Negócio

Opep leva petróleo ao maior nível em quase quatro anos


Valor Econômico - 25 set 2018 - 09:22

O petróleo consolidou ontem (24) uma tendência de valorização que se desenha desde o fim do primeiro semestre. A expectativa de menor produção do Irã e da Venezuela, os problemas dos Estados Unidos para exportar e o baixo interesse da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e seus aliados, como a Rússia, em elevar a oferta levaram os preços à máxima em quase quatro anos.

O primeiro contrato do Brent, com vencimento em novembro, subiu 3% na ICE Futures de Londres, para US$ 81,20 o barril, maior valor desde novembro de 2014. Na máxima do dia, chegou a US$ 81,39. Na Nymex, de Nova York, o WTI para o mesmo mês registrou valorização de 1,8% para US$ 72,08. Desde o fim de maio, quando se iniciou uma onda compradora da matéria-prima, o Brent subiu 4,7% e o WTI, 7,5%. No ano, os dois tipos tiveram aumentos de 21,43% e 19,30, respectivamente.

Os ganhos animaram os investidores do setor. As ações da Exxon Mobil avançaram 1,68% na Nyse, a bolsa de Nova York, para US$ 86,60, e as da Chevron subiram 1,23%, para US$ 122,62. Em Londres, os papéis da Royal Dutch Shell fecharam em alta de 1,01%, para 25,95 libras (US$ 34,10). A Petrobras reagiu bem à notícia e os papéis ordinários subiram 1,8% na máxima do dia, de R$ 23,70, mas não resistiu ao pessimismo na bolsa. Petrobras ON caiu 0,52%, para R$ 23,15, e PN recuou 0,7%, a R$ 20.

Durante reunião no fim de semana, realizada na Argélia, Opep e aliados chegaram à conclusão de que não é necessário aumentar o ritmo de produção, mesmo com o saque mundial de estoques da commodity e a disparada da cotação. Eles, dessa maneira, se opõem diretamente ao presidente dos EUA, Donald Trump, que pressionou o cartel a "derrubar os preços" no Twitter.

"Em vez disso, a decisão continuou a ser de cumprir 100% dos cortes [em voga desde o começo de 2017]. Como a redução da oferta continuava acima do acordado, as nações determinaram que não havia necessidade de elevar a produção em 1 milhão de barris por dia", comenta Carsten Fritsch, do Commerzbank.

Para o banco Credit Suisse, o equilíbrio entre oferta e demanda no mercado mundial necessariamente passaria pela participação da Opep no assunto. Atualmente, já há um déficit de oferta que está reduzindo os estoques mundiais - ou seja, se consome mais petróleo no planeta do que se extrai -, escrevem os analistas do banco. Há ainda a possibilidade de o Irã contribuir com menor oferta, dando maior impulso aos preços.

"Continuamos otimistas com a cotação do petróleo e o setor de exploração e produção em geral no mundo", escreve a instituição em relatório. "Acreditamos que o mercado está com oferta abaixo do consumo modestamente e continuamos a ver uma subavaliação dos preços na curva futura."

Nos cálculos dos analistas, apesar de prometer elevar a produção em 1 milhão de barris por dia na reunião de junho, a Opep e seus aliados acrescentaram apenas 830 mil barris diários à oferta mundial desde então. O saque de estoques no quarto trimestre e em 2019 deve se aproximar de 400 mil barris por dia, projetam.

Mesmo antes da decisão da Opep, que animou os mercados hoje, o Bank of America Merrill Lynch (BofA) já havia previsto uma alta considerável dos preços até o ano que vem. Para os analistas da instituição, a postura dos Estados Unidos tornou-se mais agressiva em termos de sanções ao Irã, o que provavelmente fará o país cortar ainda mais sua oferta. A estimativa inicial era de uma redução em 500 mil barris por dia na produção iraniana. Agora, é de 1 milhão de barris por dia. Ao mesmo tempo, a demanda deve se manter quase a mesma que se esperava, elevando o déficit de 300 mil barris para 400 mil barris diários em 2019.

Por conta disso, o banco elevou sua estimativa para o Brent na média de 2019, de US$ 75 para US$ 80, e a do WTI também, de US$ 69 para US$ 71. As contas consideram ainda o Brent em US$ 74,10, na média, durante 2018, e em US$ 80 no fim do ano. Até junho de 2019, o barril pode subir a US$ 95, acrescenta o BofA. O WTI deve ficar com média de US$ 67,30 no ano, chegando a US$ 70 em dezembro. O ponto máximo previsto pelo BofA é de US$ 80 em junho de 2019.

O Citi vai além. A depender do comportamento da oferta, especialmente de Irã, Iraque, Líbia, Nigéria e Venezuela, é possível que a commodity atinja o patamar de US$ 100 por barril já no fim de 2018. "O equilíbrio do mercado está muito precário e a falta de capacidade excedente pode fazer o preço chegar a US$ 90 ou a até US$ 100, caso todo o risco potencial se materialize", afirma o banco, em relatório. "Seria necessária uma intervenção cuidadosa da Rússia, da Arábia Saudita e dos Estados Unidos, em conjunto, para manter o mercado equilibrado."

Esse, contudo, não é o cenário principal considerado pelos analistas da instituição. A estimativa formal é de que o Brent fique em US$ 80, na média, durante o quarto trimestre.

Mas nem todo o mercado está otimista com a commodity. A consultoria Capital Economics alerta para a possibilidade de arrefecimento da demanda ao longo do ano que vem. Na visão do economista Yasemin Engin, que assina o relatório, as economias de China e EUA vão desacelerar em 2019, consumindo menos petróleo. Os altos preços e o protecionismo em alta também devem pesar, acrescenta o texto.