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O biodiesel enfrenta concorrência no mercado


Carlos Zveibil Neto - 11 dez 2007 - 09:14 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

Nessa situação, o Brasil não vai produzir os 800 milhões de litros anuais de biodiesel que o governo se comprometeu a adicionar ao diesel a partir de 1 de janeiro, data já tão próxima.

O preço da soja subiu tanto (R$ 1.900 a tonelada), o sebo bovino está cotado a R$ 2,00, que se tornou inviável usá-los para produzir biodiesel. O óleo de mamona também tem preço de venda suficientemente alto, para que ninguém queira usá-lo para fazer biodiesel, receita certa para perder dinheiro.

A divulgação dos males que a gordura "trans" traz ao organismo, por sua vez, criou um rico mercado para os produtores de óleo de palma, que passou a ser usada para produzir uma margarina saudável, sem a gordura indesejada.

Para o biodiesel, restou a opção do pinhão-manso, um ilustre desconhecido com suas 200 variedades, das quais não se sabe quais as mais produtivas, com uma incógnita sobre as pragas que o atacam e sobre a melhor técnica de cultivo. A Embrapa trabalha com afinco no estudo do plantio econômico do pinhão-manso em várias regiões do País, mas os resultados podem demorar.

Nessa situação, o Brasil não vai produzir os 800 milhões de litros anuais de biodiesel que o governo se comprometeu a adicionar ao diesel a partir de 1 de janeiro, data já tão próxima.

Usinas com capacidade somada de produzir mais de um bilhão de litros estão prontas, à espera de uma solução, enquanto o biodiesel brasileiro continua como uma esperança.

Em busca de uma solução para ter o biodiesel necessário para cumprir a determinação legal, a Petrobras vai fazer novos leilões com preço base mais alto, sob pena de não conseguir o produto. Isso não basta, porém, o que é preciso é que o governo entenda que biodiesel não é uma palavra mágica, uma "galinha de ovos de ouro" com capacidade inexaurível de gerar riquezas e soluções.

 A matéria-prima subiu tanto que produzir o combustível é perder dinheiro


E necessário, em primeiro lugar, tirar o fabricante de biodiesel do quarda-chuva da Petrobras, permitir negociações diretas entre produtores de biodiesel e as distribuidoras, o preço do biodiesel só será uma "commodity" assim. Fazendo a Petrobras comprar via leilão e revender para as distribuidoras, das três partes envolvidas uma ou mais irá perder.

Além disso, certo de que o biodiesel seria um negócio excepcional, Brasília pendurou nele os programas sociais, isto é, sobretaxou pesadamente o produto ainda inexistente e anunciou, com euforia, que para ser taxado em uma alíquota de imposto mais baixo o produtor precisava do "selo combustível social", ou seja, teria que comprovar que produz biodiesel com oleaginosas produzidas por assentados.

Já para garantir os assentados contra a "sanha" dos hoje quase futuros-ex-produtores-de-biodiesel, decidiu que o industrial deve fornecer semente, adubo e tecnologia para o produtor rural, mas, se esse não entregar o produto, não sofre qualquer punição. O resultado previsível é que centenas de produtores informam, na hora da colheita, que "não consegui produzir, não senhor", dizem obrigado e deixam o industrial no prejuízo.

Há casos até em que o esbulho chegou a ponto de o agricultor receber o adubo e a semente, produzir e vender para outro por preço mais alto, uma vez que legalmente não é obrigado a prestar contas do que recebeu como adiantamento, e usou o dinheiro para engordar o Bolsa Familia, o Bbolsa Escola, o auxílio-desemprego e os demais programas assistenciais que se tornaram sua fonte de renda permanente, eliminando a necessidade e a vontade de trabalhar, pois provavelmente vendeu sem nota, o que faz dele um sem-renda. Como tudo no Brasil, o biodiesel, que pode ser um programa de sucesso, foi usado para resolver outras coisas.

Não importa mais apenas produzir o combustível ecologicamente correto. O programa foi visto pelo governo como uma oportunidade para resolver o problema de produção dos assentados. Está dando no que deu e em janeiro talvez seja muito tarde para, na impossibilidade de acrescentar os 2% de biodiesel prometido ao diesel, começar a repensar o programa, então já sem credibilidade.

Mais uma vez, o Brasil terá perdido o trem da história e os governantes irão ver o biodiesel funcionando na Europa, que, com outras regras, com menos taxas e impostos, já começa hoje a usar muito mais biodiesel do que nós, com nossa imensidão de terras agricultáveis, tornadas improdutivas pelo assistencialismo que garante o ganho sem trabalho, que garante ao assentado a terra, mas a ele não se dá assistência, ele não se fiscaliza, e a ele não se pede nada em troca.

Carlos Zveibil Neto - Vice-presidente da Associação Paulista dos Empresários de Obras Públicas e diretor da Ponte di Ferro (Apeop)