Miguel Angelo

Cenários e projeções para o 14º Leilão de Biodiesel


Miguel Angelo Vedana - 27 mai 2009 - 17:58 - Última atualização em: 07 mar 2012 - 18:50

Na próxima sexta-feira a ANP realizará o 14º leilão de biodiesel para a compra de 460 milhões de litros de biodiesel. Como acontece em todo o leilão de biodiesel, há muito interesse sobre qual será a estratégia das usinas, quanto cada uma irá vender e qual será o preço médio do biodiesel. Estas dúvidas só deixam de existir quando o leilão acaba, mas antes é possível projetar alguns cenários para imaginar o resultado final do leilão que definirá todo o mercado ao longo do terceiro trimestre.

Por Miguel Angelo Vedana

Panorama geral

Hoje existem 40 usinas que preenchem todos os requisitos para participar do 14º leilão e juntas somam capacidade anual de 3,56 bilhões de litros por ano. Mas como o limite de venda nos leilões é de 80% da capacidade trimestral das usinas, o máximo de biodiesel que poderá ser ofertado neste leilão é de 711,8 milhões de litros (80% dos 889,8 milhões de litros).

Desse volume apenas 52 milhões de litros são de usinas sem o selo social, os outros 659,8 milhões de litros são das usinas com selo social. Ou seja, a disputa acontece mesmo entre as usinas que ‘apóiam’ a agricultura familiar.

Com esses números podemos fazer uma primeira projeção. Como o leilão irá comprar 460 milhões de litros de biodiesel e a capacidade total das usinas no trimestre é de 889,8 milhões de litros, se todas as usinas vendessem proporcionalmente a mesma quantia de biodiesel, cada uma delas ocuparia 51,7% de sua capacidade trimestral. Ter 50% de utilização da usina não é o sonho de nenhum empresário, mas também não chega a ser nenhum pesadelo.

É claro que essa venda igualitária não acontecerá. As usinas tem estratégias e necessidades diferentes e por isso para algumas vender 50% é mais do que elas almejam, já para outras a mesma quantia seria considerado uma derrota.

Cabe aqui uma observação. Se não fosse aprovado o B4 e o leilão continuasse adquirindo o volume de 340 milhões de litros, as usinas poderiam vender igualmente apenas 37,18% de sua capacidade, e o leilão passaria a ser um desastre para o setor, com dezenas de empresas paradas no trimestre.

Projetando o deságio

Como a oferta está fortemente concentrada nas usinas que possuem o selo social, é o primeiro lote que dita o tom do leilão. E assim que são divulgados os preços da primeira rodada do primeiro lote já é possível ter uma idéia de como será o leilão. Se muitas ofertas não se classificaram para a segunda rodada, é certo que as usinas lutarão com mais afinco para garantir que seus lotes classificados consigam ser vendidos. Por outro lado, se houver poucos lotes não classificados as usinas ficam mais tranqüilas e baixam menos os seus preços.

Seguindo essa lógica, vamos analisar os leilões anteriores. No 8º leilão, exclusivo para as empresas com o selo, a oferta total de biodiesel foi de 473 milhões de litros. Com isso 27,44% do total ofertado ultrapassou o limite de 30% que se classifica para a segunda fase (foram comprados 264 milhões de litros de biodiesel e se classificavam para a próxima fase ofertas até o limite de 343,2 milhões de litros). Nesse leilão o deságio foi de 4%.

No 10º leilão, também só para usinas com o selo, a oferta foi de 347 milhões de litros, apenas 1,1% acima do volume de classificação para a segunda fase. Com a menor oferta, o deságio foi de 0,59%. No 12º leilão a oferta no primeiro lote, igualmente restrito às usinas com selo, foi de 336,3 milhões de litros. Esse volume sequer atingiu o limite de 30% acima do volume que foi comprado, de 264 milhões de litros e o deságio foi o menor já registrado, 0,51%.

No 13º leilão a ANP diminuiu o volume comprado de biodiesel e destinou apenas 252 milhões de litros para as usinas com o selo social. A oferta no entanto, foi a maior desde que iniciou-se a sistemática de leilões presenciais, 504,4 milhões de litros. Esse volume excedeu o limite de entrada para a segunda fase do leilão em 35,05% e foi determinante no deságio de 5,87%.

A lei de oferta e demanda tem funcionado perfeitamente nesses leilões. Quanto maior a proporção de oferta em relação a demanda, maior é o deságio, e quando essa proporção diminui, o deságio é menor. Se o 14º leilão seguir essa lógica, podemos fazer a projeção de quanto será o deságio médio.

O volume de biodiesel máximo que pode ser ofertado pelas usinas com selo social é de 659,8 milhões de litros. Contudo, analisando detalhadamente as unidades, o volume que será efetivamente ofertado deve ficar em torno de 575 milhões de litros. A demanda de biodiesel exclusiva para as usinas com selo é de 368 milhões de litros, o que permitirá que ofertas até 478,4 milhões de litros passem para a segunda rodada. Com esses números é possível dizer que 16,8% do volume total ofertado não passará para a segunda fase.

