Biodiesel

Alta do preço do boi influencia pesquisa agropecuária


Dourados News - 16 jul 2008 - 05:20 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:06

O aumento de preços da arroba do boi, registrado nos últimos meses, vai influenciar diretamente as pesquisas envolvendo a cadeia produtiva da carne. A expectativa é de pesquisadores da Embrapa Pantanal, do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) e do Sindicato Rural de Corumbá.

Só neste ano, o preço médio de um boi magro, acima de 36 meses, passou de R$ 654,46 (janeiro) para R$ 1.215,38 (junho) nos leilões LV, da fazenda Novo Horizonte, no Pantanal.

O pesquisador Urbano Gomes Pinto de Abreu, da Embrapa Pantanal (Corumbá-MS), Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, disse que a oscilação de preços no mercado influencia a pesquisa agropecuária de várias formas.

A alta do preço viabiliza tecnologias mais sofisticadas e mais caras para o setor. “É diferente o produtor adotar uma tecnologia com o bezerro valendo R$ 90 ou com o bezerro valendo quase R$ 800. É outra história. Ele sente que vale a pena investir. Cria-se um clima para o produtor vir procurar tecnologia, surgem demandas por tecnologias mais sofisticadas”, afirmou Urbano.

“Existe a questão da sobreposição de áreas. A competição por áreas para a produção de etanol e biodiesel está tirando a pecuária de lugares tradicionais e avançando fronteiras. É o caso da pressão da pecuária sobre a pré-Amazônia e a Amazônia. Há demanda para pesquisas que indiquem como minimizar os impactos naquelas regiões”, disse.

Thiago Bernardino de Carvalho, da área de pecuária do Cepea, também vê íntima relação entre o mercado e a pesquisa. “Na pecuária, principalmente, há ciclos de produção, e a pesquisa serve como base para mensurar riscos e impactos, positivos ou negativos.”

Segundo ele, pesquisas da Embrapa, de outras instituições e mesmo as acadêmicas servem de apoio para todas as cadeias do agronegócio. Neste caso específico da alta de preços do boi, Thiago vê nas pesquisas a possibilidade de criação de modelos de equilíbrio e formas de planejar como o Brasil vai ofertar carne.

“O meio acadêmico tem ferramentas para dar suporte ao que ocorre no mercado. As pesquisas precisam estar à frente, mostrando alternativas para os setores que tomam decisões, seja na esfera púbica ou privada”, disse Thiago.

O Cepea monitora os preços do boi por meio de um convênio com a CNA (Confederação Nacional da Agricultura). A Embrapa utiliza essas informações pelo projeto Avisar, que reúne uma equipe de mais de cem pesquisadores, de diversas instituições, para quantificar os efeitos ambientais, sociais e econômicos dos diferentes sistemas de produção de bovinos de corte na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

O projeto vai subsidiar políticas públicas voltadas a uma produção sustentável e mais equilibrada. Urbano disse que os resultados do Censo Agropecuário, realizado em 2007 pelo IBGE – que também é parceiro no projeto – serão utilizados pela equipe do Avisar. Eles devem começar a ser divulgados em setembro ou outubro.

AUMENTO

Quatro fatores explicam a alta de preços da arroba, segundo os pesquisadores. O primeiro é a exportação de carne, que está em alta. Segundo Urbano e Thiago, o Brasil é o maior exportador e tem uma carne competitiva.

O segundo motivo é a redução do número de rezes de maneira geral no Brasil nos últimos anos. “O preço descendente estimulou o abate de matrizes, o que resulta em falta de bezerros. O setor de cria foi o mais afetado, com preços bastante baixos”, disse Urbano.

Thiago explica que há dificuldade de reposição de animais. Entre janeiro e julho, o preço subiu porque faltou boi. “Em agosto entram no mercado os bois confinados”, disse ele.

O terceiro fator que contribuiu para a alta de preços foi o crescimento do consumo de carne. “A tendência de ganho de renda do brasileiro se traduz em aumento do consumo de carne de boi. É churrasco todo fim de semana, independente da classe social”, disse o pesquisador da Embrapa Pantanal.

Thiago concorda e completa: “Quando a inflação começa a subir, o governo aumenta as taxas de juros e cai a venda de bens duráveis. Naturalmente, aumenta o consumo de alimentos.” Mas ele disse que já existe uma tendência de substituição: o consumidor está buscando alternativas mais acessíveis, como o frango.

O quarto fator que contribui para a alta de preços é o aumento do custo de produção. “O preço do sal mineral está muito alto, subiu demais”, disse Thiago.

PRODUÇÃO

O pecuarista e presidente do Sindicato Rural de Corumbá, Pedro Lacerda, concorda que se o produtor conseguir aumentar seus lucros, terá maior possibilidade de investir em tecnologias. “O pecuarista quer aumentar a produtividade, reduzir o tempo do bezerro no pasto e acelerar e engorda”, afirmou.

Para ele, a descapitalização dos produtores impedia tais investimentos. Lacerda disse que essa alta nos preços de bovinos era prevista, mas afirma que o valor atual da arroba ainda não garante lucro aos produtores.

“Tivemos uma perda substancial nos últimos cinco anos e o retorno não é imediato. Houve um abate grande de fêmeas e isso explica a escassez de bezerros. A alta de preços ocorre porque existe essa dificuldade de reposição”, explicou.

O presidente do sindicato disse ainda que grandes invernistas optaram por investir na BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros), em vez de comprar bois. “Eles aplicavam o dinheiro e ficavam esperando o melhor momento para investir em gado.”

Segundo Lacerda, o custo de produção de um bezerro ainda é considerado alto – R$ 78. “Para dar lucro, a arroba deveria estar custando de R$ 100 a R$ 120. Hoje (15 de julho) ela está cotada a R$ 87”, afirmou.