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Negócio

Risco do diesel é global, mas no país é pior, alertam especialistas


Valor Econômico - 31 mai 2022 - 09:30

O risco de desabastecimento de diesel, no segundo semestre do ano, não se limita ao Brasil, mas é global, na visão de especialistas ouvidos pelo Valor. No país, a situação é mais grave pelo fato de o mercado brasileiro ser dependente de importações para atender a demanda e porque a Petrobras tem demorado a fazer reajustes para equiparar os preços domésticos aos internacionais. A defasagem nos preços dificulta as importações. Hoje as refinarias brasileiras atendem cerca de 60% do consumo nacional e o restante precisa ser suprido por compras externas.

“O desabastecimento não é um problema apenas brasileiro, é uma questão mundial, mas como o Brasil participa do cenário global como importador, a situação é mais delicada. Se houver problemas de abastecimento nos Estados Unidos e na Europa, não há muito que o Brasil possa fazer. O risco maior é que somos importadores e é lógico que, se faltar, faltará primeiro aqui e depois lá”, diz consultor em gerenciamento de risco da consultoria StoneX, Pedro Shinzato.

As dificuldades de suprimento global de diesel no segundo semestre estão ligadas ao aumento da demanda com a recuperação da pandemia, às restrições das exportações da Rússia e à dependência do suprimento global das refinarias americanas, que podem ser fechadas nos próximos meses devido à temporada de furacões. No caso brasileiro, a situação se agrava pelas dificuldades de importadoras menores de trazer o produto para o país, dado que não conseguem competir com a Petrobras, que tem praticado preços abaixo do mercado internacional.

Nas estimativas da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), os preços do diesel nas refinarias da Petrobras estavam 7% abaixo dos preços internacionais na manhã de ontem. Com isso, seria necessário um aumento de R$ 0,37 por litro, em média, nos preços da estatal. A StoneX calculava, na manhã de ontem, uma defasagem de 3%.

O presidente da Abicom, Sérgio Araújo, alerta que é necessário detalhar melhor a situação dos estoques nacionais. “O país tem dimensões continentais. É possível ter um ponto com um volume de produto que garante o abastecimento, mas em outras regiões do país isso pode não ser verdade. O Brasil não tem infraestrutura logística de agilidade e custos baixos para transferência dos produtos.”

Segundo Shinzato, a situação do abastecimento nacional tende a ter maiores problemas entre setembro e outubro. “Não será uma questão de pane seca geral, a chance de os postos ficarem 100% sem produtos é zero. O que pode acontecer são faltas pontuais em algumas regiões, no interior do país.”

Dado o cenário constante de defasagens, as associadas da Abicom não realizaram importações no ano de 2022 até o momento. As compras de combustível no exterior têm sido feitas principalmente pelas grandes distribuidoras. Segundo o presidente da Abicom, é necessário negociar os contratos de importação com uma antecedência de 60 a 90 dias. Portanto, para garantir o suprimento no período da safra agrícola, seria necessário iniciar as negociações em breve. “Os preços [da Petrobras] têm que estar alinhados com o mercado internacional para dar um mínimo de previsibilidade e segurança para que as importações aconteçam”, diz Araújo.

O último reajuste no preço de venda do diesel nas refinarias da Petrobras às distribuidoras ocorreu em 10 de maio, quando o combustível teve um aumento de 8,9% e passou a ser negociado, em média, por R$ 4,91 por litro.

Procurada, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) afirma que está dedicada a acompanhar a situação e a propor as medidas que se mostrarem necessárias para garantir a oferta. “Representantes da agência mantêm contato permanente com os agentes do setor, têm conversado com especialistas e analistas sobre o cenário mundial atual e seguem atentos ao cenário nacional e ao internacional”, afirmou.

Na sexta-feira, o Ministério de Minas e Energia informou que o país tem estoques de óleo diesel S10 que representam 38 dias de importação. A informação foi divulgada após o Valor noticiar que os estoques eram de 20 dias. Esse período foi informado por produtores e distribuidores à ANP. O governo intensificou o monitoramento depois do início da guerra na Ucrânia. Com o conflito, os preços do diesel se “descolaram” dos preços do petróleo e subiram mais do que a commodity. Especialistas apontam que é possível que o diesel volte a ficar mais próximo ao petróleo nas próximas semanas, mas que o preço tende a aumentar no segundo semestre.

Para a S&P Global, a demanda por diesel tem se mantido alta no país, mesmo com os preços elevados. “O Brasil e a América Latina são dependentes das importações dos EUA. Os próximos meses serão críticos, com a temporada de furacões e a possibilidade de os EUA enviarem mais diesel à Europa, caso os europeus cortem importações da Rússia. Talvez China e Índia possam mandar mais diesel para o Brasil, mas a distância é maior”, diz Felipe Perez, da S&P Global.

Gabriela Ruddy – Valor Econômico