Imobiliárias e bancos médios também "pisaram fundo demais no acelerador"
A alta das commodities e a retração da economia mundial pegaram no contrapé muitas empresas novatas na Bolsa de Valores de São Paulo. O caso mais emblemático foi da Agrenco, uma das maiores exportadoras de soja do Brasil.
"Eles se endividaram na expectativa de se financiarem mais barato no futuro, o que acabou não acontecendo", diz um banqueiro. "Muitas empresas que abriram o capital pisaram fundo no acelerador acreditando nisso. Os bancos médios são um caso. As empresas imobiliárias, outro."
"A volatilidade pegou o mercado de surpresa. Ninguém estava preparado. Mas os grupos estrangeiros conseguiram enfrentar melhor a situação", diz José Amaral, da Scot Consultoria. "A volatilidade implica maior desgaste do capital de giro. Para garantir preço, as empresas vendem a soja no mercado futuro na bolsa. Mesmo que a empresa não perca lá na frente, os ajustes diários demandam capital de giro diariamente."
A falta de capital de giro começou quando o banco Credit Suisse convenceu a Agrenco a construir três usinas de esmagamento do grão e processamento de óleo e biodiesel. Até então, a empresa não tinha indústrias; como suas principais concorrentes mundiais, apenas comprava e vendia grãos.
O banco disse que, para fazer um lançamento de ações, a companhia precisava ter o que mostrar aos investidores. "A Agrenco deu um passo maior do que as pernas. Em vez de fazer três usinas, poderia ter feito só uma, proporcional ao tamanho dela", diz o diretor da consultoria Biodieselbr, Univaldo Vedana.
Dinheiro para credor
A aposta se revelou furada em pouco tempo. O caixa da companhia secou apenas oito meses depois de uma bem sucedida oferta inicial de ações (OPA), em que foram captados R$ 666 milhões. Pior: a Agrenco já acumula dívida superior a R$ 1 bilhão, boa parte de curto prazo.
O grosso do dinheiro da OPA foi para o pagamento de dívidas e comissões. O maior credor era o próprio Credit Suisse, que liderou a abertura de capital em outubro do ano passado. O CS era também o líder de um empréstimo sindicalizado de US$ 150 milhões para a construção das três usinas.
A estratégia de impressionar os investidores custou caro. Apenas 32% do dinheiro do lançamento virou capital de giro. Essa distribuição já seria arriscada em tempos normais, pois empresas como a Agrenco, que financiam os produtores de grãos, são extremamente dependentes de caixa. Com a alta da soja, a situação ficou mais dramática.
A quebra da Selecta, concorrente da Agrenco, foi o último golpe. "Quando alguém quebra no setor, todo mundo corta crédito", diz Claudio Alencar, sócio da gestora de investimentos Polo Capital.
Executivos na prisão
Os principais acionistas e executivos da Agrenco - entre eles o fundador, Antonio Iafelice - foram presos pela Polícia Federal. Os executivos da companhia agropecuária são acusados dos crimes de estelionato, lavagem de ativos, formação de quadrilha e falsidade ideológica, entre outros.
Para sobreviver, o grupo precisaria de pelo menos US$ 100 milhões de capital de giro e outros US$ 150 milhões em empréstimos de longo prazo. O alerta foi feito pelo mesmo Credit Suisse, meses após a OPA.
No fim da tarde de quarta-feira, a Agrenco informou ter recebido uma oferta da Noble Brasil, mas decidiu prosseguir com as negociações com grupo francês Louis Dreyfus Commodities (LDC), com o qual fechara um acordo - ainda mal explicado - no dia 24 de junho, poucos dias depois da prisão dos executivos da Agrenco
O acordo ainda permanece um mistério para os acionistas. "A única coisa que está clara é que a Dreyfus pode, a seu bel-prazer, colocar dinheiro na Agrenco", diz um advogado ligado a fundos que aplicam na empresa.
A Agrenco foi vendida aos investidores como uma promessa do agronegócio. A empresa se cercou de profissionais considerados de primeira linha, como a auditoria KPMG e o escritório de advogados Mattos Filho. O ex-presidente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, José Guimarães Monforte, uma espécie de selo de transparência no mercado, foi alçado ao posto de conselheiro independente.
