ligado à escala de tempo? Por que precisamos saber quanto tempo uma determinada quantidade de material leva para se decompor em ecossistemas específicos (cada caso é diferente).

Existem informações de que o biodiesel se degrada, em condições comparáveis, 4 vezes mais rápido que o diesel fóssil (2). Mas que condições são essas ? Quais os ecossistemas envolvidos? Um rio, um terreno? Seria irresponsabilidade nossa, como sociedade, admitirmos e repetirmos cegamente a frase “o biodiesel é biodegradável” sem levar em conta as reflexões expostas acima, principalmente no que tange à quantidades, escala de tempo e tipo de ecossistema.

Aqui, mais uma vez repito o que já escrevi em colunas anteriores: existe uma constante e crescente necessidade de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação nesta área, para que os profissionais capacitados possam estudar e fornecer respostas aos desafios, inseridas na realidade do nosso país.

Simoni P. Meneghetti. Saiba mais sobre a autora.

E-mail: smpm@qui.ufal.br

(1) Rex Montgomery, Development of biobased products, Bioresource Technology 91 (2204) 1-29
(2) Manual do Biodiesel (BiodieselBR: Gerhard Knothe, Jon Van Gerpen, Jurgen Krahl, Luiz Pereira Ramos), 1ª edição 2006


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