Negócio

Venda de refinarias atrai estrangeiros em cenário de incertezas


Valor Econômico - 23 abr 2019 - 16:25

As petroleiras com participação no pré-sal, interessadas numa estratégia de verticalização no Brasil, e as empresas especializadas em importação e exportação de derivados despontam como candidatas naturais à compra das refinarias da Petrobras. O plano da estatal de vender seus ativos acontece em meio à retomada dos investimentos estrangeiros no mercado brasileiro de combustíveis. O cenário de mudanças estruturais no setor e as incertezas levantadas sobre a interferência do governo nos preços do diesel, porém, lançam desafios à missão da empresa de se desfazer de parte de seu parque de refino, segundo especialistas.

A venda das refinarias é o principal trunfo dos desinvestimentos da Petrobras. A companhia possui 13 unidades e o presidente da estatal, Roberto Castello Branco, já afirmou que vê espaço para que a empresa reduza sua fatia na capacidade de refino nacional dos atuais 98% para cerca de 50%.

O modelo de negócios para o refino ainda está sendo discutido internamente pela empresa, mas já sofreu um primeiro revés, após o episódio de intervenção do presidente Jair Bolsonaro na suspensão do reajuste do diesel da Petrobras, há duas semanas. O caso alimentou a desconfiança do mercado sobre a liberdade de preços no Brasil, dando um sinal com potencial, segundo o UBS, para reduzir as chances de venda dos ativos.

Para o ex-diretor da Agência Nacional de Petróleo (ANP), Hélder Queiroz, a venda das refinarias é um passo importante da Petrobras na abertura do mercado brasileiro, mas não será uma tarefa "trivial". Segundo ele, a compra dos ativos da estatal faz sentido para as companhias que tenham interesse em vender, para um grande mercado consumidor, como o Brasil, parte de suas produções no pré-sal.

"Mas esse negócio pode ser mais difícil do que o esperado. O refino está se tornando um negócio arriscado para as empresas, porque a eletrificação da frota e as mudanças globais para novos padrões de mobilidade começam a se traduzir num novo perfil de consumo de combustíveis. Com isso, as 'majors' [grandes petroleiras globais] não parecem muito estimuladas a aumentar investimentos no refino. Vale destacar que o parque de refino brasileiro é antigo e demandará investimentos adicionais para revitalização", afirma Queiroz.

Enquanto as empresas aumentam a presença na petroquímica, de olho no crescimento da demanda de petróleo para uso não energético, a britânica BP estima que a demanda global por combustíveis líquidos no transporte deve começar a cair entre 2035 e 2040.

Para Queiroz, faz sentido para a Petrobras buscar ampliar o leque de empresas habilitadas a comprar seus ativos. Castello Branco, por exemplo, já declarou que pretende mudar o modelo atual para aumentar o número de potenciais compradores.

O projeto original de desinvestimentos no refino vetava a participação de empresas que tenham como principal atividade a comercialização global de petróleo e derivados de terceiros, conhecidas como tradings. "Não queremos excluir ninguém", afirmou o executivo, em fevereiro.

Para o diretor da consultoria Bain & Company no Rio de Janeiro, José de Sá, apesar do cenário de transição energética, o mercado brasileiro possui "algumas características interessantes" que podem atrair investidores interessados em garantir, de imediato, uma fatia do mercado no Brasil.

"Continuamos a ser um país com potencial de crescimento da demanda [por combustíveis] bastante razoável, se conseguirmos recolocar a economia no trilho. Ter uma refinaria, com logística e tancagem na mão, permite [à empresa] jogar no mercado brasileiro com condição muito interessante. A empresa compra uma posição de mercado com condições de acesso muito boas", opina Sá.

O plano decenal de energia, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estima que a demanda nacional por diesel, por exemplo, deve crescer 24,8% entre 2017 e 2027.

Sá não acredita, contudo, que a abertura do mercado brasileiro desencadeará num ciclo de novas refinarias. Investimentos desse tipo, segundo ele, devem se concentrar somente na Ásia.

"Diante do cenário de abundância de gasolina e diesel [na região do] Atlântico, é difícil justificar a construção de novas refinarias. Se olharmos o movimento dos líderes globais, eles vendem refinarias marginais e investem nas melhores. São expansões em cima dos ativos mais competitivos", explica.

Dentro da estratégia de se verticalizar, no Brasil, uma das candidatas a entrar no mercado de refino brasileiro é a chinesa CNPC, que entrou em 2018 no setor de distribuição e logística, ao comprar 30% da TT Work (controladora da distribuidora Petronac) e iniciou negociações com a Petrobras para investir na refinaria do Comperj, em Itaboraí (RJ). Movimento semelhante foi dado pela francesa Total, uma das principais operadoras do pré-sal e que adquiriu a distribuidora Zema Petróleo.

O plano de desinvestimentos da Petrobras, no refino, acontece justamente num momento de retomada do investimento estrangeiros no mercado brasileiro de combustíveis. Depois de um movimento de saída das companhias estrangeiras do setor, no fim da última década, as multinacionais começam a voltar para o Brasil. Ao todo, quatro empresas estrangeiras entraram no mercado nacional de distribuição em 2018, por meio de aquisições: além da CNPC e Total, a suíça Glencore comprou 78% da AleSat, quarta maior distribuidora do país, enquanto a holandesa Vitol adquiriu 50% a Rodoil.

André Ramalho e Rodrigo Polito – Valor Econômico