Não apenas apitando na porta de um país chamado Brasil, como estendendo um tapete vermelho e praticamente nos forçando a embarcar na composição. A dúvida é se conseguiremos embarcar. Esta imagem resultou das apresentações e discussões que ocorreram durante a Conferencia Internacional de Agroenergia, realizada de 11 a 13 de dezembro, em Londrina, PR. Está ficando cada vez mais claro como o mundo inteiro se move em direção às energias renováveis, onde se inclui o portfólio da agroenergia.
Especificamente em relação ao biodiesel e ao etanol, os números apresentados durante a Conferencia são altamente animadoras, e projetam um mercado fortemente comprador, até a década de 20. Não que o mercado se extinga nesta década – os estudos disponíveis analisaram apenas os próximos 20 anos.
Nesta fase de construção do mercado de biodiesel, nota-se, com clareza, quatro grandes vertentes mercadológicas:
1 – O mercado das políticas mandatórias, que cria uma reserva equivalente ao percentual de adição do biodiesel ao óleo diesel. No Brasil, este mercado é estimado em 800 milhões de litros para 2008 e de 2,2 bilhões para 2013. No mundo, mais de 70 países exararam legislação impondo a mistura compulsória de biodiesel ao diesel e outros o farão nos próximos anos.
2 – O mercado corporativo, em que as empresas buscam um ganho de imagem pelo uso de um combustível verde, vem ganhando espaço crescente, apesar do preço mais alto do biodiesel.
3 – O mercado concorrencial, em que as distribuidoras oferecem o produto além das imposições das políticas mandatórias.
4 – O mercado de auto-abastecimento, em que produtores rurais ou frotistas produzem seu próprio biodiesel.
É difícil estimar o tamanho real do mercado potencial de biodiesel, para os próximos anos. A variável diretriz mais importante será a reação da opinião pública às mudanças climáticas globais e o suporte às corporações que investirem em combustíveis menos poluentes, como o biodiesel e o etanol.
Pelo andar da carruagem, ao menos nos países desenvolvidos, este suporte será muito grande. Sei que a amostra é pequena, porém um fato chamou minha atenção em um workshop do qual participei, em Amsterdam. Um diretor de uma empresa distribuidora de energia relatou que a sua empresa havia colocado no seu site na Internet a opção para que o consumidor final decidisse o “mix” de fontes de energia elétrica que pretendia receber. O consumidor ingressava com seu número de conta de energia e deslizava uma chave em que poderia escolher qualquer valor entre 100% de energia produzida a partir de óleo diesel ou 100% de energia de biomassa. Resultado: em pouco mais de 30 dias foi obrigado a retirar a opção do seu site, pois não havia mais oferta de geradoras de energia elétrica que utilizassem biomassa.
Este pequeno exemplo indica a importância que o consumidor, que também é um cidadão, confere à necessidade de produzir energias limpas. Outro exemplo vem dos postos de biodiesel B100, que se multiplicam pela Alemanha, com um mercado claramente comprador.
No caso das políticas mandatórias, estudos mostram que, somente entre os países grandes consumidores de óleo diesel, há uma estimativa de demanda superior a 33 bilhões de litros, já para o início da próxima década. Apenas a UE demandará entre 13 e 14 bilhões de litros. Quando é projetada a demanda para o início da década de 20, verifica-se que a demanda de óleo vegetal precisará crescer cerca de 160%, para atender o crescimento da demanda do mercado nutricional e o mercado cativo de biodiesel, proveniente da mistura compulsória.
Aí vem a questão: onde produzir? A resposta é intuitiva e fica cada vez mais clara. Nos próximos 5 anos, esgota-se a área do Hemisfério Norte, em especial da UE e dos EUA. China, Índia, Japão e outros grandes consumidores de energia já não têm área para expansão. Os grandes produtores de dendê, como Malásia, Tailândia e Indonésia, atingirão seu limite de expansão na próxima década. Não se pode contar com a Austrália e a África ainda tem um longo caminho pela frente até tornar-se um ambiente favorável a grandes negócios. A Argentina esgota sua área de expansão nos próximos 20 anos, o Paraguai antes disto. A Bolívia não receberá investimentos internacionais para expandir sua produção, nos próximos 15 anos, até que a imagem negativa de agressão ao patrimônio privado e descumprimento de contratos desapareça.
Sobra um grande país chamado Brasil. Que tem área para expandir nos próximos 50 anos, tem sol, água, agricultores, empresários e tecnologia. Mas que precisa resolver alguns problemas, antes de embarcar na locomotiva. Entre eles os seguintes:
1. Reduzir a tremenda carga tributária sobre os investimentos produtivos;
2. Reduzir a excessiva taxa de juros;
3. Disponibilizar crédito no volume e momentos adequados e em modelos compatíveis com o risco e com a maturação dos empreendimentos;
4. Adequar a taxa de câmbio, evitando a sobrevalorização do real, que desestimula a produção para exportação;
5. Garantir a segurança patrimonial da propriedade privada e a consistência do arcabouço jurídico;
6. Dispor de uma política industrial e de exportação que permita agregar valor aos produtos no próprio país;
7. Incentivar a formação de mão de obra especializada;
8. Suportar a pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias, para que o país sempre esteja na fronteira do conhecimento, em condições de competir com vantagens sobre os concorrentes.
Cumprida a lição de casa, é só embarcar na locomotiva, que nos espera com dezenas de bilhões de dólares em negócios na área de agroenergia, gerando milhões de empregos no interior do país, aumentando a renda e provocando melhor distribuição da mesma, oferecendo oportunidades aos jovens, consequentemente reduzindo os índices de criminalidade do país.