Vejamos o resumo do cenário projetado na tabela abaixo:

Leilão

Volume comprado

Volume 1ª rodada

Volume ofertado

Volume excedente 1ª rodada

Deságio

264

343,2

473

27,44%

4%

10º

264

343,2

347

1,1%

0,59%

12º

264

343,2

336,3

0%

0,51%

13º

252

327,6

504,4

35,05%

5,87%

14º

368

478,4

575*

16,8%*

???

* Projeção

Se o próximo leilão seguir o padrão, o deságio será menor que 4%, algo entre 2,75% e 3,25%, o que daria um preço médio em torno de R$ 2,29. Isso com relação ao primeiro lote. O segundo deve ter um deságio um pouco maior. Mas é obvio que nesses casos a matemática não se aplica. Se as usinas estiverem mais ávidas por vender tudo o que podem, o deságio certamente será maior.

Apostas

Depois acompanhar de perto os leilões, é possível estabelecer um padrão de comportamento de certas usinas e com isso especular quanto cada usina vai vender.

Atenção! Os valores abaixo refletem minha opinião pessoal e podem se mostrar completamente errados. Por isso leia com moderação e fique a vontade para discordar deixando seu comentário ao final do texto.

ADM

Deve vender tudo o que pode. Depois do erro no cálculo do leilão passado a empresa deve voltar a vender o limite de 80% permitido no leilão. A usina da ADM está com a capacidade de ampliação autorizada, mas ainda sem autorização para operação e comercialização. É possível que esta autorização saia até o dia do leilão (sexta-feira), o que aumentaria seu limite de venda de 49,1 milhões de litros para 68,76 milhões de litros.

Biocapital

Apesar de poder vender 54,82 milhões de litros, a Biocapital nunca vendeu mais que 26,5 milhões de litros no trimestre. Em razão do aumento para o B4 acredito que ela irá vender 33 milhões de litros.

BSBios

Com sua capacidade ampliada, a empresa deve estar motivada a utilizar toda a capacidade da usina. Mas não faz loucuras. No histórico leilão seis e sete da ANP, quando muitas usinas preferiram vender no prejuízo para conquistar mercado, a BSBios optou pelo contrário, o que acabou se mostrando um melhor negócio. Deve vender entre 28 e 31 milhões de litros.

Caramuru

A empresa tem condições de preço e matéria-prima para vender até o limite de 80%, contudo, não costuma adotar estratégias agressivas. Devem vender entre 30 e 33 milhões de litros.

Granol

Está será a empresa que mais vai vender no leilão. Suas usinas podem vender 105 milhões de litros, mas suas vendas não devem passar de 80 milhões de litros de biodiesel.

Oleoplan

No último leilão a empresa teve uma estratégia mais agressiva e sagrou-se a maior vendedora de biodiesel. Neste leilão a minha aposta é que vendam 45 milhões de litros.

Petrobras

Essa é pule de dez. Alguém duvida que a Petrobras vá vender os 80% permitido de suas três usinas? São os 33,84 milhões de litros com destino mais certo nesse leilão.

Brasil Ecodiesel

Essa é difícil. Mesmo com capacidade para vender nos leilões até 144,7 milhões de litros a Ecodiesel vendeu 42 milhões de litros no 12º leilão e 42,2 milhões de litros no 13º leilão. Contudo a empresa vem produzindo uma quantidade de biodiesel ainda menor. No primeiro trimestre a produção da empresa foi de 17,6 milhões de litros enquanto seus compromissos firmados no leilão eram de 42 milhões de litros. Para o 14º leilão eu vejo 3 alternativas: Na primeira a empresa resolve vender 25 milhões de litros, que seria condizente com o que ela vem produzindo. Na segunda, ela mantém o volume dos últimos dois leilões e vende 42 milhões de litros. Na terceira alternativa (que eu considero mais provável), a empresa resolve vender 60 milhões de litros de biodiesel, mesmo sabendo que será difícil produzir. Esse volume seria um pouco acima do aumento de 33% registrado com a vinda do B4 e um excelente número para apresentar para os investidores. A empresa poderia dizer que não só acompanhou o crescimento do B4, como ganhou mercado. Essa seria a pior alternativa para o setor, caso a Ecodiesel mantenha sua baixa produção.

Tabela Interativa

Todas as informações da tabela abaixo podem ser filtradas para que apareçam apenas os dados que lhe interessam, facilitando as projeções de participação de cada unidade no 13º leilão.

As colunas informam respectivamente: nome da usina, Estado, região, capacidade de produção anual, trimestral e 80% da capacidade trimestral (que é o máximo que as usinas podem vender no leilão), autorização da ANP para comercialização, detentora do selo social, autorização da receita federal e por fim o volume arrematado em cada um dos últimos oito leilões.


1 Todos os valores estão em milhões de litros
2 80% é o volume máximo que a usina pode arrematar no leilão 13
3 Quantidade vendida pela unidade no respectivo leilão anterior


Miguel Angelo Vedana é diretor executivo da BiodieselBR

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