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Por que o leilão eletrônico é bom para o setor de biodiesel


Miguel Angelo Vedana - BiodieselBR.com - 23 fev 2010 - 14:12 - Última atualização em: 07 mar 2012 - 18:45

Toda mudança gera resistência. Essa frase de efeito, muito usada em palestras motivacionais de eficácia duvidosa, reflete o momento vivido pelas usinas de biodiesel. A grande maioria das empresas produtoras está descontente com a volta do sistema eletrônico no comércio de biodiesel.

O argumento base para toda a repulsa das usinas de biodiesel ao sistema eletrônico é o mau resultado do 6º e 7º leilões de biodiesel da ANP. Nesses leilões o biocombustível foi vendido por um preço muito ruim, e a situação se agravou com o aumento na cotação do óleo de soja. O resultado foi uma inadimplência recorde no período da obrigatoriedade e um buraco no caixa das usinas. A solução encontrada para esse problema foi o conhecido leilão presencial, com a limitação de duas rodadas de lances.

Com essa medida, o setor que tinha acabado de surgir teve seu impulso de vender a qualquer custo limitado. A fórmula foi um sucesso e trouxe lucro e estabilidade para as usinas, que construíram mais unidades e ampliaram as que já existiam.

Já que a fórmula foi vitoriosa, a pergunta é: por que mudar? Antes de responder é preciso antes entender qual o futuro do setor e onde o mercado de biodiesel quer chegar.

O destino será um mercado livre, sem leilões ou qualquer outra interferência do governo na comercialização do biodiesel. Acredito inclusive que as usinas que atualmente são contra o leilão eletrônico concordam com isso. O consenso também se forma quando falamos em novas misturas, já que o B5 não é o limite e percentuais mais elevados são almejados por todo o setor.

Portanto, com a perspectiva de mercado livre e a necessidade de se trabalhar por “Bs” maiores, o leilão eletrônico se configura um ótimo sistema para garantir uma transição mais suave para o comércio sem leilões, facilitando o aumento da mistura de diesel. Essa mudança na sistemática proporcionada pelo MME buscou também construir as bases para a transição, acelerando a implantação de um possível cronograma para o B10 ou B20.

Velocidade
O mercado livre de biodiesel não pode acontecer de uma hora para a outra. É preciso que as usinas e distribuidoras estejam preparadas para isso, pois é um modelo bem diferente do atual. E as usinas e as distribuidoras precisam estar prontas para negociar entre si (e a ANP para garantir a mistura). O pregão eletrônico vai justamente ajudar nesse aprendizado. Com a nova sistemática, as usinas terão de saber qual é o valor mínimo de venda do biodiesel para não ter prejuízo. E esse know-how será levado para a livre comercialização.

É claro que algumas usinas podem acabar ficando de fora e não vendendo nem um litro de biodiesel. Mas esse é um processo natural, pois em qualquer setor é preciso ser competitivo para se manter. Se não houver competitividade real, o setor se nivela pelos preços mais altos e oferece sobrevida às usinas que não têm condição nenhuma de participar do livre mercado de biodiesel.

A consequência evidente da competitividade é a queda nos preços. Por ser muito bom para o consumidor de diesel, o preço mais baixo do biodiesel acaba sendo bom no longo prazo para as usinas. Hoje uma das razões pela qual não se aumenta a mistura de biodiesel é o seu valor, acima do preço do diesel. Para cada aumento percentual nessa mistura, temos um diesel alguns centavos mais caro para o consumidor. Quanto mais próximo o preço do biodiesel ficar do preço do diesel, menor o impacto para os consumidores e menor a resistência em se aumentar o percentual da mistura, tanto da parte do governo quanto dos consumidores.

Dessa forma, o leilão eletrônico de biodiesel iniciaria a pavimentação do mercado livre de biodiesel e a construção de metas de evolução da mistura de biodiesel.

Por que agora
Além de temerem preços excessivamente baixos, algumas usinas sugeriram que o leilão eletrônico acontecesse mais tarde. Se pudesse, sugeriria que o leilão eletrônico tivesse começado já no leilão de 16 de novembro de 2009, pois foi quando tivemos a menor relação de oferta e demanda da história dos leilões no período da obrigatoriedade. Se o 16º leilão tivesse sido realizado de forma eletrônica, ele dificilmente teria repetido o resultado dos leilões 6 e 7, e forneceria uma boa experiência da nova sistemática para as usinas. Esse leilão de agora não terá nenhum novo participante, e a oferta maior se dará apenas pela ampliação das usinas, o que oferece uma relação de oferta e demanda próxima à do leilão passado. Se o sistema eletrônico fosse adiado e implantado no leilão de maio, por exemplo, teríamos uma oferta anual de pelo menos 1 bilhão de litros a mais. Essa capacidade maior somada ao nervosismo da reestreia do leilão eletrônico pode não ter um resultado satisfatório.

Deságio
O valor de referência estipulado pela ANP foi bem generoso. O preço do soja caiu muito desde o último leilão e a previsão é cair ainda mais nos meses de entrega do 17º leilão, mas a agência se limitou a reduzir em apenas cinco centavos o preço máximo em relação ao leilão anterior. Isso significa que um deságio de pouco mais de 10% no preço de referência não será ruim para as usinas. Há usinas que podem vender biodiesel a R$ 1,75 e ainda assim lucrar, graças à isenção de ICMS.

As pequenas
Essa sistemática de leilão realmente é prejudicial para as pequenas usinas. Como o volume total do leilão foi dividido em vários itens com volumes entre 50 mil e 20 milhões de litros e as usinas só podem comprar a integralidade dos lotes, elas ficam limitadas a participar dos itens que são menores que sua capacidade.

A solução para esse problema seria permitir que as usinas comprassem volumes parciais dos itens. Na sistemática atual, uma usina que pode comprar no máximo 1 milhão de litros fica impedida de participar de um lote de 5 milhões, por exemplo. Já se a compra parcial fosse permitida e essa usina vencesse o lote, ela ficaria com 1 milhão de litros e a segunda colocada com 4 milhões. Nesse caso, a usina não teria a opção de oferecer parte de seu volume; ela seria obrigada a vender tudo o que pode caso vencesse um lote maior que sua capacidade.

Essa fórmula garantiria a isonomia e aumentaria a competitividade, que é o objetivo do MME.

Miguel Angelo Vedana - BiodieselBR.com

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