Décio Luiz Gazzoni

Agroenergia e o mercado de óleos e proteínas


Décio Luiz Gazzoni - 20 set 2006 - 11:12 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

Escrevo de Veneza, a cidade dos Dodges. Aproveitei para voltar à Piazza de San Marco, para rechecar uma informação, com fins estritamente profissionais: desde a última vez que aqui estive, teria subido o nível da água em Veneza, ameaçando submergir um dos patrimônios da Humanidade?

Este é um dos exemplos que usarei em uma conferencia para cerca de 300 empresários, de diferentes países, ligados ao comércio internacional de produtos agrícolas. Foi me pedido para traçar um panorama do impacto da agronergia no agronegócio, nos próximos anos. E, do meu ponto de vista, um dos principais “drivers” da escalada acentuada da produção e uso de biocombustíveis está no tema ambiental.

A queima de combustíveis fósseis está provocando mudanças dramáticas no clima ao redor do mundo. Os eventos extremos estão aumentando a sua freqüência e tornando-se cada vez mais severos. Falo de ondas de frio ou de calor intensos, de furacões e tempestades, de nevascas. E falo de degelo dos pólos da Terra e de neves eternas, que já contavam com milhares de anos de existência, e estão desaparecendo em menos de 5 anos.

Degelo
Nos últimos 25 anos, cerca de 20% do gelo do Pólo Norte desapareceu. É só conferir em www.nasa.gov. A água não está desaparecendo, ela está indo para os oceanos. No século XX, o nível dos oceanos subiu cerca de 20 cm. A previsão dos cientistas é de que continuem subindo 1cm por ano, ao longo do século XXI. Com um metro a mais, não apenas a Veneza italiana desaparece, mas a Veneza brasileira – Recife – sofrerá enorme impacto em sua área urbana. De Copacabana até a Barra, também haverá impacto negativo. Para não falar da Holanda, cujos diques não suportarão a elevação dos mares.

Biocombustíveis
Muito do estrago já está contratado, pelas bilhões de toneladas de poluentes jogados na atmosfera, por conta da queima de combustíveis fósseis - e nada pode ser feito para revertê-lo. O mundo está acordando para a necessidade de mitigar os danos futuros, reduzindo a dependência de fontes energéticas de carbono fóssil. O último baluarte da resistência ruiu em janeiro passado, quando o Presidente Bush admitiu que os EUA são viciados em petróleo e que a situação é insustentável.

Mais uma vez a agricultura é chamada para dar a sua contribuição e o resumo da minha mensagem aos empresários será: até a metade deste século, a agricultura de energia movimentará o maior volume de recursos do agronegócio, muito mais do que a produção de fibras ou alimentos.

Biodiesel
Ao contrário do etanol, que está com meio caminho andado, a indústria do biodiesel ainda é embrionária no mundo, sendo difícil antecipar com a precisão necessária, os impactos sobre o mercado. Entretanto, é possível avançar em alguns exercícios.

O primeiro deles é o aumento da capacidade instalada no mundo, que hoje é de 5 milhões de toneladas e cuja projeção para 2007 ultrapassa 15 milhões de toneladas. A Europa ainda será responsável por parcela ponderável do aumento, porém países como Brasil, EUA, China e Índia já trilham o mesmo caminho.

O segundo é decorrência, ou seja, quanto de biodiesel será produzido. Diversos países ou regiões estão impondo metas de incorporação de biodiesel em sua matriz energética. No caso da Europa, será obrigatória a mistura de 5,75% no diesel, até 2010. No Brasil será de 5%, em 2013. Com isto, prevê-se uma explosão na indústria e comércio de biodiesel, que deve alcançar mais de 34 milhões de toneladas, sendo um terço apenas nos EUA. Para 2020, a previsão é de 140 milhões de toneladas.

Óleo e proteína
Em 2006, o mundo deverá produzir 143 milhões de toneladas de óleo e 220 milhões de toneladas de farelo protéico. Admitindo a previsão acima, o mundo deverá produzir, em 2020, mais óleo apenas para a indústria de biodiesel, do que produz hoje, para todos os usos.

Considerando a soja como paradigma do mercado, para cada litro de óleo produzido, obtém-se 4 kg de farelo. A expansão da produção de óleo não poderá ocorrer, exclusivamente, por conta da cultura de soja, porque inundaria o mercado de farelo. No inicio, haveria o benefício da redução de custos da produção de suínos, aves e gado confinado. Porém, será impossível absorver esta produção extra, em apenas 15 anos.
Logo, um duplo movimento deverá ocorrer. O primeiro é a mudança rápida do perfil da indústria nutricional, aproveitando a proteína vegetal para gerar novos produtos alimentícios. Paralelamente, outros produtos não alimentares (bio-produtos) serão elaborados a partir das tortas. O segundo movimento será a busca por oleaginosas com maior teor de óleo e com maior capacidade de produção de biomassa, para restaurar o equilíbrio do mercado em um novo patamar.

Décio Luiz Gazzoni
é Engenheiro Agrônomo e colunista BiodieselBR. e-mail: dgazzoni@cnpso.embrapa.br

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