"Eles se endividaram na expectativa de se financiarem mais barato no futuro, o que acabou não acontecendo", diz um banqueiro. "Muitas empresas que abriram o capital pisaram fundo no acelerador acreditando nisso. Os bancos médios são um caso. As empresas imobiliárias, outro."
"A volatilidade pegou o mercado de surpresa. Ninguém estava preparado. Mas os grupos estrangeiros conseguiram enfrentar melhor a situação", diz José Amaral, da Scot Consultoria. "A volatilidade implica maior desgaste do capital de giro. Para garantir preço, as empresas vendem a soja no mercado futuro na bolsa. Mesmo que a empresa não perca lá na frente, os ajustes diários demandam capital de giro diariamente."
A falta de capital de giro começou quando o banco Credit Suisse convenceu a Agrenco a construir três usinas de esmagamento do grão e processamento de óleo e biodiesel. Até então, a empresa não tinha indústrias; como suas principais concorrentes mundiais, apenas comprava e vendia grãos.
O banco disse que, para fazer um lançamento de ações, a companhia precisava ter o que mostrar aos investidores. "A Agrenco deu um passo maior do que as pernas. Em vez de fazer três usinas, poderia ter feito só uma, proporcional ao tamanho dela", diz o diretor da consultoria Biodieselbr, Univaldo Vedana.
Dinheiro para credor
A aposta se revelou furada em pouco tempo. O caixa da companhia secou apenas oito meses depois de uma bem sucedida oferta inicial de ações (OPA), em que foram captados R$ 666 milhões. Pior: a Agrenco já acumula dívida superior a R$ 1 bilhão, boa parte de curto prazo.
O grosso do dinheiro da OPA foi para o pagamento de dívidas e comissões. O maior credor era o próprio Credit Suisse, que liderou a abertura de capital em outubro do ano passado. O CS era também o líder de um empréstimo sindicalizado de US$ 150 milhões para a construção das três usinas.
A estratégia de impressionar os investidores custou caro. Apenas 32% do dinheiro do lançamento virou capital de giro. Essa distribuição já seria arriscada em tempos normais, pois empresas como a Agrenco, que financiam os produtores de grãos, são extremamente dependentes de caixa. Com a alta da soja, a situação ficou mais dramática.
A quebra da Selecta, concorrente da Agrenco, foi o último golpe. "Quando alguém quebra no setor, todo mundo corta crédito", diz Claudio Alencar, sócio da gestora de investimentos Polo Capital.
Executivos na prisão
Os principais acionistas e executivos da Agrenco - entre eles o fundador, Antonio Iafelice - foram presos pela Polícia Federal. Os executivos da companhia agropecuária são acusados dos crimes de estelionato, lavagem de ativos, formação de quadrilha e falsidade ideológica, entre outros.
Para sobreviver, o grupo precisaria de pelo menos US$ 100 milhões de capital de giro e outros US$ 150 milhões em empréstimos de longo prazo. O alerta foi feito pelo mesmo Credit Suisse, meses após a OPA.
No fim da tarde de quarta-feira, a Agrenco informou ter recebido uma oferta da Noble Brasil, mas decidiu prosseguir com as negociações com grupo francês Louis Dreyfus Commodities (LDC), com o qual fechara um acordo - ainda mal explicado - no dia 24 de junho, poucos dias depois da prisão dos executivos da Agrenco
O acordo ainda permanece um mistério para os acionistas. "A única coisa que está clara é que a Dreyfus pode, a seu bel-prazer, colocar dinheiro na Agrenco", diz um advogado ligado a fundos que aplicam na empresa.
A Agrenco foi vendida aos investidores como uma promessa do agronegócio. A empresa se cercou de profissionais considerados de primeira linha, como a auditoria KPMG e o escritório de advogados Mattos Filho. O ex-presidente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, José Guimarães Monforte, uma espécie de selo de transparência no mercado, foi alçado ao posto de conselheiro independente.