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O duplo desafio brasileiro

Praticamente toda a tecnologia mundial para fabricação de biodiesel está baseada no uso de metanol como catalisador e dos óleos de canola, soja ou palma como matéria prima. O Brasil, no entanto, lançou-se num desafio de produzir biodiesel por um caminho duplamente mais difícil, utilizando etanol e óleo de mamona. Será mais difícil, mas a recompensa também poderá ser maior.
Liv Soares Severino 4 min de leitura
Praticamente toda a tecnologia mundial para fabricação de biodiesel está baseada no uso de metanol como catalisador e dos óleos de canola, soja ou palma como matéria prima. O Brasil, no entanto, lançou-se num desafio de produzir biodiesel por um caminho duplamente mais difícil, utilizando etanol e óleo de mamona. Será mais difícil, mas a recompensa também poderá ser maior.

Esta decisão estratégica brasileira é constantemente criticada, tanto por brasileiros quanto por estrangeiros, pois poderíamos caminhar pelo trajeto mais fácil e simples de aproveitar a tecnologia que já está disponível, ao invés de perder tempo fazendo desenvolvimento tecnológico de uma rota muito mais difícil, mais cara e fora do padrão internacional. Porém, se o Brasil está se propondo a ser líder no mercado de biocombustíveis, não pode ficar restrito ao caminho mais cômodo, mas sim, assumir a responsabilidade de abrir novos horizontes e partir na frente.

A opção pelo etanol em lugar do metanol é facilmente justificada por sermos grandes produtores deste insumo e por este ser renovável (o que permite fazer o marketing de um produto 100% renovável), diferente do metanol que também é derivado do petróleo. Atualmente, o metanol é também mais barato que o etanol, mas estes preços podem mudar rapidamente puxado pelo aumento da demanda ou do preço do petróleo. E ainda, o metanol é importado e o etanol é nacional. Ao que tudo indica fazer biodiesel pela rota etílica, é difícil mas possível, dependendo apenas de um pouco de investimento em pesquisa e desenvolvimento.

A opção pela mamona é ainda mais criticada, porque além de ser muito mais difícil fazer biodiesel com óleo de rícino, esse produto tem valor mais alto quando vendido para a indústria química que para fazer combustível. Quando se faz uma análise de curto prazo, a mamona realmente não deveria estar entre as opções de matéria prima para biodiesel, mas em médio prazo pode-se compreender o porquê dessa opção.

Inicialmente, o óleo de mamona não é mais caro na indústria química porque sua produção agrícola é mais cara, mas porque seu mercado é muito pequeno, inelástico e instável. Entre os óleos vegetais produzidos no mundo, a mamona é insignificante, representando algo em torno de 0,35%. Na média histórica, seu preço beira os US 1.000, mas oscila entre mínimas próximas a US 500 e máximas superiores a US 2.000. O nível tecnológico adotado para o cultivo de mamona é incomparavelmente mais baixo que aquele empregado para a produção das culturas de soja, canola e palma, por exemplo, e a enorme flutuação de preço afasta qualquer agricultor que queira utilizar um pouco mais de tecnologia, pois os riscos seriam impraticáveis.

O que se deve entender sobre a mamona é que havendo um pouco de estabilidade nos preços e melhoria no nível tecnológico, seu óleo pode ser produzido a preço equivalente ao de outros óleos vegetais, inclusive óleo de dendê e de soja.

Sobre as restrições tecnológicas para a fabricação de biodiesel, o óleo de mamona possui características especiais (uma hidroxila ligada à cadeia de carbono) que lhe faz especial para a indústria química, mas um estorvo para fabricação de biodiesel, dificultando a transesterificação e purificação, e ainda alterando propriedades fundamentais do combustível, como viscosidade e densidade. Jamais houve interesse de qualquer país do mundo em fazer biodiesel de óleo de mamona e por isso o Brasil está desenvolvendo essa tecnologia sozinho, sem poder se apoiar em resultados e avanços internacionais obtidos para soja, canola e palma. Mas os resultados obtidos até agora, embora confirmem que o óleo de mamona é mais complicado, mostram que é possível fazê-lo.

Nenhuma matéria prima é perfeita para biodiesel, pois cada uma tem suas limitações. Por essa razão, uma das grandes apostas do biodiesel, principalmente no Brasil, é trabalhar com misturas de biodiesel de diferentes origens em busca de equilíbrio ente suas propriedades. Partindo da premissa que teremos tecnologia para produzir biodiesel de mamona, poderemos fazer do limão uma limonada, pois algumas de suas propriedades poderão ser extremamente valiosas numa mistura, como a altíssima lubricidade (que compensa a perda de lubricidade do diesel com baixo teor de enxofre) e baixíssimo ponto de congelamento, algo em tono de 15ºC negativos, o que é uma enorme vantagem em locais frios, como a região Sul, mas também Europa e Estados Unidos.

Liv Soares Severino é pesquisador da Embrapa e colunista do site BiodieselBR.com
E-mail: liv@cnpa.embrapa.br
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