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convidado

Biodiesel de pena de galinha


Eduardo Athayde - 26 jul 2010 - 07:13 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:13

Farinha de restos de frango, incluindo penas, é matéria-prima para a produção de biocombustível. Uma tonelada de pena pode produzir 69 litros de biodiesel.

O mundo tem um gigantesco apetite pelos produtos avícolas. A cada ano são acumulados 5 bilhões de quilos de resíduos de aves, a maior parte utilizada como alimento para animais e fertilizantes agrícolas. Centros de pesquisas dos Estados Unidos, com o apoio de empresas americanas, vêm desenvolvendo processos para a produção de biodiesel a partir de penas de galinha.

Farinha de restos de frango, incluindo penas, além dos altos percentuais de proteína e nitrogênio tem 12% de gordura, matéria-prima para a produção de biocombustível, informam os pesquisadores. Uma tonelada de pena pode produzir 69 litros de biodiesel.

Estatísticas mostram que a quantidade de farinha de pena gerada pela indústria avícola a cada ano poderia produzir 580 milhões de litros de biodiesel, por ano, nos EUA e 2,2 bilhões litros, por ano, em todo o mundo. O Reno Renewable Energy Center, um dos centros responsáveis pelas pesquisas, já publicou 183 trabalhos técnicos, tem 10 patentes publicadas, 12 pendentes e obteve mais de US$ 25 milhões de dólares em financiamento para seus projetos.

Segundo o IBGE o Estado do Paraná lidera a produção de frango no país. No primeiro trimestre de 2009, 1,12 bilhão de frangos foi abatido em todo o país. Desse total, o Paraná abateu 297,3 milhões de cabeças, 26,5%. O segundo maior produtor foi Santa Catarina com 211,3 milhões, seguido do Rio Grande do Sul com 158,8 milhões de cabeças abatidas.

O aumento da produção de grãos no oeste na Bahia está permitindo que o estado se consolide como um importante produtor de carne de frango. A disponibilidade de matéria-prima tem favorecido a expansão das granjas no estado, a exemplo do que aconteceu nos estados do Centro-Oeste. Dados da União Brasileira de Avicultura (UBA) mostram que o alojamento de pintos de corte na Bahia cresceu 13,3% em 2009 para 108 milhões de aves, duas vezes acima da média nacional de 6,2%. Entre os estados que fazem parte da nova fronteira agrícola (BA, MA, PI e TO), a Bahia destaca-se como maior produtor de frango.

Os recordes paranaense e baiano na produção de frango também poderão gerar recordes de mobilidade no transporte público movido à pena de galinha, contribuindo para o fortalecimento da economia rural e ajudando a diminuir o inchaço das grandes cidades. Novos arquétipos econômicos favorecem essas inovações. Em 2010, o Brasil adotou oficialmente o modelo contábil do International Financial Reporting Standards (IFRS), regras para balanços já vigentes em mais de 100 países, que modifica significativamente o modo com que as corporações reportarão seus demonstrativos financeiros, alterando a forma de apurar resultados e as analises do mercado sobre o desempenho das empresas.

Enquanto demonstrativos da contabilidade tradicional consideram meio ambiente e mudanças climáticas como contingências remotas - externalidades - o IFRS determina que os ativos biológicos (tudo que nasce, cresce e morre), alterações climáticas e seus impactos positivos e negativos sobre o valor dos bens, sejam ajustados no balanço pelo fair value” (valor de mercado), o que pode alterar significativamente os resultados e o nível de atratividade de mercado das empresas.

Os ativos biológicos, ou seja, culturas variadas dentre elas rebanhos, matrizes reprodutoras, canaviais e frangos de corte, são bens vivos que crescem ou engordam, e alguns são commodities com preços oscilantes, terão que ser demonstrados nos balanços pelo valor de mercado. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por exemplo, que financia bioativos da avicultura, está enquadrado nas regras do IFRS - e os financiados, também.

Novas governanças emanadas de bases empresariais criam referências para políticas publicas redefinindo formas de vida da sociedade. Enquanto a Bahia promove em setembro o "Sustenta 2010" reunindo academia e empresa para discutir questões de sustentabilidade nas grandes cidades, o evento “Cidades Inovadoras”, promovido em março passado pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná – FIEP, reuniu mais de 3.500 participantes, exibindo experiências de cidades no Brasil e do mundo. Inovando, empresários e acadêmicos lideram o pensamento brasileiro como atores políticos, ampliando com fatos e dados os horizontes das corporações, alinhando-os aos paradigmas da sustentabilidade que começam a reger mercados.

A inovação ajuda a sociedade a despertar para soluções como o biodiesel de pena de galinha, mais um exemplo a ser somado a tantos outros projetos guardados como prata da casa nas prateleiras de respeitadas instituições como a Ufpa, Ufba e universidades estaduais da Bahia, a espera de encontros entre academia e empresa, colocando o conhecimento a serviço das comunidades.

Eduardo Athayde é diretor do Worldwatch Institute no Brasil. Email: [email protected]