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Biodiesel

Convencida pelo Credit Suisse, Agrenco deu passo maior que as pernas


Monitor Mercantil - 11 jul 2008 - 05:48 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:06

A alta das commodities e a retração da economia mundial pegaram no contrapé muitas empresas novatas na Bolsa de Valores de São Paulo. O caso mais emblemático foi da Agrenco, uma das maiores exportadoras de soja do Brasil.

"Eles se endividaram na expectativa de se financiarem mais barato no futuro, o que acabou não acontecendo", diz um banqueiro. "Muitas empresas que abriram o capital pisaram fundo no acelerador acreditando nisso. Os bancos médios são um caso. As empresas imobiliárias, outro."

"A volatilidade pegou o mercado de surpresa. Ninguém estava preparado. Mas os grupos estrangeiros conseguiram enfrentar melhor a situação", diz José Amaral, da Scot Consultoria. "A volatilidade implica maior desgaste do capital de giro. Para garantir preço, as empresas vendem a soja no mercado futuro na bolsa. Mesmo que a empresa não perca lá na frente, os ajustes diários demandam capital de giro diariamente."

A falta de capital de giro começou quando o banco Credit Suisse convenceu a Agrenco a construir três usinas de esmagamento do grão e processamento de óleo e biodiesel. Até então, a empresa não tinha indústrias; como suas principais concorrentes mundiais, apenas comprava e vendia grãos.

O banco disse que, para fazer um lançamento de ações, a companhia precisava ter o que mostrar aos investidores. "A Agrenco deu um passo maior do que as pernas. Em vez de fazer três usinas, poderia ter feito só uma, proporcional ao tamanho dela", diz o diretor da consultoria Biodieselbr, Univaldo Vedana.

Dinheiro para credor
A aposta se revelou furada em pouco tempo. O caixa da companhia secou apenas oito meses depois de uma bem sucedida oferta inicial de ações (OPA), em que foram captados R$ 666 milhões. Pior: a Agrenco já acumula dívida superior a R$ 1 bilhão, boa parte de curto prazo.

O grosso do dinheiro da OPA foi para o pagamento de dívidas e comissões. O maior credor era o próprio Credit Suisse, que liderou a abertura de capital em outubro do ano passado. O CS era também o líder de um empréstimo sindicalizado de US$ 150 milhões para a construção das três usinas.

A estratégia de impressionar os investidores custou caro. Apenas 32% do dinheiro do lançamento virou capital de giro. Essa distribuição já seria arriscada em tempos normais, pois empresas como a Agrenco, que financiam os produtores de grãos, são extremamente dependentes de caixa. Com a alta da soja, a situação ficou mais dramática.

A quebra da Selecta, concorrente da Agrenco, foi o último golpe. "Quando alguém quebra no setor, todo mundo corta crédito", diz Claudio Alencar, sócio da gestora de investimentos Polo Capital.

Executivos na prisão
Os principais acionistas e executivos da Agrenco - entre eles o fundador, Antonio Iafelice - foram presos pela Polícia Federal. Os executivos da companhia agropecuária são acusados dos crimes de estelionato, lavagem de ativos, formação de quadrilha e falsidade ideológica, entre outros.

Para sobreviver, o grupo precisaria de pelo menos US$ 100 milhões de capital de giro e outros US$ 150 milhões em empréstimos de longo prazo. O alerta foi feito pelo mesmo Credit Suisse, meses após a OPA.

No fim da tarde de quarta-feira, a Agrenco informou ter recebido uma oferta da Noble Brasil, mas decidiu prosseguir com as negociações com grupo francês Louis Dreyfus Commodities (LDC), com o qual fechara um acordo - ainda mal explicado - no dia 24 de junho, poucos dias depois da prisão dos executivos da Agrenco

O acordo ainda permanece um mistério para os acionistas. "A única coisa que está clara é que a Dreyfus pode, a seu bel-prazer, colocar dinheiro na Agrenco", diz um advogado ligado a fundos que aplicam na empresa.

A Agrenco foi vendida aos investidores como uma promessa do agronegócio. A empresa se cercou de profissionais considerados de primeira linha, como a auditoria KPMG e o escritório de advogados Mattos Filho. O ex-presidente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, José Guimarães Monforte, uma espécie de selo de transparência no mercado, foi alçado ao posto de conselheiro independente.