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Um Continente Produtor De Biodiesel

Praticamente todos os países da América, se não do mundo, estão buscando desenvolver programas de produção de biodiesel. Estes países são concorrentes ou parceiros do Brasil?
Liv Soares Severino 3 min de leitura
Praticamente todos os países da América, se não do mundo, estão buscando desenvolver programas de produção de biodiesel. Estes países são concorrentes ou parceiros do Brasil?

Algumas estimativas econômicas não podem ser muito precisas, porque envolvem muitas variáveis, mas acredita-se que quando o petróleo ultrapassou a barreira de US$ 60,00 rompeu-se a barreira que tornou os óleos vegetais viáveis como alternativa para combustível. Faz vários meses que o preço do petróleo está oscilando acima desse patamar e é apenas uma questão de tempo para que se fortaleça a migração do consumo de óleos vegetais do setor alimentício para o setor energético.

Esta mudança tem potencial para modificar significativamente o cenário do mercado de alimentos, pois as cotações desses produtos, que antes eram ditadas pela oferta nos países produtores comparada à demanda mundial, agora fica totalmente dependente da cotação do petróleo que obedece a regras bem distintas - e mais complexas. As análises feitas com a média histórica de preço dos óleos vegetais devem considerar esta provável mudança no futuro próximo.

Considerando o Brasil como um importante produtor de óleos vegetais para atender a este mercado limitado,  poderia se considerar a entrada de novos países produtores de óleo como uma ameaça, pois todos disputariam um mesmo mercado. No entanto, se é verdade que estamos inaugurando um novo cenário, o mercado de óleo com fins energéticos é praticamente ilimitado e nesta condição os outros países devem ser tratados como parceiros e não como concorrentes.

Talvez nem mesmo os países produtores de petróleo vejam o biodiesel como uma ameaça, pois quando os preços do petróleo sobem, há grande pressão mundial para que aumentem a produção, mas se houver um combustível alternativo que acomode os preços num patamar elevado, mais vale vender um barril a US$ 100,00 que dois barris a US$ 50,00, obtendo-se a mesma receita.

O Brasil tem planos de se tornar um importante fornecedor mundial de biocombustíveis. Quanto ao etanol, esse objetivo já está se tornando realidade, mas para o biodiesel ainda há um longo caminho.

No futuro, o Brasil terá muito mais peso no comércio mundial de biocombustíveis, se ao invés de um país produtor de biodiesel, existir um continente produtor de biodiesel. O Brasil sozinho seria uma Arábia Saudita do biodiesel, enquanto um conjunto de países formariam um Oriente Médio dos biocombustíveis. Há uma grande diferença entre os dois cenários. Um país isoladamente dificilmente poderia oferecer a segurança de suprimento necessária para que os consumidores passem a utilizar determinado combustível, pois só haveria um fornecedor que estaria sujeito a desastres naturais, crises econômicas e políticas, cartelização dos fabricantes e diversas outras fontes de instabilidade. Enquanto se diversos países dividirem o papel de fornecedores, o produto se torna uma commodity mundial e os consumidores terão maior confiança.

Comparado com outros países, o Brasil está muito bem posicionado para se tornar este importante produtor de biodiesel, pois além de dispor de grandes extensões de terras agricultáveis, fator que não pode ser alcançado por outros países, dispõe de boa tecnologia de produção agrícola de diversas culturas, boa tecnologia industrial de produção de biodiesel, institutos de pesquisa e desenvolvimento atuantes e bem estruturados e, principalmente, um grande mercado consumidor para biocombustíveis que possibilitará o crescimento gradual de uma forte estrutura de produção agrícola e industrial.

Liv Soares Severino, é engenheiro agrônomo pela Universidade Federal do Ceará, mestre em fitotecnia pela Universidade Federal de Viçosa, pesquisador em sistemas de produção na Embrapa.
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