E então, o Brasil vai embarcar nesta locomotiva? Só depende de nossas autoridades e lideranças.
Décio Luiz Gazzoni é Engenheiro Agrônomo, membro do Painel Científico Internacional de Energias Renováveis da Academia Internacional de Ciências.
Especificamente em relação ao biodiesel e ao etanol, os números apresentados durante a Conferencia são altamente animadoras, e projetam um mercado fortemente comprador, até a década de 20. Não que o mercado se extinga nesta década – os estudos disponíveis analisaram apenas os próximos 20 anos.
Nesta fase de construção do mercado de biodiesel, nota-se, com clareza, quatro grandes vertentes mercadológicas:
1 – O mercado das políticas mandatórias, que cria uma reserva equivalente ao percentual de adição do biodiesel ao óleo diesel. No Brasil, este mercado é estimado em 800 milhões de litros para 2008 e de 2,2 bilhões para 2013. No mundo, mais de 70 países exararam legislação impondo a mistura compulsória de biodiesel ao diesel e outros o farão nos próximos anos.
2 – O mercado corporativo, em que as empresas buscam um ganho de imagem pelo uso de um combustível verde, vem ganhando espaço crescente, apesar do preço mais alto do biodiesel.
3 – O mercado concorrencial, em que as distribuidoras oferecem o produto além das imposições das políticas mandatórias.
4 – O mercado de auto-abastecimento, em que produtores rurais ou frotistas produzem seu próprio biodiesel.
É difícil estimar o tamanho real do mercado potencial de biodiesel, para os próximos anos. A variável diretriz mais importante será a reação da opinião pública às mudanças climáticas globais e o suporte às corporações que investirem em combustíveis menos poluentes, como o biodiesel e o etanol.
Pelo andar da carruagem, ao menos nos países desenvolvidos, este suporte será muito grande. Sei que a amostra é pequena, porém um fato chamou minha atenção em um workshop do qual participei, em Amsterdam. Um diretor de uma empresa distribuidora de energia relatou que a sua empresa havia colocado no seu site na Internet a opção para que o consumidor final decidisse o “mix” de fontes de energia elétrica que pretendia receber. O consumidor ingressava com seu número de conta de energia e deslizava uma chave em que poderia escolher qualquer valor entre 100% de energia produzida a partir de óleo diesel ou 100% de energia de biomassa. Resultado: em pouco mais de 30 dias foi obrigado a retirar a opção do seu site, pois não havia mais oferta de geradoras de energia elétrica que utilizassem biomassa.
Este pequeno exemplo indica a importância que o consumidor, que também é um cidadão, confere à necessidade de produzir energias limpas. Outro exemplo vem dos postos de biodiesel B100, que se multiplicam pela Alemanha, com um mercado claramente comprador.
No caso das políticas mandatórias, estudos mostram que, somente entre os países grandes consumidores de óleo diesel, há uma estimativa de demanda superior a 33 bilhões de litros, já para o início da próxima década. Apenas a UE demandará entre 13 e 14 bilhões de litros. Quando é projetada a demanda para o início da década de 20, verifica-se que a demanda de óleo vegetal precisará crescer cerca de 160%, para atender o crescimento da demanda do mercado nutricional e o mercado cativo de biodiesel, proveniente da mistura compulsória.
Aí vem a questão: onde produzir? A resposta é intuitiva e fica cada vez mais clara. Nos próximos 5 anos, esgota-se a área do Hemisfério Norte, em especial da UE e dos EUA. China, Índia, Japão e outros grandes consumidores de energia já não têm área para expansão. Os grandes produtores de dendê, como Malásia, Tailândia e Indonésia, atingirão seu limite de expansão na próxima década. Não se pode contar com a Austrália e a África ainda tem um longo caminho pela frente até tornar-se um ambiente favorável a grandes negócios. A Argentina esgota sua área de expansão nos próximos 20 anos, o Paraguai antes disto. A Bolívia não receberá investimentos internacionais para expandir sua produção, nos próximos 15 anos, até que a imagem negativa de agressão ao patrimônio privado e descumprimento de contratos desapareça.
Sobra um grande país chamado Brasil. Que tem área para expandir nos próximos 50 anos, tem sol, água, agricultores, empresários e tecnologia. Mas que precisa resolver alguns problemas, antes de embarcar na locomotiva. Entre eles os seguintes:
1. Reduzir a tremenda carga tributária sobre os investimentos produtivos;
2. Reduzir a excessiva taxa de juros;
3. Disponibilizar crédito no volume e momentos adequados e em modelos compatíveis com o risco e com a maturação dos empreendimentos;
4. Adequar a taxa de câmbio, evitando a sobrevalorização do real, que desestimula a produção para exportação;
5. Garantir a segurança patrimonial da propriedade privada e a consistência do arcabouço jurídico;
6. Dispor de uma política industrial e de exportação que permita agregar valor aos produtos no próprio país;
7. Incentivar a formação de mão de obra especializada;
8. Suportar a pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias, para que o país sempre esteja na fronteira do conhecimento, em condições de competir com vantagens sobre os concorrentes.
Cumprida a lição de casa, é só embarcar na locomotiva, que nos espera com dezenas de bilhões de dólares em negócios na área de agroenergia, gerando milhões de empregos no interior do país, aumentando a renda e provocando melhor distribuição da mesma, oferecendo oportunidades aos jovens, consequentemente reduzindo os índices de criminalidade do país.
E então, o Brasil vai embarcar nesta locomotiva? Só depende de nossas autoridades e lideranças.
Décio Luiz Gazzoni é Engenheiro Agrônomo, membro do Painel Científico Internacional de Energias Renováveis da Academia Internacional de Ciências.
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