Décio Luiz Gazzoni

O conflito entre alimentos e energia


Décio Luiz Gazzoni - 24 set 2007 - 12:11 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

Este não é um tema simples de ser abordado. É necessário analisar ao menos três grandes vertentes. Uma delas é a geografia, ou seja, o conflito pode se manifestar na Europa, nos EUA, mas não ser verdadeiro no Brasil ou no Congo. O segundo é a cultura da qual estamos falando pois o conflito pode existir em cereais mas nunca se manifestar na cana-de-açúcar. O terceiro é o aspecto temporal: o conflito pode não ser perceptível hoje, porém pode ser fonte de múltiplas atribulações na década de 20. Permeando toda a discussão, existem outros parâmetros que são fundamentais e devem ser levados em consideração, como o crescimento populacional, o aumento da renda per cápita, a mudança de hábitos alimentares e as mudanças climáticas globais.

O Brasil

Se fosse possível isolar o Brasil do restante do mundo, esquecendo que existe um mercado globalizado, aqui produziríamos alimento e energia em quantidade suficiente, mesmo no ano 2100, quando seríamos algo como 260 milhões de brasileiros. Com menos de 100 milhões de hectares produziríamos grãos, frutas, hortaliças, etanol, biodiesel e tudo o mais o que precisássemos em termos de alimentos e energia. Ocorre que é impossível imaginar o Brasil à margem do mundo globalizado. Ao contrário, o mundo põe olhos gulosos na capacidade produtiva do Brasil, seja na área alimentar ou energética. Logo, podemos imaginar que o Brasil pode vir a enfrentar conflitos entre a produção de alimentos e de energia, em torno da metade do século.

Biodiesel ou óleo comestível?

Em termos de cultivos, a cana-de-açúcar possui uma capacidade produtiva muito elevada, o que limita a possibilidade de conflitos, ao menos no médio prazo. O mesmo não se pode dizer das oleaginosas em geral. Do ponto de vista agronômico, é muito mais fácil produzir carboidratos que óleo, inclusive sob o aspecto do balanço energético. O mercado já se apercebeu deste detalhe e com pequenas contas do tipo quanto óleo se produz hoje, qual é a demanda prevista de biodiesel em 15 anos e qual a capacidade de resposta do mundo para produzir oleaginosas, precificou o futuro. É só olhar as estatísticas que mostram que, nos últimos 12 meses, a cotação média dos óleos vegetais no mercado internacional subiu 50%.

    Esta não é uma boa notícia para o setor produtivo de biodiesel, pois a maior parte dos planos de negócios foi efetuada com cotação de óleos vegetais ao redor de US$500,00 e agora o mercado opera acima dos US$820,00. Isto significa que o programa brasileiro de biodiesel vai fracassar? Não acredito, o custo em si será absorvido pelo mercado consumidor, uma vez que a adição de 2% de biodiesel no óleo diesel significa um acréscimo de custo apenas marginal. Vamos aos números: se, por hipótese, o custo de produção do biodiesel explodir, de maneira que um litro de biodiesel custe o dobro do valor de um litro de diesel, o acréscimo de preço ao  consumidor final, para uma mistura B2, seria de apenas 2%. O Governo dispõe de inúmeros instrumentos, inclusive a CIDE, para evitar o repasse deste valor ao consumidor.

O tempo

    Entretanto, conforme avançarmos no tempo, o aumento das cotações dos produtos agrícolas, devido ao conflito entre produzir alimentos e produzir energia, pode tornar-se sério a ponto de comprometer as políticas públicas de substituição de energia fóssil por biocombustíveis. E isto não apenas no Brasil, mas em diferentes países do mundo. É óbvio que, em países de menor renda per cápita, o conflito se instala primeiro, devido à capacidade de pagamento da população e o limite financeiro para aquisição de alimentos ou energia. Entretanto, no longo prazo, este conflito também se instalaria em países ricos.

    Do meu ponto de vista, a Ciência encontrará solução para este conflito, seja por aumento da produtividade agrícola, pela viabilização de novas culturas com maior densidade energética, ou pela viabilização de novas fontes de energia. Entretanto, até que este conflito seja adequadamente equacionado, vamos conviver com aumento das cotações agrícolas.

Examinando o último quarto de século, verificamos uma queda linear das cotações dos produtos agrícolas no mercado internacional. Em 1980, o índice de uma cesta de produtos agrícolas era de 180, foi de 120 em 1990, caiu para 80 em 2000 e situou-se em 50 no ano passado. Este ano, com a subida das cotações agrícolas deve evoluir para 75, iniciando um período de recuperação das cotações agrícolas previsto para os próximos anos. Esta reversão das cotações tem como base os programas de agroenergia e o aumento da renda per capta no mundo.

    Diversos institutos estão buscando antecipar a curva de evolução das cotações agrícolas, utilizando complexos modelos matemáticos. Na tabela 1, apresentamos um estudo efetuado pelo IFPRI (Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares), que estabelece três cenários para 2020 e uma antecipação para 2010. Verifica-se que, em qualquer dos cenários, há um aumento da cotação dos produtos agrícolas. Entretanto, o aumento é maior quando o investimento em tecnologia agrícola é menor. Esta é a grande chave que a sociedade mundial dispõe para mitigar o conflito entre energia e alimentos, no curto e médio prazos.

Tabela 1. Evolução dos preços das commodities agrícolas, em função de diferentes cenários de demanda de agroenergia e de patamar tecnológico
 

Crescimento agressivo de bicombustíveis, sem mudança de patamar tecnológico

Introdução comercial do etanol celulósico

Crescimento e mudança de patamar tecnológico

 

2010

2020

2020

2020

Mandioca

33

135

89

54

Milho

20

41

29

23

Oleaginosas

26

76

45

43

Beterraba

7

25

14

10

cana-de-açúcar

26

66

49

43

Trigo

11

30

21

16


Décio Luiz Gazzoni é engenheiro agrônomo, membro Painel Cientifico Internacional de Energias Renováveis do Conselho Internacional de Ciências.
Tags: Alimento