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Miguel Angelo

Porque o biodiesel faz bem para a balança comercial do Brasil


Miguel Angelo Vedana - BiodieselBR - 13 fev 2012 - 08:34 - Última atualização em: 07 mar 2012 - 18:38

Semana passada uma história que é contada há alguns anos veio à tona novamente e incomodou. A edição 48 do excelente Boletim Mensal dos Combustíveis Renováveis feito pelo Departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério de Minas e Energia (MME), disse que o biodiesel reduziu a importação de diesel no Brasil, mas que o volume de óleo de soja que se deixou de exportar fez com que a balança comercial desses dois produtos fosse desfavorável para o Brasil.

Segundo os dados apresentados pelo MME, a produção de biodiesel gerou um saldo negativo para nossa balança comercial de cerca de 3,2 bilhões de reais desde 2005, ano em que o biodiesel começou a ser produzido nas terras tupiniquins.

O que incomoda é que a conta apresentada é parcial (como mostrou o jornalista da BiodieselBR Fábio Rodrigues em texto após a publicação do boletim) e vem num período de discussão sobre a criação de um novo marco legal. Nesse momento todos os envolvidos devem estar preocupados em apresentar dados próximos do real e não o contrário.

Como acredito que a intenção do MME foi provocar o setor de biodiesel, já que não é normal eles apresentarem dados sem embasamento, vou aceitar a provocação. Nos parágrafos abaixo apresento a conta que acredito ser a que melhor reflete os ganhos e perdas reais na balança comercial brasileira desde a introdução do uso de biodiesel no país.

Estabelecendo os princípios
Calcular o quanto o país deixou de gastar com a importação de diesel é fácil, nesse número ninguém diverge. Basta pegar quanto se produziu de biodiesel e multiplicar pelo valor pago pelo diesel importado em cada mês. O resultado dessa conta mostra que Brasil economizou US$ 5,29 bilhões desde 2005 nas importações de diesel graças à produção de biodiesel.

O problema começa quando temos que calcular quanto deixamos de exportar em razão do uso do óleo de soja na produção de biodiesel.  O MME usou como premissa que todo o biodiesel produzido foi feito com óleo de soja e que todo esse óleo seria exportado. A primeira premissa está errada. Dos 8,06 bilhões de litros produzidos até novembro de 2011, apenas 6,54 bilhões usaram o óleo de soja como matéria-prima. O restante foi produzido com sebo, óleo de algodão e várias outras matérias-primas com importância quase insignificante. No total foram usados aproximadamente seis milhões de toneladas de óleo de soja para produzir biodiesel desde 2005, e não 7,4 como apontou o MME. O número real é menor que 6 milhões de toneladas, pois em 2007 parte do biodiesel produzido foi feito com sebo animal, mas como não há dados oficiais sobre o porcentual usado, consideramos que todo a produção de biodiesel antes de 2008 foi feita com óleo de soja.

A segunda premissa usada foi que todo o óleo de soja usado para fazer biodiesel seria exportado. Talvez a intenção fosse dizer que “se o Brasil tivesse exportado todo o óleo usado para biodiesel, a perda na balança comercial seria de “X” bilhões de dólares”. Aliás, o valor correto de X nessa presunção é de 6,53 bilhões de dólares e não 8,5 bilhões.

Vender todo o óleo usado na produção de biodiesel para o exterior é impossível na prática, apesar de teoricamente possível. Os dados de exportação do complexo sojanos últimos anos mostram que não é isso que acontece quando temos um excedente na produção de soja. Em 2005 produzimos 52,3 milhões de toneladas de soja, consumimos 12,7 milhões de toneladas internamente e exportamos 22,4 milhões de toneladas de soja em grão. Em 2011 foram produzidos 75,3 milhões de toneladas, consumimos 26 milhões de toneladas internamente e a exportação em grão foi de 33,2 milhões de toneladas. No mesmo período o total de exportações do complexo soja (grão, farelo e óleo) tem oscilado entre 75% para 65% do total de soja produzido. Isso mostra que mesmo com aumento da produção, o porcentual exportado se mantém nessa mesma faixa. Esses dados indicam claramente que o consumo interno e a exportação de grão aumentam de acordo com a produção de soja.

Se houvesse demanda externa para os dois bilhões de litros de óleo que o setor de biodiesel consumiu em 2011, veríamos um crescimento nas exportações de óleo de soja ao longo dos anos. Contudo, a exportação de óleo de soja está parada perto de 1,6 milhão de toneladas há quatro anos. Quem estiver pensando que pode estar faltando capacidade de esmagamento para exportarmos óleo de soja está enganado. O último dado disponível no site da Abiove mostra que em 2010 havia uma capacidade de esmagamento diária de 176.834 toneladas por dia. Multiplicando por 330 dias temos uma capacidade anual de 58,3 milhões de toneladas de soja. Na safra 2010/2011 foram esmagadas apenas 35,7 milhões de toneladas, o que representa uma ocupação de 61% da capacidade instalada. Resumindo, temos soja e esmagadoras suficientes para exportar muito mais óleo de soja e não o fazemos por culpa do incentivo federal a exportação do grão e não por causa da produção de biodiesel.

Do lado oposto, argumentar o uso do óleo de soja na produção de biodiesel não causa nenhum impacto nas exportações é igualmente errado. É óbvio que impacta. O problema é como mensurar esse impacto. É possível fazer uma série de cálculos diferentes para descobrir o impacto do biodiesel nas exportações de soja, mas há um que considero o mais razoável tendo em vista a condição atual do mercado de soja.

Para estabelecer a primeira premissa desse cálculo, precisamos imaginar como seria o mercado de soja sem o biodiesel. Não precisamos entrar na complexa questão do preço da soja, apenas imaginemos o que seria feito com os 31,6 milhões de toneladas de soja que foram esmagadas para que seu óleo virasse biodiesel. Quem defende o biodiesel cegamente vai querer convencer que ela seria inteiramente consumida internamente e que por isso o impacto é zero nas exportações. Já aqueles que querem colocar pedras no caminho desse biocombustível vão bater o pé e dizer que toda essa soja sairia na forma de óleo. São duas visões radicais defendidas por pessoas bastante respeitáveis.

Mas existe um meio termo entre essas duas visões que se baseia no que já acontece no mercado de soja. Como vimos acima o mercado tem mantido as exportações e consumo interno dentro de um patamar. Assim, se o biodiesel não utilizasse a soja que hoje tem que ser esmagada para virar biodiesel, ela seria proporcionalmente dividida entre consumo interno, exportação de grão, de farelo e óleo. Portanto, das 9,6 mi/ton. usadas até novembro de 2011 para fazer biodiesel, 4,23 mi/ton. seriam exportadas em forma de grão, 1,85 mi/ton. em forma de farelo, 204 mil/ton. em forma de óleo e o restante seria consumido internamente.

Na tabela abaixo vemos o destino que teria a soja usada na produção de biodiesel em cada ano:



A segunda premissa diz respeito à quanto do preço do grão não exportado deve entrar na conta do biodiesel. O volume de soja que seria exportado em forma de grão não pode ser calculado como se fosse óleo. Se fosse feito teríamos uma perda de receita maior que a receita real, já que o óleo e o farelo somados valem mais que a soja em grão. Também não podemos considerar o preço do grão proporcional ao peso do óleo – 19% do preço da tonelada do grão –, pois a venda do farelo – 81% do peso – traria uma receita proporcionalmente menor que a obtida com a venda da soja em grão.

A solução é considerar o valor de exportação da soja em grão diminuído de quanto se obteria com a exportação do farelo resultante do esmagamento do biodiesel, para então termos a receita perdida com a produção de biodiesel de óleo de soja. Exemplificando. A receita de 1000 toneladas de soja que seriam exportadas em grão em novembro de 2011 e tiveram seu óleo usado na produção de biodiesel seria de 449,1 mil dólares. Como o óleo foi usado, só poderão ser exportadas 810 toneladas de farelo. A exportação desse farelo daria uma receita de 261,45 mil dólares. Dessa forma descobrimos que a produção de biodiesel dessas mil toneladas representou uma perda de arrecadação de 187,65 mil dólares (U$ 449,1 menos U$261,45).

Essa conta está muito mais próxima da perda de receita real com a exportação que aquela que considera que todo o óleo seria exportado, já que considera um cenário muito mais factível e se limita ao valor que seria exportado e não o que poderia ser.

O resultado
Estabelecidos essas premissas e cenários, calculamos mês a mês as receitas ganhas e perdidas desde o início da produção de biodiesel em março de 2005 até novembro de 2011, levando em conta as cotações mensais de cada um dos produtos. O resultado é o número mais próximo ao impacto real do biodiesel na balança comercial já divulgado até hoje:
+ R$ 4.085.805.565,75

Em razão da produção de biodiesel, o Brasil economizou mais de 4 bilhões de reais nos últimos 7 anos. Somente depois da implantação do B5 a economia foi de R$ 2,5 bilhões. Veja quanto foi a economia em cada ano em dólares e em reais:



Cabe ressaltar que em 2011 os dados foram calculados até novembro e é certo que o valor chegará próximo dos 1,5 bilhão de reais quando todos os dados daquele ano estiverem disponíveis.

Analisando os números é possível ver que quanto maior o uso de biodiesel, maior a economia de divisas. Cada litro de biodiesel produzido no Brasil até novembro representou, em média, uma economia na balança comercial de 49 centavos. Essa economia deve ser adicionada a cesta de externalidades positivas do biodiesel, como a geração de empregos, redução da poluição, ajuda a agricultura familiar, fortalecimento da agricultura, etc.

A tabela completa com todos os detalhes mês a mês para chegar nesses números está disponível aqui.

Lições aprendidas
Esses cálculos são um belo exemplo de como agir para resolver os problemas do setor. Por ser um mercado extremamente novo, existem muitas bases para serem estabelecidas. Nem o governo e nem as usinas tinham se aprofundado nas contas sobre os efeitos do biodiesel na balança comercial. O governo acreditava que o resultado era ruim para o biodiesel a o setor produtivo tinha receito de descobrir que o governo estava certo. Feito os cálculos, vemos que a indústria de biodiesel deixou de usar um argumento extremamente favorável a sua causa, simplesmente por não fazer as contas.

Fica claro que o biodiesel tem uma série de razões a seu favor para crescer e que não é preciso inventar fatos, distorcer números ou omitir dados para convencer quem quer que seja. O biodiesel está cheio de números a seu favor para serem descobertos. Esses números, quando feitos de maneira correta e apresentados por instituições isentas, tem uma força de convencimento muito maior.

Com o fim desse mito, é preciso sair a caça de outros. Imaginem como seria excelente se descobríssemos agora o aumento da mistura de biodiesel teria um efeito indireto mínimo na inflação.

Miguel Angelo Vedana é diretor-executivo da BiodieselBR e faz parte do conselho editorial da revista BiodieselBR.


Observações:
- Os preços da soja (grão, farelo e óleo) e o volume de exportações desses produtos usados nesse texto são os informados no site da Abiove.
- A produção anual de soja foi coletada do site da Conab.
- O percentual de uso de matérias-primas na produção de biodiesel e o valor do do metro cúbico do diesel foi calculado com base nos valores gastos e volumes importados de diesel disponíveis no site da ANP