Biodiesel

A diferença entre o H-Bio e o Biodiesel


Globo Online - 04 jul 2006 - 13:21 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22
Coluna petróleo global por Jean-paul Prates, publicada no Globo Online.

Um comentário de nosso colega de consultoria e amigo Professor Donato Aranda, Ph.D. (UFRJ, Expetro e Greentech) a respeito da necessária diferenciação entre o H-Bio e o Biodiesel, que tanta apreensão vem causando entre os interessados na matéria.

"O processo de HDT (Hydrotreating ou Hidrotratamento) de Diesel, consiste fundamentalmente em uma reação catalítica entre o hidrogênio (produzido nas refinarias nas unidades de reforma à vapor) e frações de diesel geradas nas colunas de destilação, no coqueamento retardado e no craqueamento catalítico do gasóleo. Estas frações de diesel contêm em sua estrutura teores excessivos de enxofre, nitrogênio, oxigênio e aromáticos. Esses elementos são removidos no processo de H. O processo de remoção de enxofre é chamado de HDS (Hydrodesulfurization). O processo de remoção de nitrogênio é chamado de HDN (Hydrodenitrogenation). O processo de remoção de aromáticos é chamado de HDA (Hydrodearomatization). O processo de remoção de oxigênio é chamado de HDO (Hydrodeoxygenation). O novo combustível H-BIO é gerado num processo de HDO.

Os óleos vegetais não possuem nitrogênio, enxofre, nem aromáticos. Todavia possuem 6 átomos de oxigênio em cada molécula. A alimentação dos óleos vegetais em contato com hidrogênio na presença de um catalisador em um reator com pressão de 70 atm e temperatura superior a 300ºC “arranca” os átomos e oxigênio sob a forma de água, gerando hidrocarbonetos na faixa do diesel (hexadecano e octadecano) além de propano gerado a partir da glicerina dos óleos vegetais. Para cada tonelada de óleo vegetal, obtém-se no máximo, 850 kg de H-BIO (rendimento de 85%). Para cada tonelada de H-BIO consome-se cerca de 27 kg de Hidrogênio. (Detalhe: normalmente trabalha-se com seguinte preço do Hidrogênio: US$ 2.500/tonelada).

A Petrobrás inaugurou sua primeira unidade de HDT em 1998, na Refinaria Presidente Bernardes, Cubatão-SP. Atualmente, existem unidades de HDT na REDUC-RJ, REPLAN-SP, REVAP-SP, REPAR-PR, REFAP-RS e REGAP-MG. A atual capacidade instalada de HDT no Brasil corresponde a 36% do diesel consumido no Brasil, ou seja, cerca de 64% do diesel produzido no Brasil não passa pelo processo de HDT. Como o HDT é extremamente eficiente, um produto de HDT bastante puro é misturado com diesel que não passa pelo HDT. Desse modo, gera-se o diesel que se consome hoje no país.

Obviamente, não se processa todo o diesel no HDT por uma questão econômica (investimento e custos operacionais). Mesmo nos EUA não se processa todo o diesel no HDT (73% do diesel nos EUA é processado por HDT). Uma unidade completa de HDT custa entre US$ 200 e 250 milhões produzindo entre 3 e 5 milhões de litros de diesel/dia. Algumas unidades de HDT desse porte são oferecidas a US$ 100 milhões. Porém, trata-se de preço ISBL (Inside Battery Limits), ou seja, sem utilidades, estrutura, unidades de apoio, geração de hidrogênio, etc.

Em termos ambientais, apesar da utilização de fontes renováveis (óleo vegetal), o H-BIO não é capaz de reduzir as emissões de monóxido de carbono (CO) e material particulado. Esses compostos constituem a chamada “fumaça negra” dos veículos diesel. O biodiesel promove a redução dessas emissões por conter oxigênio em sua estrutura (éster). Esse oxigênio intramolecular promove a combustão completa. Tanto CO quanto os particulados são gerados por combustão incompleta (falta de oxigênio). Isso não ocorre com o H-BIO que não possui oxigênio na estrutura (hidrocarboneto), não podendo assim promover uma combustão mais completa.

Do ponto de vista mecânico, os átomos de oxigênio do biodiesel promovem um aumento de lubricidade, e consequentemente da vida útil de peças do motor diesel. Dados dos fabricantes de auto-peças atestam que 2% de biodiesel adicionados ao diesel aumentam em cerca de 50% a lubricidade do combustível. Já o H-BIO não possui enxofre (como o biodiesel) mas também não possui oxigênio. Esse déficit dos elementos enxofre + oxigênio faz com que o H-BIO tenha lubricidade menor que o diesel.

Como conclusão, podemos dizer que o H-BIO só é viável para grandes refinarias de petróleo (.pdf 4.2 Mb) que já possuem unidades de HDT com capacidade ociosa e que processem óleos e gorduras mais baratas que o petróleo. Para produtores de óleos vegetais é inviável a instalação de plantas de HDT para produção de H-BIO.

No modelo de negócio do H-BIO, o produtor de grãos e óleos vegetais limita-se a ser um fornecedor de matéria-prima, sem possibilidades de agregar valor a seu produto.

Já no caso do biodiesel a proposta é o “upgrade” dos óleos e gorduras para a indústria oleoquímica através de um metil éster (biodiesel, propriamente dito) com valor de mercado de US$ 850/t, produto que, opcionalmente, é precursor de vários outros compostos como o metil éster sulfonado (US$ 1.500/t), álcoois graxos (US$ 2.500/t), entre outros produtos com valor de mercado bem superior ao óleo vegetal."

* - O trecho acima é extraído do estudo multi-cliente “Oportunidades e Desafios da Produção, comercialização e Utilização do Biodiesel no Brasil e no Mundo”, de autoria de diversos especialistas, produzido pela Consultoria Expetro e que será comercializado em conjunto com o IBC e pela Oil & Gas Journal Latinoamericana a partir do próximo mês.

Giroscópio

Exigência em comum
No encontro das três maiores estatais latino-americanas (Petrobras, PDVSA e Pemex) com empresas para-petroleiras francesas, em Paris, na semana passada, a mensagem foi clara e correta: só com a parceria e colaboração do mercado local será possível ser fornecedor das maiores operadoras do Brasil, da Venezuela e do México. Acabou-se o tempo dos representantes comerciais e das importações diretas. A presença do Diretor Guilherme Estrella foi destaque, tanto pela apresentação que fez do plano estratégico e de investimentos da companhia, quanto pela participação do executivo nas seções de perguntas aos demais participantes.

Incomparável
Eficiente (com resultados comprovados), visionária (falando de eletricidade, biocombustíveis e novas fronteiras internacionais) e transparente (sem receio de mostrar seus números e suas metas), a Petrobras foi quem mais atraiu a atenção dos investidores e fornecedores franceses no encontro promovido pelo Governo Francês na sede da sua entidade de fomento internacional Ubifrance. Os comentários da audiência foram unânimes: “perto da Petrobras, Pemex e PDVSA parecem ainda engatinhar em termos de interação com o cenário internacional”.

O colunista também é publisher da edição latinoamericana do Oil & Gas Journal (Pennwell) e diretor-representante no Brasil das publicações Oil & Gas Journal (semanal) e Offshore Magazine (mensal), parceiras do Globo Online na troca de conteúdo.
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