convidado

Biodiesel, um programa consolidado


Vicente Pimenta - Coordenador da comissão técnica de Biodiesel - AEA - 14 abr 2010 - 08:40 - Última atualização em: 13 mar 2012 - 16:55

Adiantando-se em 3 anos ao que havia sido originalmente planejado, o Presidente Lula veio a público e anunciou que já em 2010 o diesel brasileiro contará com 5% de biodiesel. Poucos dias depois, precisamente no dia 9 de novembro, aconteceu em Brasília cerimônia de encerramento dos testes com B5 coordenados pelo MCT com a entrega de um livro contendo o sumário dos testes realizados. O Brasil aponta para um caminho que indica que 5% é apenas o início, em linha com a demanda mundial de inserção de renováveis na matriz energética. A AEA fez parte dessa história desde o seu início.

Associação Brasileira de Engenharia Automativa
O Programa Brasileiro de Biodiesel teve seu início em um evento da AEA no final de 2002. Representantes do Ministério da Ciência e Tecnologia presentes ao evento, propuseram em meio aos participantes, iniciativas para se viabilizar a introdução do biodiesel na matriz energética brasileira. Muito se discutiu naquele momento. Para a Anfavea foi solicitada uma posição sobre a introdução do biodiesel no Brasil de forma urgente. Através de consenso com as autoridades, aceitou-se que a quantidade máxima de biodiesel que poderia ser tolerada misturada ao diesel seria 2% (o chamado B2). Para proporções maiores do que essa seria necessária a realização de testes uma vez que o biodiesel que se tencionava usar no país era obtido utilizando-se álcool etílico, diferente do europeu que usava metílico, sobre o qual já se dispunha de algum conhecimento. Além disso, as oleaginosas escolhidas para o programa brasileiro eram diferentes das euroéias e menos conhecidas, sobretudo a mamona.

Foi assim que tudo começou. O Governo introduziu 2% de biodiesel ao diesel, ainda em caráter voluntário, enquanto Anfavea, Sindipeças e Governo propuseram testes para validar o novo combustível visando preparar o país para misturas maiores de biodiesel ao diesel fóssil.

A AEA, desde o início do Programa Brasileiro de Biodiesel, criou a Comissão Técnica do Biodiesel, atualmente coordenada pelo Engenheiro Vicente Pimenta. A idéia inicial era bastante abrangente e visava cobrir o assunto “biodiesel” sob vários aspectos: especificação, testes de campo, produção, logística e compatibilidade com tecnologias futuras. Com a entrada do IBP no grupo, achou-se por bem dividir as atividades por competência e a partir daí a AEA passou a se ocupar do acompanhamento dos testes, da especificação e da compatibilidade com tecnologias futuras. Ambos os grupos ainda são unidos, porém reúnem-se separadamente. Isso porque o IBP realiza as suas reuniões no Rio de Janeiro e a AEA em São Paulo, o que dificulta a participação de todos os envolvidos. Periodicamente há troca de informações para atualização dos participantes.

O grupo de São Paulo (AEA) conta com a participação de vários membros que têm assento no Grupo Governamental de acompanhamento de testes, o que torna rica de informações as reuniões. Todo e qualquer problema que possa ser observado, quer no andamento de algum teste, quer no estabelecimento da metodologia, quer na realização do teste, é analisado e as recomendações são passadas diretamente ao grupo governamental. A experiência dos membros também tem sido de grande valia nas sugestões da AEA para aprimoramento da especificação do biodiesel brasileiro.
Questionamentos ainda válidos

O Brasil já conta com 4% de biodiesel em todo o diesel comercializado no país e em 2010 o governo vai aumentar a quantidade de biodiesel no diesel para 5%. Apesar de toda euforia e sucesso do programa, algumas considerações ainda devem ser levadas em conta:

1 – Especificação do biodiesel
A especificação brasileira permanece diferente da européia e não se tem uma exata noção da verdadeira necessidade de haver restrições tão severas para alguns parâmetros do combustível. Ocorre que quando se iniciaram os testes, não havia biodiesel disponível no mercado e a única possibilidade de realização de testes de campo era usar o biodiesel que fosse possível, muitas vezes, preparado em escala laboratorial. Hoje a realidade é bastante diferente e já se pode pensar em produzir uma quantidade de biodiesel com parâmetros especialmente cercados para se avaliar se os temores que cercam cada uma das características das especificações se justificam.

2 – Especificação da mistura
O Brasil especifica o B100, mas o consumidor encontra no tanque o B4. Depois de misturado, como saber a condição inicial ou mesmo se o biodiesel se degradou a partir da produção? Parece sensato pensar que a ANP, além da especificação do B100, deveria também preparar uma especificação que cercasse parâmetros importantes da mistura (inclusive prevendo proporções maiores de biodiesel) de modo a podermos ser mais eficientes no controle do que existe no mercado brasileiro para assim protegermos o consumidor final.

3 – Proporção ideal de biodiesel
Os sistemistas resistem a dar garantia para misturas superiores a 7% de biodiesel. O desejo do governo parece ser o de aumentar a proporção cada vez mais, porém reconhece que deve gerar perda de performance e de economia. Assim, a pergunta permanece válida: afinal, qual a proporção ótima? A partir de quanto de biodiesel que se observam problemas para o motor? As emissões têm algum impacto? Há emissões de outros tipos de gases nocivos à saúde e que podem se tornar especialmente piores se houver mais biodiesel presente na mistura?

4 – Biodiesel e o futuro
Com o advento de novas etapas do Proconve, os motores diesel passarão a ter estratégias de pós-tratamento que podem eventualmente ser afetadas por compostos expelidos pelo escape de motores usando biodiesel. Seria recomendável que tal compatibilidade fosse verificada. Da mesma forma, com a chegada do diesel com menor quantidade de enxofre, qual será o comportamento da mistura? A diminuição de enxofre pode ter repercussões nas características esperadas da mistura?

5 – Em que sentido o biodiesel de segunda geração, que é o resultado de tratamento do óleo vegetal através de torres de hidrotratamento, gerando um produto indistinto do diesel, não substituiria com vantagem o biodiesel?

6 – Sabe-se que existe um grupo para unificação da especificação do biodiesel composto por Brasil, Estados Unidos e União Européia. Cada um desses três membros tem a sua especificação própria e a esperança é que não se adote o caminho da facilidade (unificação pela especificação mais flexível) e sim o da responsabilidade técnica pensando sempre que a finalidade do biodiesel é atender às necessidades de uso dos motores diesel e não as facilidades de produção. O biodiesel poderia se transformar em uma commodity e isso habilitaria o Brasil a se converter em futuro próximo em um dos maiores produtores mundiais de Biodiesel.

Estas e outras questões aprimoram o Programa do biodiesel brasileiro e é papel das entidades civis apontarem os caminhos de otimização das soluções para que a matriz energética brasileira, tão complexa e dependente do diesel, possa passar por esse momento de transição sem sobressaltos ou prejuízos, trazendo resultados positivos para a economia brasileira.

Vicente Pimenta, DELPHI
Coordenador da comissão técnica de Biodiesel – AEA