Em seu artigo, o pesquisador Décio Gazzoni, fala sobre as crescentes críticas que os biocombustíveis vêm recebendo por seus impactos ambientais.
Décio Gazzoni ··6 min de leitura
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As organizações ambientalistas, e mesmo alguns membros da comunidade científica, têm sido mais exigentes e duros em suas críticas quando se trata de energia renovável, comparativamente às fontes fósseis. Qualquer balanço isento dos impactos ambientais sempre favorecerá as fontes renováveis, embora devamos reconhecer que existem alguns impactos ambientais negativos causados por elas. Esses, porém, são obnubilados pelas vantagens da substituição de fontes fósseis, com grandes impactos negativos no ambiente.
As organizações ambientalistas, e mesmo alguns membros da comunidade científica, têm sido mais exigentes e duros em suas críticas quando se trata de energia renovável, comparativamente às fontes fósseis. Qualquer balanço isento dos impactos ambientais sempre favorecerá as fontes renováveis, embora devamos reconhecer que existem alguns impactos ambientais negativos causados por elas. Esses, porém, são obnubilados pelas vantagens da substituição de fontes fósseis, com grandes impactos negativos no ambiente.
Entrementes, o exposto acima não deve servir como motivo para descuidarmos dos estudos e das críticas que apontam externalidades negativas dos biocombustíveis. Críticas relevadas podem avolumar-se e colocar em risco um grande negócio que, a princípio, deveria primar pela sustentabilidade, como é o caso dos biocombustíveis.
Óleo de palma Vamos a um exemplo concreto. Nos últimos anos, a produção de óleo de palma tem estado no foco de críticas potentes de ambientalistas, preocupados com o desmatamento nos trópicos, para dar lugar a novas plantações de palam de óleo.
Na Indonésia, o desmatamento para a produção de óleo de palma colocou em perigo diversas espécies, das quais os orangotangos e os tigres são os ícones principais. Agora há um novo motivo para se preocupar com o impacto ambiental do óleo de palma, de acordo com um estudo dos pesquisadores da Universidade do Colorado, Boulder.
Uma análise publicada por Taylor e colaboradores na revista Nature Climate Change mostra que as águas residuais produzidas durante o processamento de óleo de palma são uma fonte significativa de metano, um potente gás de efeito estufa (GEE), que retém o calor na atmosfera. O potencial de impacto ambiental é muito alto e, seguramente, motivará críticas e discussões acirradas, no futuro próximo.
Impactos O metano borbulhando de uma única lagoa de águas residuais de uma planta de processamento de óleo de palma, durante um ano, equivale às emissões de 22 mil veículos de passageiros rodando nos Estados Unidos, segundo a análise. Para 2014, o metano emitido das águas residuais de óleo de palma devem representar 30% de todas as emissões de combustíveis fósseis da Indonésia.
O problema não é exclusivamente do setor de energia, sendo os impactos negativos transversais a todos os usuários de óleo de palma. A sua demanda global disparou nos últimos anos, especialmente catapultada e pela indústria de cosméticos e pela indústria alimentícia, por ser uma alternativa para outras fontes lipídicas, com alto teor de gorduras trans.
Até o momento, a pegada de carbono do corte de florestas para dar lugar a plantações de palma tem escamoteado o problema das emissões de gases de efeito estufa provenientes das lagoas de águas residuais. Mas, enquanto o desmatamento deverá abrandar-se conforme os países do sudeste asiático movem-se rumo a uma agricultura mais intensiva e sustentável, aproveitando as plantações já existentes, as emissões de lagoas de águas residuais serão proporcionais ao aumento do processamento do óleo de palma.
Solução No entanto, o impacto do despejo de metano na atmosfera poderá ser facilmente mitigado, se o gás for capturado e usado para abastecer de energia as usinas de processamento de óleo – ou colocado no grid elétrico. A tecnologia de produção de biogás tem sido utilizada com sucesso por décadas, em inúmeros países, e pode produzir energia renovável a um custo competitivo, comparativamente a outras fontes.
Partindo da estimativa da quantidade de metano produzido nas águas residuais de óleo de palma da Malásia, em 2013, os autores da análise calculam que teria sido possível suprir 25% das necessidades de eletricidade do país, usando-se esta fonte. Seu aproveitamento para fins energéticos é um típico processo de ganha-ganha, em termos de sustentabilidade, considerando as vertentes sociais, ambientais e financeiras.
A captura e utilização do metano em lagoas de águas residuais poderão ser incentivados, tornando-os um requisito para certificação da sustentabilidade ambiental dos produtos de óleo de palma. É importante que o Brasil atente para as discussões e desdobramentos deste tema, pois o óleo de palma e as microalgas constituem fontes altamente promissoras para produção de biocombustíveis, como o biodiesel e a bioquerosene, em nosso país.
Greenpeace Em comunicado liberado no final de fevereiro deste ano, a organização de ativistas ambientais Greenpeace acusou a multinacional Procter & Gamble de “destruidora da floresta tropical da Indonésia”. A empresa utiliza óleo de palma da Indonésia em seus produtos como os xampus “Head & Shoulders” e “Pantene” e o gel de barbear “Gillette”.
Em resposta às acusações, o site da Procter & Gamble diz que a empresa está "comprometida com crescimento de nossos negócios de forma responsável" e que havia implantado scorecards de sustentabilidade para os fornecedores de óleo de palma.
Chamo a atenção para este caso, porque a Procter & Gamble é apenas o episódio mais recente da campanha acirrada do Greenpeace, que pretende constranger as principais empresas que adquirem óleo de palma e papel da Indonésia, cujos fornecedores são acusados de causar destruição ambiental. A campanha do Greenpeace já teve como alvo outras empresas globais, incluindo Unilever, Nestlé e L'Oreal, as quais são publicamente compelidas a se comprometerem com o desmatamento zero. Os resultados começam a aparecer, pois muitas empresas de óleo de palma e de papel, como a Asia Pulp & Paper, assumiram metas de proteção ambiental, depois de perder grandes clientes por causa de campanhas do Greenpeace.
De alguma maneira o “carimbo” de insustentabilidade do óleo de palma também já atingiu o setor de biodiesel, afetando as exportações da Malásia e Indonésia para a Europa. Que estes fatos nos sirvam de alerta, pois como o negócio de biocombustíveis repousa sobre o compromisso de um produto mais sustentável que os alternativos, qualquer desvio de conduta dos atores da cadeia será muito menos aceitável que eventos similares, ou mesmo mais intensos, associados aos concorrentes fósseis, posto que estes já poluem há mais de um século, e nunca prometeram não fazê-lo.
Décio Gazzoni é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja