convidado

Em defesa do biodiesel e dos biocombustíveis


Álvaro Barreto - 03 out 2007 - 17:44 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

A respeito da notícia “Óleo de canola gera mais gases estufa que combustível tradicional”, veiculada pela agência de notícias EFE e publicada no portal BiodieselBR.com no dia 24 de setembro, creio ser pertinente fazer algumas considerações e esclarecimentos. O texto afirma no primeiro parágrafo que o óleo de canola, matéria-prima usada para fabricação de biodiesel na Europa,
gera mais gases causadores do efeito estufa do que os combustíveis fósseis tradicionais. A afirmação seria de um estudo do qual participaram cientistas de vários países.

É importante saber se nesses estudos foram considerados os gases causadores do efeito estufa gerados na extração do petróleo e na obtenção de seus derivados, de modo a estabelecer uma comparação justa e precisa. Até por que quando o petróleo foi adotado não existia a preocupação ambiental e até hoje há muita dificuldade em obter dados sobre o ciclo de vida do petróleo e seus derivados.

Do segundo ao quinto parágrafo são feitas considerações pontuais sobre os óxidos de nitrogênio. As afirmações não levam em conta vantagens dos biocombustíveis, como captação do dióxido de carbono, as reduções de monóxido de carbono e óxidos de enxofre – que saturam o ar da Europa e dos EUA – e de  hidrocarbonetos e material particulado, que é o grande vilão nas emissões dos motores diesel por provocarem doenças pulmonares na população. Essas reduções são proporcionais ao percentual de biodiesel na mistura com o óleo diesel, conforme detectado no trabalho realizado pelo Laboratório de Combustíveis e Lubrificantes do Instituto Nacional de Tecnologia.

As ligeiras elevações no teor de NOx observadas são decorrentes da manutenção da regulagem original para admissão do ar de combustão. Como o biodiesel possui átomos de oxigênio na sua composição, poderiam ser testadas pequenas reduções no excesso de ar, as quais promoveriam diminuições nos teores de NOx.
 

 "As discussões sobre o assunto poderão revelar vantagens adicionais às conhecidas, como a redução da emissão de óxidos de enxofre para a atmosfera
e a captação do CO2"


Nas avaliações dos impactos ambientais é fundamental que seja feita a comparação ampla dos efeitos da cadeia produtiva e da utilização do combustível tradicional e do respectivo biocombustível substituto. Desta forma, as discussões sobre o assunto poderão revelar vantagens adicionais às conhecidas, como a redução da emissão de óxidos de enxofre para a atmosfera
e a captação do CO2 para compor a estrutura celulósica, tanto da cana-de-açúcar como dos diferentes tipos de oleaginosas nacionais cultivadas para a produção do biodiesel.

No entanto, a meu ver, as críticas ao aspecto ambiental dos biocombustíveis servem como sinalização para corrigir erros cometidos no Pró-álcool e para demonstrar que na implantação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel devem ser consideradas as estratégias e otimizações técnicas, econômicas e ambientais, de modo a  não deixar dúvidas sobre a viabilidade
deste programa e sejam obtidas as vantagens sociais pretendidas.

Alimento e energia

O sexto parágrafo induz à competividade entre as produções de alimentos e de biocombustíveis para tornar ainda mais preocupante à inclusão deles na matriz energética. No entanto, se considerarmos, por exemplo, os dois maiores produtores mundiais de soja – Brasil e EUA – , observa-se que os mercados internos consumidores de óleo para fins alimentícios já estão saturados e, por este motivo, exportam a maior parte de suas produções. 

Presume-se que a criação de novos mercados de óleo para produção de biodiesel induzirá a implantação de novas indústrias de extração e conseqüentemente promoverá aumento da oferta do farelo resultante, o qual representa cerca de 82% da semente da soja. Esta elevação significativa de insumo para ração animal viabilizaria a passagem da agropecuária extensiva para intensiva de criação dos animais em confino ou semi-confino. Assim extensas áreas de pasto serão liberadas para a produção de vegetais destinados à alimentação humana e das próprias oleaginosas, obtendo-se óleo e ração animal com uso mais coerente do solo.

Existe ainda a possibilidade de consórcio das plantações de oleaginosas com o plantio de espécie destinada à alimentação, pois o foliar das oleaginosas gera adubação natural ao cultivo de alimentos, o que pode ser um recurso para recuperação de solos degradados. Essas ações associadas ao plantio das florestas de oleaginosas (culturas perenes), podem proporcionar a obtenção de créditos de carbono. 

Diante disso, considero que não deverá ocorrer competição entre as produções de biocombustível e alimentos, principalmente em relação ao Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel, que deverá propiciar indiretamente a redução nos preços dos alimentos pela elevação na oferta de insumos para a agropecuária e aumento das áreas destinadas à agricultura.

Por fim, é importante termos discernimento nas avaliações das informações externas e assim julgarmos com precisão o que é importante e estratégico para nossa realidade nacional.
 

"Na Europa as condições climáticas podem determinar a necessidade de grande quantidade de fertilizantes para o cultivo da canola. As condições nacionais são completamente diferentes das européias."


Na Europa as condições climáticas podem determinar a necessidade de grande quantidade de fertilizantes para o cultivo da canola. As condições nacionais são completamente diferentes das européias. A diversidade de oleaginosas nacionais e suas aptidões com o solo brasileiro determinam muitas das vezes ocorrências espontâneas propícias ao extrativismo, ou ainda viabilizam a
prática da “adubação verde” com leguminosas para fixação do nitrogênio no solo, podendo dispensar o uso maciço de fertilizantes. Portanto, não devem ser consideradas na íntegra (o que não devem ser consideradas na íntegra? As condições climáticas européias?), quando buscamos estabelecer as diretrizes dos Programas Nacionais de Produção e Uso do Biodiesel e do Álcool Etílico,
pois a substituição simultânea, mesmo que parcial dos derivados do petróleo, óleo diesel e gasolina pelos produtos biodiesel e álcool oriundos da biomassa de um país tropical, podem representar passo decisivo rumo ao desenvolvimento sustentável e a solução de vários problemas nacionais.

Álvaro Barreto é pesquisador do Laboratório de Combustíveis e Lubrificantes do INT.
[email protected]

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